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Chuva de Papel

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Em Chuva de papel, acompanhamos a trajetória de um repórter policial decadente que precisa encontrar forças para lidar com o dia a dia depois de uma situação inesperada. Nesse percurso, ele descobrirá uma história memorável que o fará escrever novamente. Terceiro livro da autora de A vida invisível de Eurídice Gusmão, este é um romance tragicômico, intenso e sensível.

Joel Nascimento é repórter, arquivo vivo das transformações do Rio de Janeiro. Ele passou meio século nas redações noticiando o lado B da Cidade Maravilhosa, e agora enfrenta dificuldades financeiras, problemas familiares e alcoolismo. Após uma peculiar tentativa de suicídio, sua vida toma um rumo inesperado quando ele é obrigado a morar de favor com a tia de um amigo. Glória é uma senhora energética, que exige mais interações e boas maneiras do que ele está disposto a dar. A esse arranjo junta-se a falante vizinha Aracy e seus dois chiuauas grisalhos.

Da convivência inesperada e pontuada por atritos corriqueiros emerge um companheirismo que preencherá o vagar das horas. À medida que Joel se ambienta à nova rotina, ele se verá diante de uma última história formidável, e sabe que deve contá-la. Passado e presente se alternam neste romance entremeado da crueza da vida marginal e de dissabores afetivos.

247 pages, Kindle Edition

First published March 24, 2023

13 people are currently reading
389 people want to read

About the author

Martha Batalha

10 books237 followers
Martha Batalha worked as a journalist and publisher for many years in her home country of Brazil. She moved to New York in 2008, where she worked in the publishing industry. “The Invisible Life of Euridice Gusmao” is her first novel. It was sold to several countries and it will soon become a major motion picture. She is currently finishing her second novel, a family saga set in Ipanema. Martha lives in Santa Monica, California, with her husband and two kids.

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Community Reviews

5 stars
80 (19%)
4 stars
164 (40%)
3 stars
131 (31%)
2 stars
29 (7%)
1 star
6 (1%)
Displaying 1 - 30 of 67 reviews
Profile Image for Gabrielle Cunha.
439 reviews116 followers
May 30, 2023
Gostei demais dessa tragicomédia carioca!

Martha tem um humor muito irônico e ainda assim consegue falar de tantas coisas; (como ela mesma disse em uma entrevista, “o humor é uma resposta aos absurdos da existência”) adoro o fato da cidade do Rio de Janeiro ser um personagem também.

Joel, o protagonista, é detestável, machista, complexo. Um jornalista endurecido pela vida e pelo trabalho. Com questões de solidão, envelhecimento, bem melancólico.

Glória e Aracy, as mulheres (maravilhosas) que poderiam ser mas não foram.
Profile Image for Karine Fetti.
38 reviews4 followers
May 16, 2023
Não dá pra ganhar todas, mas aparentemente pra perder dá sim! Senti o impacto desse livro que me deixou com a sensação de que a vida é nada mais que uma sucessão de tragédias e que, ainda assim, por qualquer motivo sem explicação, por incompetência ou falta de coragem, a gente continua em frente.
Senti o impacto também desse encontro improvável de abandonados, que não puderam sentir o que sentiam, não puderam identificar os sentimentos e que a única forma de expressão é através da implicância constante e preocupada, da presença inegociável e do respeito herdado pela com a canga.
Sensível e impactante, como toda história de vidas comuns e invisíveis é.
Profile Image for Leila de Carvalho e Gonçalves .
79 reviews35 followers
April 15, 2023
Joel Nascimento, lendário repórter carioca, terá de arcar com o ônus de uma vexatória tentativa de suicídio. Com uma perna quebrada em dois lugares, que precisa ficar imobilizada pelo menos três meses, ele é obrigado a abandonar o quarto alugado numa pensão, para morar de favor no apartamento de Dona Glória, tia de um jovem colega. Lá, ele receberá a devida atenção e, sobretudo, haverá alguém de olho, para impedi-lo de saltar novamente do parapeito de algum edifício.

