A maior dificuldade que tenho ao escrever algo sobre um livro como “Gargântua” é evitar os clichês acerca de clássicos e, num esforço quase ascético, remover cirurgicamente da experiência de leitura a base confusa de expectativas e juízos críticos sobre a obra que se guardam na memória consciente e na mais profunda. Um exercício de crítica fenomenológica, ao cabo de contas.
Pouco sei de Rabelais, exceto que foi um escritor francês, médico e um padre do século XVI que, embora de inícios beneditinos, abandonou os votos monacais para se tornar um pároco regular. Toda vez que leio o livro de um pároco regular espero encontrar uma profundidade e complexidade de experiência humana que normalmente se haure das confissões, como Carpeaux aponta a propósito de Tirso de Mollina, dentre tantos outros. Por outro lado, impossível ignorar a bagagem beneditina, isto é, erudita e teológica, de Rabelais. Versado em latim e grego, essa bagagem se revela claramente em Gargântua, através dos nomes inventados, amiúde com raízes gregas, e que muita vez resumem em si as principais características do personagem portador do onomástico.
Experiência humana do dia-a-dia e erudição envolvidos numa aura de humanista amigo de Erasmo e admirador dos evangélicos que então estavam surgindo, ainda confusamente, numa época anterior às Instituições de Calvino – este é o drama, a constituição e o oxímoro da alma de Rabelais.
E como ele vazou esta tensão no mundo? Através de uma série de epopeias heroi-cômicas acerca dos gigantes Pantagruel, Gargântua e Panúrgio, que fizeram grande fama por sua linguagem obscena e seu papel na definição de um humanismo cristão e, muito mais do que isso, de um humanismo ainda católico, apesar das críticas fortes do autor ao papado, às peregrinações, às promessas, às indulgências e a tudo aquilo que tanto incomodava alguns dos melhores espíritos desse fim de Idade Média e início de Renascimento, sejam eles católicos, ateus ou protestantes.
Quando escreveu e publicou Gargântua, Rabelais já havia feito sensação com seu “Pantagruel”. Gargântua, pai da personagem central do primeiro livro, tem sua estória portanto contada como uma espéce de prequel à de Pantagruel.
O livro começa forte e muito comicamente com um poema jocoso e obsceno que, ainda hoje, é chocante. Esse poema, me parece, tem o mesmo efeito das gárgulas dependuradas nos frontões e platibandas das igrejas medievais: quer assustar e deixar de fora os hipócritas e as alminhas puras demais para ler as palavras “cu”, “ereção”, “vômito” e “cagada”.
A estória, diz-nos o prefaciador da edição portuguesa, é baseada livremente em crônicas de um Gargântua, que seria um abade francês de grandes proporções físicas e de ainda maior apetite para os comeres e os beberes, donde sua alcunha – Gargântua remete a uma grande garganta, que tudo deglute e nunca se satisfaz. Contudo, a inspiração fica só no nome mesmo, sendo daí para frente toda a obra fruto do engenho de Rabelais.
A forma é a da epopeia heroi-cômica: capítulos no mais das vezes curtos, narrados na terceira pessoa do singular, em forma de crônica, como se se tratasse de uma nova versão, mais elaborada, de um antigo manuscrito. De fato, o livro se refere a passagens fictícias ocorridas no século XV, na França, mas não há aqui o cuidado de um Cervantes em inventar uma persona para o narrador e uma história de fundo estrambótica para o próprio “manuscrito”.
O estilo de epopeia é fiel em alguns detalhes, como a enumeração absurda e tediosa de bens, guarnições e terras e o exagero na contagem das riquezas e na crueza das batalhas – penso aqui em Tirant lo Branc e Palmerin da Inglaterra – mas trai sua concepção moderna na coesão dos episódios e na narrativa linear.
A narrativa trata de Gargântua, um gigante filho de Grangousier e Gargamelle, também nomes que insinuam bocarras insaciáveis. Os pais de Gargântua são ricos senhores feudais que vivem em festas sibaríticas, a cantar, beber, comer, peidar e brincar obscenamente. Gargamelle fica grávida e, após 11 meses, vai dar à luz a Gargântua no meio do mato, durante uma dessas debaucheries. O menino gigantesco sai pelo ouvido da mãe e já nasce pedindo por cerveja.
