A primeiro obra que leio de Miguel Sousa Tavares (adiante virão o Equador e o Rio das Flores, de certeza!), e não podia ter ficado mais estupefacta...o final do livro comoveu-me de tal forma, que fiquei um pouco melancólica.
Mas como tudo tem um começo, dei por mim a pensar, inicialmente, que iria ser uma história chata de uma viagem pelo deserto, em que ele enunciava os belos cabelos loiros dela, o seu sorriso maravilhoso...e tudo isto depois de eu tanto ter ansiado por ler este livro!
Porém, surpreendeu-me, fiquei derretida.
Aos que já leram, passo a citar um excerto:
«Hoje já ninguém vai ao nosso deserto, Cláudia. Os fundamentalistas islâmicos, como os de Laghouat, tornaram-se sanguinários e incontroláveis e os próprios tuaregues revoltaram-se contra o poder de Argel.
Mas a razão peincipal nem é essa. A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo "nada", eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. As coisas mudaram muito, Cláudia! Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardearem-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, e biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, "leves", disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um di
a de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.
Eu próprio não creio que lá volte mais. A menos que tu descesses das estrelas e quisesses vir comigo outra vez.»
Lá onde a Cláudia repousa, estará certamente a olhar pelo deserto, pelos dias maravilhosos que lá foram vividos.