É uma nova realidade que se prolonga pela chegada da pandemia de COVID-19, resultando numa convivência difícil com uma desconhecida e seu círculo de amigos, como Aracy e seu casal de chihuahuas, que pouco a pouco faz as reminiscências transbordarem, tornando o Rio de Janeiro mais uma personagem do livro, e a cidade, destituída de idealizações, surge num esboço apaixonante e irretocável.

Uma rotina que vai aparando as arestas de um machão com pinta de sedutor mas absolutamente inábil no trato com as mulheres. Por outro lado, Glória e Aracy trazem na bagagem o retrato de uma sociedade patriarcal que permite a mulher desempenhar apenas o papel de boa mãe e esposa, algo com que não foram premiadas. Enfim, reinterpretando Quincas Borba: “Aos homens, as batatas!”

Chuva de Papel é o terceiro romance de Martha Batalha. Uma tragicomédia marcada pelo humor e a crítica social, suas especialidades. Aliás, virei fã da escritora desde que li seu livro de estreia: o impagável A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” e, em seguida, Nunca Houve Um Castelo.

Quanto ao título, a tal chuva de papel simboliza um rito de passagem, o início de uma nova etapa, quando finalmente Joel conseguir fazer as pazes com o passado e, fortalecido, estiver disposto a encarar o futuro. Aliás, o desfecho traz à luz fatos surpreendentes, tornando os últimos capítulos uma montanha-russa repleta de emoções.

Vida longa para Joel e boa leitura!


“Mamãe provinha de uma linhagem de mulheres com movimentos limitados pelo preconceito do trabalho manual. Depois da morte de papai, ela precisou dispensar a empregada. Apareceu outra. Da minha idade, creio eu. Andava pela casa como um passarinho assustado, corpo sambando no uniforme da empregada anterior. Trabalhava por comida. Numa noite, tive insônia. Pedi um copo de leite para mamãe. ‘Peça para a Maria’, ela disse. Atravessei a cozinha rumo ao quartinho dos fundos. Empurrei a porta. No colchão encostado à parede, Maria dormia encolhida, a mão direita protegendo uma batata com pernas de palito. O quarto abafado cheirava a trabalho e a corpo limpo sem sabão.
Encabulei, mas se minha mãe havia me dito para fazer era porque era o certo. Pedi o leite. Maria sentou-se no colchão e esfregou os olhos. Levantou-se e foi para a cozinha. Usou um banco para alcançar o gabinete com o copo. Serviu-me o leite numa bandeja. Estendi o braço. Eu estava exercendo um direito, que me pareceu errado, e percebi que era a minha percepção sobre o direito que estava errada num mundo engessado anterior a mim. Pensei em dizer a ela que tínhamos o mesmo nome. Fiquei calada. Ela também, nunca disse uma palavra. Minto. A batata com pernas de palito ela chamava de Lilica.” (Glória, Páginas 189 e 190)
Profile Image for Silvia.
363 reviews20 followers
April 1, 2023
Me dói dar só 3 estrelas. A escrita dela continua sensacional e os personagens são ótimos. Marquei vários trechos. Mas para o meu gosto o livro é introspectivo demais, faltou enredo. Achei arrastado em vários pontos. As minhas expectativas não ajudaram, já que amei A Vida Invisível de Eurídice Gusmão e gostei bastante de Nunca Houve um Castelo. Bom, ninguém é perfeito.
Profile Image for Luciana.
520 reviews164 followers
May 6, 2023
Sempre fico contente quando leio algo que me remete a Roth, ainda que indiretamente. Foi o que ocorreu aqui, sendo Joel e sua jornada de vida e morte (mais morte do que vida) um personagem que se assemelha muito aos protagonistas do escritor estadunidense.

Como Roth, Martha Batalha narra a parte final da velhice e dos vícios de um jornalista outrora premiado e hoje esquecido, imerso em caos em todos espaços possíveis, com a família, com os amigos e consigo mesmo, em um caleidoscópio de atentados que reverbera não apenas em si, como naqueles a sua volta.