Continua-se a narrativa pelos primeiros anos de Gargântua, vividos numa perfeita continuidade da dissolução da casa paterna, com pouca atenção à religião e muito tempo dedicado ao ócio e à deglutição desordenada de bebidas e comidas. Gargântua é de constituição fleumática, nos avisa o narrador, o que permite ao leitor imaginar um gordinho bonachão sem força de vontade alguma, exceto para alguns prazeres fáceis.
Em determinada altura, porém, Grangousier percebe em entrevista com seu filho que este tem uma inclinação natural para os estudos, visto que, sem ser instado por ninguém, passou por um longo processo científico de descoberta da melhor maneira de limpar o cu após um cagalhão, que, se não foi penoso a ele, certamente desagradou aos pobres seres envolvidos nessa, digamos, pesquisa higiênica.
Gargântua então é enviado para estudar em Paris, centro de cultura da época. Mas detesta os franceses e, após matar alguns afogados em seu mijo de gigante, rouba os sinos de Santo Antônio, devolvendo-os após a intervenção apatetada de um “sofista” da cidade.
A criação de Gargântua, porém, não agrada ao pai, visto seu caráter fleumático não casar bem com a frouxidão de costumes permitida por seus primeiros preceptores. Estes são então trocados pela dupla Ponócrates e Ginasta, que, através de uma disciplina férrea, tornam Gargântua num jovem são de mente, corpo e espírito.
Até aqui, o desfile cômico de obscenidades reflete a vida dissoluta e desregrada de Gargântua e servem ao autor para manejar suas críticas ferozes à sociedade francesa da época e aos sempre detestados frades. Impossível não lembrar, nesse passo, do antecedente Geoffrey Chaucer, que, juntando histórias edificantes, satíricas e pornográficas num só volume, revela muito da alma especificamente católica e da liberdade de crítica que existia dentro da cristandade antes do mil vezes maldito Martinho Lutero. Rabelais ainda pega o finzinho dessa liberdade com que apenas podemos sonhar hoje em dia, e torna-se um representante tardio daquela luta de classes medieval a que alude de forma surpreendente Otto Maria Carpeaux.
Paralelamente, Rabelais inicia uma outra linha narrativa, na qual plasmou em fantasia a lide judicial travada entre seu pai Antoine Rabelais e um vizinho convertido literariamente em rei Picrocole, nome ridículo, como aliás o de todos que fazem parte de seu séquito, dos quais o meu preferido é o do soldado “Merdaille”, cujo significado me dispenso de explicar.
Uma contenda estúpida e sem maiores significados entre os biscoiteiros de Picrocole e os camponeses de Grangousier dá ao primeiro a oportunidade de se insurgir contra este último, seu suserano. Picrocole se revela então não só ambicioso como injusto e burro, tomando decisões precipitadas que, ao final, vão levá-lo a perder tudo, exceto o sonho com o dia em que as galinhas terão dentes, sinal profético do retorno de seu reino.
Embora o livro comece muito bem, com as obscenidades e os gigantismos que desafiam a imaginação, o fato é que a partir de Paris a estória fica um pouco monótona. Mas com a guerra picrocolina, a narrativa entra em nova fase, com vigor redobrado, e o interesse se mantém constante até o final.
Gargântua é convocado por seu pai para adjuvar no esforço de guerra. Nesse ponto, não deixa de ser curiosa a grande diferença entre o comportamento debochado de Grangousier no início da estória e sua condução sábia e justa da guerra, nunca pensando nos óbvios insultos que sofrera, antes pondo suas preocupações em evitar o derramamento de sangue e a perpetuação da inimizade. Parece, de fato, que se trata de duas personagens distintas!
Apesar dos esforços do bom Grangousier, Picrocole tem sua débil imaginação atiçada por maus conselheiros, que o levam a traçar planos megalomaníacos – e cômicos - de conquista do mundo, como se fosse coisa certa, só por causa de uma pequena vitória inicial, que não terá qualquer repercussão. O coração endurecido de Picrocole atrai sobre si a fúria dos exércitos de Grangousier, liderados por Gargântua, Ponócrates, Ginasta e o frei Jean, um grande guerreiro e beberrão.
Ao fim, com a guerra já vencida, Rabelais se ocupa daquilo que seria a maior causa de dúvida acerca de sua ortodoxia e, ao mesmo tempo, se tornaria uma das mais duradouras parábolas literárias: a Abadia de Theléme, construída sob as ordens de Gargântua para o Frei Jean.
