Achei que Antonio Fagundes indicou em seu livro, mas não localizei a citação. Depois achei que foi alguma indicação de Tatiana Feltrin, mas busquei entre seus vídeos e novamente nenhuma referência a este conto. Sendo assim, não me recordo quem indicou para mim "O capote" de Nikolai Gógol, mas fato é que, este brilhante e crítico conto russo chegou às minhas mãos e dele só larguei quando cheguei ao fim.
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Para quem não conhece Nikolai Gógol foi um dos grandes escritores da literatura russa do século XIX, conhecido como "sociólogo da miséria da burguesia baixa e pobre".
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Gógol conta a história de um modesto funcionário que se submete a toda sorte de privações para poder comprar um bom capote para o inverno. Quando consegue, é roubado e se vê então tomado por uma melancolia que envolve toda a sua condição.
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O autor ambienta o conto na emergente Rússia ocidentalizada e burguesa, e descreve com crítica e toques ácidos de humor os "jogos" que as pessoas fazem para serem reconhecidas, terem seu "valor" na sociedade.
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Akaki Akakiévitch é funcionário público de alguma repartição ao qual o autor não se preocupa em especificar, mas pontua a miserabilidade e pobreza dos baixos funcionários da burocracia do estado. Ele é muito humilhado e desdenhado pelos colegas, seja pelo seu modo estranho e quieto de trabalhar, introspecção, ou mesmo as próprias vestimentas e é aí onde entra "O capote".
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Ciente do frio que cerca a Rússia e a pobreza na qual muitos viviam, principalmente nosso protagonista introspectivo, Akaki, tal qual os outros de sua classe, só poderia ter um casaco (capote) em toda sua vida. A roupa de frio velha, desgastada e remendada apontava como marcador de miséria e era a centelha dos comentários maldosos.
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"É preciso observar que o capote de Akaki Akakiévitch alimentava também os sarcasmos de sua repartição".
Tendo seu capote totalmente desgastado e poído vê-se obrigado a se privar mais ainda de seus gastos para poder adquirir um novo.
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"Como ele sonhava sem parar com seu futuro casaco, este sonho foi para ele um alimento suficiente, embora imaterial."
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Interessante é observar as nuances do próprio personagem que parece retomar um novo vigor na vida ao conseguir o tão sonhado capote, sendo inclusive bem recebido pelos colegas que antes o humilhava. Agora, diante da nova vestimenta, ele é acalorado pelos funcionários e inclusive convidado à uma festa.
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O desfecho da história já se embrenha pela literatura fantástica sobrenatural, mas é todo o poder da crítica social embutida ao longo da narrativa que devemos nos atentar ao ler.
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"Nos dias que correm, todo sujeito acredita que, se nós atingimos a sua pessoa, toda a sociedade foi ofendida"