Visando por fim a vida e nunca tendo sucesso nas tentativas, aos poucos a escritora mescla passado e presente para levar o leitor a um Rio de Janeiro caótico, sanguinolento e perigoso; destampando os cheiros e sabores de uma cidade camuflada sob a visão do jornalista, que revisita o ontem enquanto tenta aniquilar o hoje. No mais, a velhice, a desesperança, a solidão, o machismo, as violências e o feminismo se entrelaçam na escrita tão agradável da autora, como o é em suas outras obras, tornando a leitura um despertar para as mulheres que ainda não sabem ou não podem utilizar sua voz. A mim, uma boa leitura.
Profile Image for Ádrian.
Author 2 books24 followers
April 18, 2023
Recomeçar é uma palavra que bota medo. Ela é imponente. É algo que a gente evita ao máximo porque tem medo do que pode vir depois ao mesmo tempo que tem mais medo ainda do que deixamos para trás. Mas, de alguma forma, recomeçar é uma constante na vida de todo mundo, mesmo quando, no caso de Joel, o recomeço parte de algo que era para ser um ponto final.

Pontos finais nem sempre estão exatamente onde a gente queria que estivessem. Às vezes estão muito antes do que imaginávamos, outras vezes nunca chegam, mas muitas das vezes acabam fazendo com que as sentenças mudem completamente para sempre e se transformem em algo inimaginável.

Martha Batalha pega recomeços e pontos finais e transforma no gigante “Chuva de Papel” com maestria ímpar. É como se os pontos que chegam muito antes do que o previsto e os recomeços que estão acontecendo a todo instante sem realmente querermos deixem de ser imprevistos na vida dos personagens para se tornar exatamente o que deveria ser exatamente quando deveria ser.

É um romance bem humorado quando deve ser, triste quando deve ser e sério quando deve ser. Não há espaços para inconveniências na narrativa da história dessas pessoas.

'Chuva de Papel' é para aqueles que cresceram precisando lidar apenas com o que o contexto em que estavam inseridos era capaz de promover. Para aqueles que cedo desistiram de si em prol da felicidade de quem ama e que se encontraram tarde demais para que houvesse uma mudança efetiva. Para os que recomeçam ao invés de colocar pontos finais e para os que acabam colocando pontos finais muito antes de terminar seus recomeços.

'Chuva de Papel' é a sensação de liberdade após ficar preso no que não é. A sensação de alívio após se livrar de uma pressão que colocaram em cima de você. É o interesse por si mesmo que vem depois d muito tempo tentando se manter interessante apenas para os outros. É se encontrar depois de passar a vida perdido.
Profile Image for João.
228 reviews49 followers
May 18, 2024
foi gostoso ler este romance carioca imaginando os personagens falando chiado
Profile Image for Vera Sopa.
751 reviews72 followers
August 23, 2023
Glória e Joel. Que dupla!
Um jornalista da velha guarda desencantado com a vida e completamente falido tem que aceitar ajuda e adaptar-se a uma nova realidade. Glória é a pessoa que o vai pôr na ordem e essa interação é deliciosa numa narrativa político-social perturbadora mas espelho da realidade. O humor para contrabalançar a dor. Um livro tocante. Glória é a consciência social de tudo o que está mal. Joel o testemunho. E no susto se lê esta história quando se chega na segunda parte com outra personagem forte como Aracy.