Logo no início do livro, Rabelais pede ao leitor que não se prenda no aspecto pitoresco de sua narrativa, mas que “dado o acaso de encontrardes em sentido literal matérias muito alegres e correspondentes ao nome, não deveis todavia ficar por aí, como a ouvir o canto das Sereias, mas em mais alto sentido interpretar o que por acaso cuideis ser dito de coração alegre.”
Nesse esforço por encontrar as coisas sérias por debaixo das piadas, fui muito ajudado e atrapalhado pelas notas de rodapé, abuntantíssimas na edição que li, muitas delas desnecessárias, mas nenhuma propriamente inoportuna. Se há algo por trás da profusão dos palavrões e das cenas grosseiras da primeira parte do livro, entendo que seja um apego mais ou menos inconsciente da alma do escritor à liberdade medieval de fazer graça com tudo e com todos, de celebrar a criação de Deus através do consumo exagerado de comidas e bebidas, contra um moralismo sufocante que viria tanto da reforma protestante como da reação de Trento.
Quanto às críticas aos sofistas, professores, universitários e à simplicidade de alguns fiéis, bem, parecem ter sido muito úteis e justas no seu tempo, mas não sei se Rabelais soube dar-lhes o alcance de símbolo universal que, por exemplo, um Cervantes ou um Dante Alighieri lograram em suas obras. Tudo ali parece muito preso às circunstâncias.
A personagem de Picrocole e todo o seu séquito, ao contrário, são criações magistrais, para sempre fixadas na expressão “guerra picrocolina”, isto é, uma guerra estúpida, de motivos fúteis e para atender a um impulso megalomaníaco.
Já todo o arco de frei Jean e a Abadia de Théleme pouco me impressionaram. Ou melhor, me impressionou foi a ingenuidade de Rabelais ao construir em narrativa um local bocó para moços e moças bem educados e empoados, que nada tem que ver com a vida religiosa consagrada, uma grande frescurada, um sonho de humanista besta a dar com pau, que mais me lembra a cena de Lady Lindon no salão, do filme “Barry Lindon”. E, embora comece bem, deixando de fora os hipócritas, os ciumentos, os queixosos, os coléricos, etc., as regras internas são de uma fatuidade que seria comprovada na corte do Rei Sol e nos grandes salões de madames, menos de um século depois. Não deixa de ter interesse, contudo, a coincidência entre a regra de Théleme – “Fazes o que queres” – e o mandamento único do satanismo de Anton La Vey – “Fazes o que queres, pois é tudo da lei”.
Rabelais, rendendo sua alma aos encantos das novidades do dia, tornou-se então um proto-pai do satanismo moderno. Não pode haver dúvidas acerca da seriedade do autor para com a Abadia: Théleme significa finalidade, um ideal a ser atingido. Mas sua genialidade era tanta que, querendo exaltar um ideal humanista vazio, deixou entrever ali a inspiração demoníaca da empreitada, aquele pequeno desvio de início que viria a dar portentosos frutos na Primeira e Segunda Guerras Mundiais, e que na realidade ainda no assombra até hoje. Afinal, onde Deus está ausente, já não vige qualquer lei ou moral.
Nesse ponto, Rabelais não resiste à comparação com Chaucer: o inglês não tem qualquer tentação de novidades, está montado na realidade, nas tradições e no bom e velho “common sense”. Se suas obscenidades em nada deixam a desejar com relação às de Rabelais, seus momentos sublimes são de fato sublimes, porque dizem respeito ao mundo sobrenatural e, por contraste, tornam ainda mais engraçados os contos cômicos. Já Rabelais, quando sobe do patamar da sátira, se deleita numa idealização do mundo natural, numa Abadia sem qualquer regra de oração, e portanto perde muito de sua força.
Então, sobra da obra de Rabelais justamente aquilo que ele sugeriu ser de menor importância: sua verve cômica, sua imaginação prodigiosa, sua homenagem à honra, à justiça e às liberdades de um mundo já então desaparecido, sua recusa em se tornar protestante pelo amor que tinha à cerveja e às obscenidades só tolerados dentro da Igreja Católica. Desaparecidas ou evoluídas as arengas filosóficas e religiosas da época, sobram os gigantes e os demais personagens, divertidos, inconstantes, obscenos e nobres, para sempre disponíveis ao leitor.