Primeiro de novembro de 1755, dia de Todos os Santos. A população de Lisboa se apronta para viver mais um pacato dia de feriado, sem imaginar o mal que vinha da terra. Em poucas horas, um terremoto devastador, seguido de incêndio e maremoto, destruiria a capital do Império e, junto com ela, sua célebre Real Biblioteca, fruto dos livros reunidos pelos monarcas portugueses por séculos.
A narrativa de A longa viagem da biblioteca dos reis começa a partir desse episódio e percorre eventos fundamentais da história brasileira, sempre através dos livros. A antropóloga Lilia Schwarcz acompanha a reconstrução do acervo nas mãos do marquês de Pombal, os tempos incertos de d. Maria I, o angustiante momento da fuga da família real - que atravessava o Atlântico pela primeira vez - e as vicissitudes de sua nova vida nos trópicos, até chegar ao processo de independência brasileiro - quando se pagou, e muito, pela Real Biblioteca.
Os livros, porém, permitem mais: são símbolos de poder e de prestígio, carregam dons e possibilitam viajar no tempo e no espaço. Ao evadir-se de Portugal, d. João não esqueceu da biblioteca - que veio em três viagens sucessivas -, assim como d. Pedro I não abriu mão das obras e do lustro que elas garantiam: nada como iniciar uma história autônoma tendo uma Biblioteca Nacional desse porte para assegurar um passado e conferir erudição a um país recém-emancipado.
A longa viagem da biblioteca dos reis refaz muitas jornadas e mostra como, por intermédio de bibliotecários mal-humorados, obras selecionadas, ilustrações raras e muitos sistemas de classificação, pode-se contar uma outra história desse mesmo país.
Nasceu em 1957, em São Paulo. É professora titular no Departamento de Antropologia da USP. Seu livro As barbas do imperador - D. Pedro II, um monarca nos trópicos ganhou o prêmio Jabuti Livro do Ano, em 1999. Além deste, publicou também: O espetáculo das raças, O sol do Brasil (prêmio Jabuti de melhor biografia, 2009), D. João carioca - história em quadrinhos sobre a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em coautoria com Spacca -, entre outros livros.
O livro conta a história da vinda da Corte Portuguesa para o Brasil através da história da Biblioteca dos Reis. É um livro longo, bastante detalhado, porém não é um livro de fácil leitura. Para quem procura algo mais leve recomendo 1808/1822. Mas para quem quer ir bem a fundo é um excelente livro.
Por uma dessas coincidências inexplicáveis, estava ainda nas primeiras cem páginas d' A longa viagem da biblioteca dos reis, de Lilia Moritz Schwarcz, com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa, quando soube do incêndio que consumia outro legado da vinda de D. João VI, o Museu Nacional.
Estava pensando nas goteiras da Biblioteca Nacional quando as labaredas reduziam a pó o museu... Uma semana antes, estivemos com a autora, que falava de seu mais recente trabalho, a biografia de Lima Barreto.
O livro desmente algumas ideias comuns, como a de que a vinda da Corte teria sido uma fuga - nem o mais letrado monarca se preocuparia em levar uma biblioteca de milhares de volumes em uma fuga de última hora, e conta a história a partir do fatídico terremoto de 1755, passando pelo período pombalino, o Reino Unido e a Independência de um país sem grandes apreços pela cultura e que foi "inaugurado" por uma carta, pagou 800 contos (uma fortuna) a Portugal pela biblioteca (na Independência).
A biblioteca já esteve no prédio da Ordem do Carmo, na então rua Primeira, e com a República ganhou seu espaço atual, na Cinelândia, próximo ao Museu Nacional de Belas Artes e do Teatro Municipal, o que deveria garantir à praça um status imbatível de centro cultural nacional. Ande mais alguns minutos e você chegará a outra biblioteca - na minha opinião, até mais bonita - o Real Gabinete de Leitura.
A peculiar proibição de livros na América portuguesa não encontra equivalentes na colonização espanhola, que desde o século XVI já criava universidades - como bem destaca Jorge Caldeira em seu História da Riqueza no Brasil, que comento daqui a alguns dias.
Como diz Lilia, "uma história diferente da independência brasileira, contada por bibliotecários".
Apesar de ser um livro denso e de leitura lenta, é muito bem pesquisado e mostra a realidade que os livros de história deixam um pouco de lado (e sim eu entendo que esses livros precisam focar nos pontos principais). Só não dei 5 estrelas porque teve uma hora que fiquei bem cansada de ler kkkk.