Martha Batalha é mais uma autora brasileira que não dispenso. E este romance... Marca. É um romance da pandemia e de balanço em que habilmente recua ao passado e retoma a atualidade sem perder o interesse ou o foco. E o foco é o individuo. Ainda que próximo parece distante e irreal o que se viveu.
E mesmo noutro continente e noutro contexto convém não perder de vista o essencial que este romance nos traz. Imperdível.
Profile Image for mariakpa.
48 reviews
May 20, 2023
Eu amei muito os dois outros livros que eu li da Martha Batalha, então acho que fui ler esse ja com aquela expectativa alta. mas nao rolou muito nao. achei a segunda metade bem melhor do que a primeira e o livro nao é um livro ruim, so nao achei maravilhoso.
Profile Image for Luciana Betenson.
279 reviews1 follower
July 31, 2023
Adorei Chuva de Papel. Tragicômico na mais perfeita definição, quando as desgraças humanas são permeadas de humor e de lances ternos, sensíveis e bonitos, é uma leitura que prende a gente. Acho que a Martha neste livro está mais madura como escritora, gosto muito dela. Amei a Glória e a Aracy, que personagens maravilhosas! E que inclusive continuam a saga das personagens mulheres muito sofridas, mas fortes e resilientes, da Martha. Outro ponto bacana do livro é que a cidade do Rio de Janeiro é praticamente uma personagem. E não o Rio dos turistas ou da Zona Sul das novelas, ou ainda o Rio das comunidades dos morros, mas o Rio raiz da classe média, de quem mora longe da praia, de um clima quase de interior. A narrativa também alterna as histórias dos personagens com as histórias do Joel, que trabalhou a vida toda naqueles jornais tipo "Notícias Populares". E ainda ambienta parte da história durante a pandemia. Ou seja, muitas coisas interessantes. Vale a pena ler.
Profile Image for Giselle.
38 reviews1 follower
April 26, 2023
Apesar de amar os outros livros da autora, nesse demorei a engrenar na leitura. Não pela escrita em si que continua formidável, mas pelo personagem principal que achei deveras odioso. Como o início foca muito nele, era quase um tormento.
Mas daí entram Glória e Aracy na história, e também a pandemia de COVID19. E tudo começa a ter outro brilho... finalmente meu interesse se acendeu! Glória principalmente é uma personagem quase emblemática, conforme desenrolamos seu passado. As peculiaridades da pandemia também dão outro sabor à história. Particularmente a cena em que estão no carro e ouvindo o noticiário, que cena fantástica!
É um bom livro com uma escrita primorosa - daquelas que dá um gostinho de admiração pela língua portuguesa.
Profile Image for Beatriz Singer.
Author 4 books3 followers
March 22, 2024
Eu amei esse livro e amo a forma como escreve Martha Batalha. Sou fã de carteirinha. No entanto, fiquei confusa em algumas passagens. Talvez a troca de uma história para a outra pudesse ter sido mais bem demarcada.

A reler!
Profile Image for Laura Perdigão.
175 reviews1 follower
December 24, 2023
Que pequena maravilha - adorei, adorei este livro. Aqui, acompanhamos o repórter Joel, depois de uma tentativa de suicídio falhada, que nos vai contando a sua vida, colada à violência e tragédias diárias no Rio de Janeiro (Totó ❤️‍🩹), que sempre perseguiu. A fazer-lhe companhia, duas mulheres fortes, Glória e Aracy, que vão misturando realidade e humor habilmente. Sinto que sublinhei o livro todo. Que delícia.

Do livro:

“Nas manchetes de jornal as mortes eram vendidas como exceção. Era na verdade o oposto. Elas descreviam o inevitável, o que cedo ou tarde aconteceria aos leitores. Qualquer pessoa tinha vocação para notícia, nem que fosse para preencher o obituário. O extraordinário não era o fim, mas o cotidiano.”

“Gabinete de banheiro, prateleira de geladeira e sapato. Dize-me como são e te direi quem és, ele pensa.”

“"Aracy, você pode fazer tantas coisas da vida". Ela, "Vida?". Eu, "O avião é só seu, o copiloto sumiu".”

“Teu pastor nem sabe o que é isso. Esse jogo tem uns quatro mil anos. Até pecado inventaram depois.”

“Alguns assuntos ignoravam o calendário.”

“Eu fiquei nervosa, disse que precisava de guia. Ele disse, "Se eu te guiar, não vai ser só a sua memória que vai me contar.
Vai ser também o meu jeito de te ver". E não é que era
verdade? Se eu dissesse o que eu queria, em vez do que ele queria saber, o que eu diria seria mais cheio de mim.”

“Ele disse que era uma tatuagem em homenagem ao pai. "Com escamas?", perguntei. "E um dragão", ele disse. "Mas, meu filho", respondi. "Há tantas formas de se homenagear um pai. Escreve um cartão."”

“Eu tinha dois filhos, todo mundo tinha dois filhos, e uma mulher do ladinho na cama. Algum dinheiro na poupança, para quem sabe mais adiante comprar um terreno na serra. Vontade de ir a uma festa junina, de passear aos domingos na Quinta da Boa Vista. Querendo viver bastante, para poder conhecer um neto. Essas ilusões bonitas, que fazem a gente seguir. Apesar de tudo, e principalmente por causa de tudo, era preciso proteger essa felicidade simples, os detalhes que fazem a gente acreditar que a vida vale a pena. E nos tornamos dóceis. Por comodismo, necessidade, hipocrisia e imposição.”

