Conan, o bárbaro, é um herói do popular segmento “espada e feitiçaria”, criado pelo norte-americano Robert Ervin Howard em 1932. Originalmente, suas histórias eram publicadas em revistas do gênero pulp destinadas a um público restrito de aficionados por universos repletos de fantasia, ação, terror, horror, feitiçaria e monstros. O criador do personagem, inclusive, não viveu para ver a fama de sua mais célebre criação pois cometeu suicídio em 1936 deixando apenas 21 histórias completas e vários fragmentos. Fim da história? Pois não foi isso o que aconteceu.
O potencial mercadológico do personagem foi sendo notado gradativamente e Conan começou a ganhar fama com a escrita de novas histórias e extensão das histórias originais. A migração para os quadrinhos na década de 1970, primeiro nos gibis da Marvel no célebre “formatinho” e depois com uma revista própria com formato maior, foi fundamental e o personagem ganhou legiões de fãs “quadrinhófilos”. Um dos títulos mais vendidos tendo como base o personagem foi “A espada selvagem de Conan” que teve mais de duzentas edições publicadas entre 1984 e 2001. Além dos quadrinhos o personagem já foi vertido três vezes para o cinema, com dois filmes estrelados por Arnold Schwarzenegger e um por Jason Momoa, além de desenhos animados, série de TV e RPGs.
Hoje em dia, em tempos de “Avengers” e “Justice League”, o personagem perdeu um pouco do apelo mas, graças à persistência dos fãs a “conanmania” sobrevive e o cimério está mais vivo e forte do que nunca.
Essa série francesa, uma curiosa manifestação da “conanmania” na terra de Balzac, baseada na imortal criação de Robert E. Howard é nada menos do que impecável. Com formato gigante, maravilhosa capa dura, acabamento perfeito e quadrinização em cores de fazer cair qualquer queixo. Intitulada “Conan, o cimério” (curioso observar que Robert E. Howard jamais chamou Conan de “bárbaro”), a série propõe-se a resgatar as histórias originais e reproduzir o “verdadeiro” Conan que seria mais condizente com as descrições e enredos criados por Howard e que, de acordo com os criadores da série francesa, foi-se perdendo através das décadas em meio a tanto apelo popular, extensões e adaptações que teriam transformado o personagem numa espécie de “caricatura anabolizada” da proposta original.
Neste volume III da série “Conan, o cimério”, que terá quatro volumes, três histórias clássicas foram adaptadas por artistas consagrados na França e no mundo dos quadrinhos.
A primeira dessas histórias é uma das minhas favoritas. “Os profetas do círculo negro” nos mostra Conan, aqui chefe dos bandoleiros afghulis se envolvendo, de forma um tanto fortuita, numa disputa de poder no rico e poderoso reino de Vendhya. No final das contas o cimério tem que lutar pela sua vida contra poderes místicos e arcanos emanados da soturna figura do mestre do Ymsha e líder dos profetas do círculo negro. Os artistas Sylvain Runberg (texto), Park Jae Kwang e Ooshima Hiroyuki (desenhos e colorização) fazem um trabalho impecável que dá vida à história.
A segunda história chama-se “Inimigos em casa”. Nesta aventura Conan é contratado pelo jovem fidalgo Murilo para eliminar o tenebroso Nabonidus, o sacerdote do rei de uma rica cidade. Certo de ser um “serviço” fácil o cimério é surpreendido por circunstâncias além de seu controle e termina tendo que lutar pela vida com o monstruoso Thak, criatura a serviço de Nabonidus. Excelente trabalho dos artistas Patrice Louinet (texto) e Paolo Martinello (arte).
Os artistas Doug Headline (texto) e Emmanuel Civielo (arte) são os responsáveis pela ótima recriação de “O Deus na Urna”. Nesta curiosa história, um jovem Conan é contratado por um nobre esnobe para roubar um certo artefato de posse de um rico mercador. Quando Conan acessa o palácio do mercador encontra-o morto e, logo em seguida, o recinto é invadido por uma série de personagens que passam a acusá-lo do crime. Começa, então, uma disputa de narrativas entre os envolvidos que nem desconfiam que poderes além da imaginação estão por trás daquele crime. Essa história, curiosamente, tem algo do clássico japonês “Rashomon” pois são vários os narradores que apresentam o seu ponto de vista nem sempre em concordância com os demais pontos de vista.
Textos muito bem escritos, de autoria do especialista em Conan, Patrice Louinet, sobre as adaptações e o contexto em que as histórias originais foram elaboradas fecham muito bem essa belíssima e impecável obra.
Se você gosta de quadrinhos clássicos, como eu, trata-se de uma ótima pedida.
O preço é um tanto salgado mas vale a pena por tratar-se de item de colecionador.
Excelente!