Na primavera de 1845, Sir John Franklin liderou uma expedição de dois navios e 130 homens numa viagem arrojada para o desconhecido Ártico. O seu objetivo: encontrar a lendária Passagem do Noroeste que, supostamente, ligara os oceanos Atlântico e Pacífico. Mas agora Franklin está morto e os dois navios estão fatalmente presos nas garras do gelo. As rações e o carvão escasseiam e os homens, mal preparados, lutam para sobreviver ao frio letal. À beira do desastre e a braços com loucura, motins e canibalismo, o capitão Crozier terá de tomar medidas drásticas para sobreviver. Mas ele sabe que o seu verdadeiro inimigo é bem mais aterrorizador. Existe algo à espreita nas trevas glaciais: um predador oculto que captura marinheiros e abandona os seus corpos na vastidão de gelo... O Terror é simultaneamente um romance histórico rigorosamente pesquisado e uma homenagem ao melhor que a literatura de horror ofereceu até hoje. Segundo Stephen King: "Um romance intenso, absorvente e arrepiante como só Dan Simmons podia escrever."
Dan Simmons was an American science fiction and horror writer. He was the author of the Hyperion Cantos and the Ilium/Olympos cycles, among other works that span the science fiction, horror, and fantasy genres, sometimes within a single novel. Simmons's genre-intermingling Song of Kali (1985) won the World Fantasy Award. He also wrote mysteries and thrillers, some of which feature the continuing character Joe Kurtz.
Gostei mais do primeiro volume e achei este bastante arrastado, mas ainda assim gostei bastante deste O Terror como um todo. Simmons absorve-nos com a sua capacidade de fazer sentir o sofrimento dos tripulantes do HMS Erebus e HMS Terror. Morte após morte, perda após perda, desgraça após desgraça, a moral dos homens desvanece-se e a própria permanência nos navios torna-se impossível. Resta-lhes o mar de gelo e a esperança vaga de um salvamento.
As personagens são excelentes. Dos protagonistas Crozier, cujos capítulos são de longe os melhores do livro, apesar de se tornarem cansativos nesta fase final, Irving, Goodsir, Blanky, Peglar e Hickey, aos não menos importantes Fitzjames, Senhora Silêncio ou Bridgens, todos eles deixam clara a aptidão de Simmons para dar carne e osso às suas criações, bem como para nos desconcertar com muito pouco.
Após a morte de Franklin, Crozier tornou-se o comandante da expedição, com o capitão James Fitzjames a ficar com a liderança do Erebus, posição que já desempenhava na prática quando Sir John Franklin era vivo. As calamidades, a doença e a fome aproximam os dois homens, que inicialmente se haviam travado de razões, cada um com uma maneira particular de olhar para a gestão dos navios. Apesar de continuar a olhar para Fitzjames como o menino bonito da Marinha, Crozier começa a respeitá-lo e a estimá-lo, à medida que o vê a definhar.
Em 1848, os homens começam a sofrer as debilidades decorrentes do frio extremo e da falta de comida fresca. O monstro Tuunbaq continua a atacar. Com vista a animar a moral dos homens, Crozier deixou que organizassem um Carnaval de Veneza na passagem de ano, que terminou com mais uma aparição do monstro. Vários foram mortos, quer engolidos por ele, quer abatidos pelos fuzileiros quando estes o tentavam caçar. Dos quatro médicos da expedição, três pereceram, sobrando apenas Goodsir para a tarefa.
Ofendido pelas representações teatrais do monstro bem como do falecido John Franklin, Crozier castiga com chibatadas o ajudante de calafate Cornelius Hickey e o seu amante, o gigante idiota Magnus Manson, o que fomenta a hostilidade deles. A partir daqui, fermentam os planos de motim por parte de Hickey, que se adensam à medida que as condições de permanência nos navios se tornam insustentáveis. Na primavera, o Erebus é esmagado no gelo e as tripulações rumam então à terra na Ilha do Rei Guilherme, tendo para isso que atravessar a banquisa.
Depois de descartar uma tentativa de chegar ao lado oposto da Península de Boothia, Crozier e Fitzjames concluem que sua melhor esperança é levar os barcos salva-vidas de ambos os navios para sul rumo a um posto avançado no Great Slave Lake, uma árdua jornada de várias centenas de milhas, de forma a alcançarem mantimentos e esperarem por um salvamento. Porém, Hickey começa a fazer das suas. E o monstro no gelo também.