“A gente foi se acostumando com a violência, e só de vez em quando se assusta.”

“Eu sei quando tudo começou. Com o Esquadrão da Morte nos anos 1960. Com incêndio suspeito em favela, e o povo enxotado para os subúrbios. E antes disso, com Filinto Müller, torturador do governo Getúlio, que treinou os policiais do Esquadrão da Morte, que treinou o pessoal das milícias. E muito antes, com capitão do mato torturando escravo, negro açoitado no pelourinho. São vários os começos.”

“Aceitando e entendendo a parte que lhe cabia na crueza do mundo. Essa crueza maciça, que para absorver a gente precisa botar umas lentes, usar eufemismos, fazer aos poucos.”

“Foi embora sem mais nem menos e de uma hora para outra. Tá certo que todo mundo morre de uma hora para outra, de um segundo para outro. Mas todo mundo não é quem a gente ama.”

“Um começo. Preciso pensar. É que eu passei a vida tentando esquecer, então na hora de lembrar o trabalho dobra. E a quantidade me atordoa. Eu e o Antigo Testamento, estamos assim de passado.”

“Mas não era medo. Era a noção da vastidão da paisagem, da grandiosidade do que havia diante de mim, e a consciência de que havia muito mais para conhecer e experimentar. Ah, eu queria tanto! Queria uma vida do tamanho daquela paisagem.”

“O senhor Gonçalves, dono da editora, sugeriu uma mocinha para me ajudar com o texto, por um valor. Perguntei o valor. Ele disse, eu respondi, "Meu caro, nem Deus pagaria isso para escreverem a Bíblia”.”

“Meu filho, aquilo não era uma ideia. Era holofote no certo, se acendendo diante de mim.”

“Juro a você, se um dia eu estiver frente a frente com um desses repórteres urubus que colocavam essas porcarias no jornal, digo-lhe poucas e boas. Bando de mercenários. Vendiam a dor dos pobres para os pobres. Exageravam para vender mais. Banalizavam o sofrimento. Tiravam das pessoas o direito de sofrer em privado. Pobre nem sabe ter esse direito, de sofrer em privado. De não ter as entranhas de um filho expostas na primeira página, para o Rio inteiro ver. (…) A tristeza dos ricos era privada, a dos pobres, um espetáculo.”

“Joel se define como um cético com ressalvas. Acredita em bife a cavalo e contas pagas. Mas esse tutti-frutti abstrato, como ele definia fantasma, astrologia, comida vegana e fidelidade, é para ele balela.”

“Um amigo disse, "Joel, homem gosta de mulher. Mulher gosta de contexto".”

“Meu filho, resiliência é a arma das mulheres, e a maldição e a salvação.”

“A cena me vem num momento de distração, quando estou dobrando a roupa ou varrendo a sala. É como se a minha mente dissesse: calendário está livre, vou colocar aqui um tormento.”

“Morreu ao lado da pilha de tragédias do jornal. Uma vida consumida por elas, e a morte de acordo, na companhia das mesmas. O acaso também tem narrativas.”

“Fim de ano, tudo quanto é carioca vira o pior tipo de pirotécnico, que é pirotécnico bêbado.”

“Sou dona de casa, quer dizer que ao menos sou dona de algo. Condomínio e IPTU em dia. Tomo banho com água morna e sem juntar restinho de sabonete. Tenho as minhas colônias, o meu hidratante. Chega a noite, eu vejo novela.
Minha amiga mora perto. Estou do lado dos que tiveram sorte.”

“Meu filho, é como as pessoas se quebram. Deixam de se cuidar. Para prosseguir.”

“Sou especialista em empadão. A economia do país melhorava, empadão ganhava azeitona. Piorava, eu engrossava o recheio com maisena, disfarçava o pouco de carne com ervilha. Reclamavam, "Dona Glória, o empadão tá massudo". Eu dizia, "Ervilha tem fibra, come que é vegetal". Crosta dourada por cima do empadão, em bons tempos era gema pura de ovo, nos maus era gema com borra de café. Dava mesmo para fazer a evolução da economia do Brasil de acordo com a qualidade dos meus empadões.”