A intensidade na escrita de Dan Simmons é só comparável aos maiores mestres do género, se é que não o podemos desde logo enquadrar nessa categoria. Hyperion é uma das suas obras mais aclamadas, épico da ficção científica. Os terrores fantásticos de Simmons são excelentes motores para os seus livros, como este é prova. Todas as passagens em que surge Tuunbaq vêm acompanhadas por fenómenos violentos e o ritmo da narrativa aumenta, mas o verdadeiro horror está nos seres humanos, no que eles são capazes de fazer para sobreviver, no frio insano que queima, nas maleitas naturais como a malária, a icterícia e o escorbuto, no próprio desespero e na loucura.
Dan Simmons apaixona-nos com a narração coesa e vívida de um acontecimento fictício cosido a partir de factos reais. Todos aqueles homens existiram, todos eles morreram ali, mas ninguém sabe como, e Simmons descortinou uma bruxa esquimó e um urso gigante com um pescoço longo e cabeça triangular para conferir todo um contexto fantasioso, mas ainda assim real, palpável e convincente, àquele evento específico.
A sua escrita não tem nada de poético. É dura, crua, sem floreios nem subterfúgios. Ele é tão hábil a narrar caminhadas sobre crostas de gelo como a enumerar os órgãos humanos de um morto. E fá-lo com o mesmo compasso, direto e intenso. Por vezes tornou-se demasiado lento, por vezes demasiado denso, mas os bons momentos compensaram bastante aqueles em que te enfadonha. Assim que me sentia completamente aborrecido, voltava a experimentar o entusiasmo inicial com um evento mais imprevisível.
O Terror não é um livro que agradará a qualquer um. Tem passagens mais fantasiosas, apesar de ser extremamente fundamentado, real e verosímil, tem alguns termos mais técnicos e explicações da vida no gelo, que fazem parte desse mesmo trabalho de credibilidade por parte do autor, da virtude do mesmo e não o mero despejar de conceitos para mostrar que os sabe, e é longo, uma longa jornada de sobrevivência. Mas, um pouco por tudo isto, é também um livro muito bom.
Para quem ainda não leu a primeira metade deste livro, O Terror vol.1, desaconselho a leitura desta opinião. Ler por própria conta e risco.
Os navios HMS Erebus e HMS Terror encontram-se encalhados nas calotas polares há mais de dois meses e as tripulações estão a enfraquecer a olhos vistos, por falta de recursos e devido ao escorbuto, que a cada dia que passa se torna uma ameaça maior. Sir John Franklin, que comandava a expedição ao Árctico, morreu e ele não é o único homem desta tripulação a encontrar um fim cruel. Quem toma o controlo das duas tripulações é o Comandante Francis Crozier que vê a sua vida complicada ao ter que tomar decisões difíceis, de vida ou de morte. Quando o comandante decide abandonar os navios e tentar a sua sorte, indo ao encontro de socorro noutras coordenadas geográficas, é a lutar pela sobrevivência e a fugir de um monstro que os persegue de perto, que estes homens rapidamente começam a dispersar as suas lealdades. Onde antes os homens se juntavam e lutavam pelo bem de todos em união, agora é cada um por si e a sobrevivência de um indivíduo é mais importante do que a sobrevivência do grupo. Com a comida a escassear, os próprios homens começam a olhar para a carne dos seus colegas tripulantes com desejo, para saciar a sua fome. A tripulação que vai sobrevivendo ameaça dividir-se a todo o momento e o inimigo pode ser qualquer pessoa, qualquer coisa.