“Era esquisito, mas esquisitos somos todos, e os esquisitos também amam.”

“Chegamos à parte picante. Não se anime nem se envergonhe, é picante como pimenta em anúncio de revista, se alguém for provar vai sentir gosto de papel.“

“Um rapaz desse tamanho, encabulado. Você veio para me conhecer. Então. Virgem nessa casa só o azeite, e olhe lá. Às vezes eles batizam com óleo.”

“Tudo passa. Menos ônibus quando a gente precisa.”

“O homem disse algo sobre as histórias só existirem enquanto os livros são lidos. Para ele, era o contrário. Joel só existia quando contava uma história.”

“(…) todas essas mulheres tinham inventado, estavam inventando ou iriam inventar o feminismo. E me pareceu errada a perda de tempo e de energia, a perda de vida, mesmo, numa invenção que se dava de novo e de novo, e ainda mais errado ser esse o final feliz, porque tantas outras, a maioria, eu me dei conta, passariam pelo mundo sem saber dessa voz, ou com uma vaga noção de que existia, mas sem poder experimentá-la, como um bem. Não é a coisa mais triste que pode acontecer a uma pessoa?”
Profile Image for Gustavo Ferreira Martins.
8 reviews
April 1, 2023
O terceiro livro da autora tem a mesma qualidade dos anteriores (e se não tiver lido os demais, não poderia indicar mais). Texto tragicômico com histórias que se cruzam e prendem o leitor. Obra bem carioca mas agradável para todos.

Não dá vontade de parar de ler.
Profile Image for Nathalie Gonçalves.
167 reviews40 followers
February 8, 2025
“Não existe impotência maior que a de uma criança obrigada a comer o que detesta. As repugnâncias aos nove anos ainda se dão o direito de serem fortes. Depois a gente acostuma e engole de tudo, e me refiro à gororoba da vida adulta. Mas aos nove anos, quando uma criança se vê impotente de frente para um pratinho de bacalhau, o mundo se torna um lugar muito mau.”

eu queria dar mais uma estrela para esse livro.
eu queria dar todas as estrelas possíveis, uma constelação - a mesma que Aracy confunde com “constatação”, eu acho.

resolvi levar um dia inteiro para terminar esse livro. parei em alguns momentos; precisava respirar, chorar por dentro. É um romance sobre morte, mas, principalmente, sobre a vida apesar da morte. sobre solidão, velhice, memória, medo, sobre os caminhos que a gente sonha trilha e os que a gente trilha de verdade. sobre um feminismo criado no meio do subúrbio, entre vozes conscientes de uma realidade que ninguém pediu, mas que vai levando. sobre a pandemia, sim, ela é uma coadjuvante nesse romance. e o Rio de Janeiro, meu estado, lugar de altos e baixos, onde um túnel parece separar tudo - vidas, verdades, mentiras, cheiros, sonhos, pessoas, medos, coragens, cidades. as muitas cidades dentro de uma só. as muitas sobrevivências dentro de uma única pessoa. as muitas ironias dentro de uma única vida.

nunca pensei que ficaria um dia inteiro lendo um livro. saio outra pessoa dessa experiência, e repleta de grifos. obrigada, Martha.

“Meu filho, resiliência é a arma das mulheres, e a maldição e a salvação.”

Profile Image for Sabrina De Araujo.
98 reviews2 followers
October 10, 2024
Sou apaixonada pelo estilo tragicômico das obras da Martha Batalha. Esse livro, embora com início um pouco lento e desinteressante devido ao protagonista extremamente desgostável, foi uma boa companhia nesses últimos dias. Não chega a ser tão impactante quanto A vida invisível, mas tem seu brilho. Ele me fez pensar bastante na vida e na morte, nos sonhos não realizados (principalmente de mulheres), e na exibição de mazelas sociais no meio jornalístico. É bizarro como essa indústria pode ser cruel, e sabemos como o sistema alimenta essa lógica.
Profile Image for Ines.
193 reviews10 followers
September 25, 2023
Um repórter, nascido e criado no Rio de Janeiro. Uma vida encruzilhada por dezenas de outras vidas. O lado negro do Rio dos anos 70/80 e do Rio da pandemia.