Sendo que já estava estipulada que a leitura deste segundo volume do Terror seria feita logo de seguida a acabar a primeira parte, comecei com algumas expectativas esta última parte da aventura árctica. Tinha acabado a parte anterior com alguma insatisfação, visto que o autor não deu nenhuma resposta às minhas perguntas. As páginas recheadas de descrição têm o seu mérito, mas eu queria desesperadamente que esta última metade procurasse explorar melhor o ambiente em que as tripulações tiveram que, forçadamente, viver em condições cruéis (no mínimo). Já tinha referido na outra opinião que este livro é um relato de sobrevivência. Não se espera romantismo no relato, mas sim imagens nuas, cruas e frias da realidade em que esta tripulação de mais de uma centena de homens estava inserida. O ambiente desta obra é todo ele, frio e inóspito, para instilar desconforto no leitor. Como se o próprio leitor da obra estivesse encerrado no gelo há meses, com a comida a escassear e a ver o inimigo a cada passo que dá. Todos os passos são incertos. À medida que os homens vão avançando, são muitas as decisões (todas elas de vida ou de morte) que têm que tomar. Sem nunca terem cem por cento de certezas se estão no rumo certo. O que eles procuram é salvar-se e para isso, têm de dar aquilo que têm e também o que não têm. As doenças grassam e os homens estão fracos. Alguns são deixados para trás, aqueles que mal conseguem andar são carregados. As chances de sobrevivência são muito poucas, especialmente quando o ser-humano é presa de algo que persegue os homens dia e noite. As lealdades são mutáveis como o vento. E aquele que consideramos amigo, vira o pior inimigo que nos pode devorar em segundos. As alianças quebram como o gelo debaixo dos pés destes homens cansados. O sol, que começa a aparecer aos poucos e poucos, não chega para aquecer os ossos. É um local esquecido por todos.
À semelhança da metade anterior, o livro está recheado de descrições ricas do cenário em que os homens se encontram e Dan Simmons prima pela sua dedicação em descrever todos os pormenores desta jornada de sobrevivência. O facto de escrever sobre o ponto de vista de variados personagens é uma vantagem, sendo que nos dá uma visão mais ampla de todos os personagens que são centrais à história. É sempre conhecer dois lados de uma questão e aqui o leitor tem uma variedade de opiniões, pensamentos e sentimentos. Também à semelhança da metade anterior, há um núcleo de personagens que é importante para esta jornada. Crozier, Dr.Goosdsir e Irving seriam as escolhas óbvias para mim. Coincidência ou não, foram desde início as minhas personagens favoritas. Para mim, foram a alma deste livro. São também, para mim, os representantes da "bondade" do ser-humano. Estes três personagens tentaram (à sua maneira única) representar aquilo que de bom a natureza humana tem. E certamente deixaram a sua marca na obra, com momentos muito intensos. No extremo oposto, a representar tudo aquilo que a natureza tem de mais macabro, está o ajudante de calafate Hickey. Apesar de ser esperado que o leitor sinta ódio por esta personagem, tenho de dizer que além do óbvio nojo (sim sim, foi nojo puro) que tive por ele, também me fascinou de uma forma negra. Ele representa tudo aquilo em que o ser-humano se pode tornar em momentos de extrema pressão. Fascinou-me por me relembrar que todos poderemos ter dentro de nós estes mesmos instintos, pois afinal também somos animais. Racionais e dotados de pensamento lógico, mas animais no núcleo do nosso ser. Fez-me reflectir sobre se colocada na mesma posição, como iria eu reagir? Acho que este personagem é aquele que mais inspira à reflexão da nossa natureza humana. Verdadeira reflexão. Não basta apenas ler as passagens em que este personagem entra e dizer/pensar: "que nojo, devias morrer. Nunca irei ser como tu." Por esses motivos, foi - ao lado de Crozier, Irving e Goodsir - a personagem que mais marcas me deixou. Este último volume, que acaba por dar aos seus leitores uma visão completa deste cenário, é ligeiramente melhor que o primeiro. Não só por ter mais nível de acção, mas também por ter as respostas desejadas ao qual o primeiro volume não conseguiu responder. Se antes pensávamos que havia demasiadas pontas soltas e demasiado mistério sem maneira de perceber onde acabam as perguntas e começam as respostas, agora vemos o puzzle a ser resolvido página a página. Foi uma leitura mais frutífera nesse sentido e também porque é um livro que traz à luz as nossas vulnerabilidades como ser-humano. A dimensão humana - com todas as suas qualidades e todos os seus defeitos - está sempre presente neste volume e de uma forma bem mais óbvia do que no primeiro. É uma verdadeira luta pela sobrevivência do mais apto. Esta metade agarra de forma mais notória, a atenção dos leitores e por isso tenho que dizer que em termos gerais, prefiro este segundo ao primeiro. Parece ter existido um amadurecimento mais rápido da história e a narrativa fluiu de forma mais interessante e dinâmica.
Não posso deixar de recomendar esta obra, na sua totalidade, aos leitores que gostam de um romance salpicado de emoções fortes, com a natureza humana no seu melhor - e no seu pior. no blogue
O primeiro volume trouxe uma história de marinheiros presos no gelo Ártico sofrendo represálias do gelo e sendo constantemente atacados por um animal em grande parte físico, real e em quase nada sobrenatural, a não ser no entendimento de muitas personagens, a maior parte marinheiros leigos do século XIX. Este segundo volume no entanto traz uma nova dinâmica à história. Ainda confrontados com os perigos externos, os homens mostram a natureza humana e viram-se uns contra os outros. A fome leva a que pensamentos de canibalismo ocupem as mentes dos marinheiros, o que leva a traições, abandonos e muita morte. Por fim, este livro, mais do que o primeiro, traz um caráter cultural acerca das tribos esquimó que os marinheiros foram encontrando e mais ainda contém uma explicação espiritual e sobrenatural para muitas das ameaças apresentadas ao longo da história e até para a presença da personagem principal naquela viagem. Em suma, esta história cativou a minha atenção especialmente pelas diferentes representações do terror. Temos o terror do gelo e da temperatura, o terror da fome, o terror dos homens e, menos significante mas ainda assim muito presente, o terror daquilo que se esconde lá fora. O facto do leitor nunca saber o que vai apanhar o próximo homem traz um sentimento de suspense que não permite pousar o livro.
Dan Simmons pegou na história verídica de dois barcos que tentaram a travessia pelo Ártico, entre a Grã-Bretanha e o Continente Asiático, e escreveu toda uma ficção brilhante. É um romance de sobrevivência em condições extremas, dos limites do ser-humano e que no limite será sempre cada um por si. Um trabalho baseado em fontes verosímeis e muita pesquisa, apesar de ser ficção, há passagens bastante reais e.. frias.
A série The Terror, da AMC, é baseada neste romance histórico. Aconselho a lerem primeiro a obra e posteriormente passar à série televisiva.
Esta segunda parte d"O Terror" continua a contar-nos a história da viagem pelas terras geladas da expedição de Franklin. Esta segunda parte é e não é, a meu ver, uma continuação do segundo livro... isto é. .. é claro que é a segunda parte da história e é claro que vamos saber o que acontece à expedição e aos seus tripulantes... mas a verdade é que se foca em aspectos muito diferentes da primeira parte... enquanto na primeira parte o foco é o desespero da tripulação por estar presa no gelo e a ser perseguida por algo demoníaco que eles não sabem nem entendem, esta segunda parte o foco passa a ser algo mais demoníaco e conhecido... o próprio ser humano! Nesta segunda parte constatamos que não há lealdade, amizade nem respeito... nesta parte vemos o ser humano a transformar-se em, puro e simplesmente, sobrevivência animal. E é claro... como é possível eles passarem pelas privações que passaram com a mente sã... é uma história de terror, mas sobretudo dos limites do ser humano... e até onde esses limites se estendem, uma vez ultrapassados.
De salientar também a mestria do escritor em juntar factos reais com algo mais... está tão bem incorporado que no fim não conseguimos distinguir a linha que separa a realidade e a ficção.
O final surpreendeu-me um pouco por não ser, de todo, o que eu estava à espera, mad com isto não digo que tenha sido mau ou disparatado.
Muito bom! Continuou o ambiente opressivo, gélido e terrível do primeiro volume e adicionou-lhe a vertente humana, com todas as suas falhas, esperanças e ilusões.
A construção do fantástico e a sua explicação revela-se plausível e enquadrada com as tradições Inuit - e não deixou por explicar algumas coisas, o que confesso que era o meu receio a meio do livro.
É um daqueles livros que se revela extraordinariamente bom a incutir sensações. Faz sentir frio. Faz-nos sentir quase cansados ou doentes como os marinheiros e fuzileiros do Terror. Muito bom! Excelente, se se ler com Sunn o))) como música de fundo, baixinho, só para complementar o ambiente :)
Contada em dois volumes, muito bem escritos mas com descrições muito extensas e maçudas, em que alguém que não perceba nada de termos náuticos (como eu) fica sem perceber na mesma.... Esta história é baseada em factos reais. O autor criou todo um enredo que se desenrola num ambiente inóspito, duro e cruel tanto a nível do clima como no relacionamento entre os homens das tripulações destes dois navios ao fim de dois anos presos no gelo. O 2º volume é intenso e desumano quando as tripulações se aventuram fora dos navios na tentativa de se salvarem da armadilha de gelo...