Fiquei fã da @martha_batalha quando li o A Vida Invisível de Eurídice Gusmão e revalidei o meu estatuto com este Chuva de Papel.

Entre o relato cru e duro do dia a dia do Rio, o humor subtil que perpassa as relações interpessoais e a mestria com que tudo é conjugado, @martha_batalha é sem dúvida uma autora a conhecer e a seguir.
Profile Image for Bebel Sader.
145 reviews16 followers
October 3, 2023
Três estrelas porque o livro é bem abaixo dos dois títulos anteriores da autora. Talvez seja pelo protagonista, um jornalista aposentado e deprimido, que me distanciou um pouco do enredo. Ainda assim tem boas tiradas e revive algumas notícias marcantes na vida carioca em um contexto de pandemia.
Profile Image for Vivian Marques.
322 reviews7 followers
April 3, 2024
É uma graça, só senti que alguma coisa na estrutura ou organização desse livro ficou meio embolada, gosto mto da escrita da Martha de qualquer forma
Profile Image for Thatiane.
31 reviews
June 24, 2025
A história é trágica e cômica na mesma medida. Às vezes me perdia na leitura, mas nada que uma releitura não recuperasse o embalo.
Profile Image for Anna C.
38 reviews7 followers
January 27, 2024
Não queria terminar, ao mesmo tempo que queria terminar.
Martha Batalha escreve bem demais, é uma leitura tão tão gostosa. Personagens imperfeitos que parecem pessoas reais. Tendo uma família bem tijucana, o livro toca mais ainda. Uma delícia. Saudades de Joel e Glória.
Profile Image for Luisa Filgueiras.
16 reviews
July 3, 2024
Eu acho incrível como parece que a escrita da Martha sai de dentro da gente.
Profile Image for Adriana Santos .
173 reviews
February 25, 2025
Um bom jeito de descrever esse livro é como uma grande colcha de retalhos. Existe um fio narrativo, que é Joel, um jornalista aposentado, extremamente deprimido e um tanto quanto babaca, pra não dizer coisa pior. O começo impacta, mas depois a história se arrasta bastante, o que desanima, e só lá pela segunda parte as coisas tomam um ritmo que ajuda a embalar mais a leitura.

Joel é um personagem complicado. Quando temos alguém que não é muito agradável como protagonista, sinto que ele precisa ser pelo menos "carismático", o que não é o caso. Apesar de a autora trazer um humor sarcástico, não acho que isso tenha sido suficiente para resolver esse problema. A escrita talvez tenha impactado essa sensação, já que, para mim, muitas vezes, ela não cativou.

Agora, voltando ao ponto da "colcha de retalhos", o livro traz vários trechos do passado de Joel – alguns interessantes, outros nem tanto. Muitas vezes, acho que isso mais atrapalha do que ajuda. Teria preferido que, em vez de jogar recortes avulsos da vida do personagem ao longo da história, a autora tivesse aprofundado mais as questões que estavam acontecendo no primeiro plano, entre Glória e Joel.

Sobre a escrita, não sei bem o que pensar. Há passagens e momentos muito bons, mas, muitas vezes, a escrita da Martha, pelo menos nesse livro, me impediu de criar conexão com o que estava sendo narrado. A história ficou apática para mim, tanto que o final nem me pegou da maneira como eu gostaria.

Pra encerrar, não é um livro ruim. Ele é lento, introspectivo e perspicaz de certa forma, mas sinto que poderia ter sido muito mais.
Profile Image for Cristina.
104 reviews5 followers
June 11, 2023
Eu estava em dúvida se iria escrever sobre o livro “Chuva de Papel”, de Martha Batalha. Demorei alguns dias acabando de absorver a história, antes de decidir postar sobre ela aqui.

A questão é que o protagonista da história, Joel, é um daqueles anti-heróis pelos quais a gente não sente empatia nenhuma (pelo menos eu não senti). Como o Balram de “O Tigre Branco“, ou um dos gêmeos de “Véspera“, de Carla Madeira.

Pra piorar (pro meu lado), ele é um jornalista das antigas, repórter carioca casca-grossa, que já cobriu de tudo um pouco – de assassinatos a corruptos a milicianos, passando pelo que ele não pôde cobrir porque a ditadura censurou.

Ou seja, eu tinha tudo para simpatizar com ele, jornalista que sou desde criancinha, mas não consegui.

E aí a vida dele cruzou com a de Glória, uma senhora da idade dele, arretada, valente e para quem não tem tempo ruim. Ela ganhou meu coração.

Leia mais: https://kikacastro.com.br/2023/06/02/...
Profile Image for bia.
53 reviews
July 3, 2023
talvez numa releitura ele ganhe 5 estrelas!

pra mim é sempre muito especial fazer leituras nacionais, a intimidade que se cria com a história e com os personagens tem sempre a ganhar na intensidade e complexidade, a identificação com as características culturais é um bônus muito bem-vindo.

é a primeira leitura que faço dessa autora e gostei bastante! a escrita é uma delícia especialmente na segunda metade do livro pq tem o ponto de vista da glória com mais destaque. posso dizer que gosto do tom do personagem principalmente detestável, é uma pessoa de verdade de tão detestável que é e isso é muito bom mas acho que eu teria feito uma leitura mais satisfeita se os pontos de vista femininos fossem mais explorados.

assim como na vida das personagens femininas, esse livro foi pra mim um quase mas não deixa de ter seu valor...
Profile Image for matheus bruno.
170 reviews5 followers
January 27, 2025
3.5 ⭐

Não é que o livro é ruim ou mediano, em nenhum momento eu achei que fosse. É que eu achei que algumas situações careceram de uma maior profundidade, uma densidade mais complexa que o próprio enredo exigia isso.

Talvez seja pelo estilo de escrita da autora, um limite dela ou uma escolha de como conduzir as histórias que escreve - percebi isso desde Eurídice Gusmão -, mas eu sinto que ela tem potencial para muito mais do que apresenta em seus livros.

No entanto, gostei muito como os relacionamentos são construídos e desenvolvidos, gostei do tom tragicomédia nas passagens que descreviam o Rio de Janeiro à época da ditadura. A partir da parte 2 o livro fica meio solto, mas à medida que Joel e Aracy vão se aproximando e como a interação entre os dois transforma suas individualidades me pegou muito.
Profile Image for Camila Vilela De Holanda.
190 reviews11 followers
October 31, 2024
Eu adoro o jeito como Martha Batalha humaniza seus personagens, abstendo-se de julgamento de valores — esse é o espaço ocupado pelo leitor — ou dando-lhes chances de redenção: Seus personagens são sobreviventes das circunstâncias, trágicas ou cômicas, da mágica do real. Ela sabe tecer a crueza dos dias com a linguagem leve da crônica, imprimindo, assim, o tom dos seus romances. Também brinca com o tempo, fala do que foi, do que é, do que poderia ter sido. Lê-la é pensar no muito que importa, no contemporâneo duro das entrelinhas, mas é, também, trazer certo calor ao coração com o sorriso que fica costurado no canto da boca, entre o escondidinho e o escancarado, sempre disposto a vir a tona, malandro, macio, malemolente.
Profile Image for Marcelo Costa.
128 reviews2 followers
May 5, 2023
A história do livro inicia com um trágico evento do personagem principal - Joel - um jornalista carioca que, após esse evento, se vê sem lugar para ir até quer é enviado pelo amigo (Leandro) para a residência de uma conhecida (Glória) que tinha um desejo de escrever um livro, e lá eles passam a ter um envolvimento parecido com o que encontramos nos personagens ''Tom e Jerry''. A escrita do livro é direta, dinâmica e fácil. Alguns momentos remetem ao período da ditadura no Rio de Janeiro até a contemporaneidade com o pandemia do COVID. Fiquei alguns momentos abalado e, em outros, rindo pelo relacionamento pitoresco dos personagens Joel e Glória, apesar de ter achado o final ''solto.''
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June 2, 2023
Martha Batalha entende profundamente o Rio de Janeiro e o carioca. "Estava aprendendo a falar como os cariocas, num tom elevado, belicoso, com energia intensa e fugaz e uma lógica fogo de palha, que se acendia e queimava na mesma frase. Falava com autoridade e no limiar do grito, deixando claro que o importante não é ser ouvida, mas convencer os outros da minha verdade.". I rest my case.
Só não me apeguei aos personagens.
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