A obra conquistou prestígio e foi publicada em diversos países, entre eles França — onde ganhou elogios da escritora Colette —, Espanha e Japão, e considerada um best-seller em sua época.
Ao contar sua história para um padre, Margarida La Rocque, nascida numa pequena aldeia na França, no século XVI, deseja “lavar o espírito de recordações aterradoras”, a começar pela profecia que a acompanha desde o nascimento, a de que conheceria o inferno em vida. Prossegue narrando o casamento com o aventureiro Cristiano, que partiu numa expedição à América e não retornou, e a decisão de, ao lado da ama Juliana, embarcar numa viagem ao mesmo destino, a fim de obter notícias do marido. No trajeto, envolveu-se com o tripulante João Maria, sem medir consequências.
Descoberta a falta, a punição: o exílio de Margarida, Juliana e João Maria em uma ilha remota e misteriosa, conhecida como “ilha dos demônios”. O que nos primeiros dias pareceu uma aventura romântica e exótica desenrolou-se com ares de pesadelo, arrastando Margarida a um vórtice de paixão, medo, culpa e loucura, com a presença de criaturas tão fascinantes quanto assustadoras e um desfecho espantoso. Teria se cumprido a profecia?
Publicado em 1949, Margarida La Rocque, o segundo romance de Dinah Silveira de Queiroz, trilha um caminho incomum, ao evocar relatos de viagem quinhentistas, literatura fantástica e terror psicológico, provando ser mais uma obra essencial para conhecer o inegável talento dessa autora.
Sétima ocupante da Cadeira 7, eleita em 10 de julho de 1980, na sucessão de Pontes de Miranda e recebida pelo Acadêmico Raymundo Magalhães Júnior em 7 de abril de 1981.
Dinah Silveira de Queiroz, romancista, contista e cronista, nasceu em São Paulo, SP, em 9 de novembro de 1911, e faleceu em São Paulo, SP, em 27 de novembro de 1982.
Filha de Alarico Silveira, advogado, homem público e autor de uma Enciclopédia brasileira, e de Dinorah Ribeiro Silveira, de quem ficou órfã muito pequena. Quem lê Floradas na serra, seu livro de estréia (1939), tem sua atenção despertada por aquela cena em que, ao morrer, um personagem, não querendo contaminar a filha pequena, despede-se dela, à distância, e pede que retirem a fita que prendia o cabelo da menina para beijá-la. A cena se passou na realidade com a escritora. Dona Dinorah veio a falecer aos vinte e poucos anos, deixando duas filhas: Helena e Dinah.
Com a morte da mãe, cada uma das irmãs foi para casa de uma parenta. Dinah foi morar com sua tia-avó Zelinda, que tanto influiria em sua formação. Datam desses tempos as temporadas na fazenda em São José do Rio Pardo, na Mogiana. Nas freqüentes visitas que o pai fazia à filha, havia sempre tempo para os livros, quando ele lia, em voz alta, as narrativas de H. G. Wells. As passagens da Guerra dos mundos causariam grande impressão no espírito da menina, assim com os escritos de Camille Flamarion a respeito de astronomia.
Dinah Silveira de Queiroz estudou no Colégio Les Oiseaux, em São Paulo, onde com a irmã Helena colaborou assiduamente no Livro de Ouro, vindo “por motivo de doença de Helena”, como sempre assegurou, a ficar, afinal, com seu troféu literário de menina. Casou-se aos 19 anos com Narcélio de Queiróz, advogado e estudioso de Montaigne, que teria grande influência nas leituras da mulher e a levaria a descobrir a vocação de escritora. Teve duas filhas: Zelinda e Léa. Em 1961, a romancista enviuvou e, no ano seguinte, casou-se com o diplomata Dário Moreira de Castro Alves.
Seu primeiro trabalho literário recebeu o título de Pecado, seguido da novela A sereia verde, publicado pela Revista do Brasil, dirigida por Otávio Tarquínio de Sousa. Seu grande sucesso viria em 1939, com o romance Floradas na serra, contemplado com o Prêmio Antônio de Alcântara Machado (1940), da Academia Paulista de Letras, e transposto para o cinema em 1955. Em 1941, publicou o volume de contos A sereia verde, voltando ao romance em 1949, quando publicou Margarida la Rocque, e em 1954, com o romance A muralha, em homenagem às festas do IV Centenário da fundação de São Paulo. Ainda em 54, a Academia Brasileira de Letras lhe conferiu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra. Em 1956, fez uma incursão no teatro com a peça bíblica O oitavo dia. No ano seguinte, publicou o volume de contos As noites do morro do encanto, que fora laureado com o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras (1950). Em 1960, publicou outro volume de contos, Eles herdarão a terra, no qual já manifestava seu interesse pela ficção científica, que irá expressar-se melhor em Comba Malina (1969). Em ambos, prevalece a narrativa vazada dentro do chamado realismo fantástico.
Em 1962 foi nomeada Adido Cultural da Embaixada do Brasil em Madri. Após o casamento com o diplomata Dário Moreira de Castro Alves, seguiu com o marido para Moscou. Permaneceu na União Soviética quase dois anos, escrevendo artigos e crônicas, que eram veiculados na Rádio Nacional, na Rádio Ministério da Educação e no Jornal do Commercio. A ausência do Brasil criou em Dinah Silveira de Queiroz a necessidade de uma contribuição à vida brasileira, à qual concorria com suas crônicas diárias, mais tarde recolhidas no livro de crônicas Café da manha (1969), e ainda em Quadrante I e Quadrante II.
De volta ao Brasil, em 1964, escreveu Os invasores, romance histórico em comemoração do IV Centenário da fundação da Cidade do Rio de Janeiro. Em 1966, partiu novamente para a Europa, fixando-se
«Nele [«A Ilha dos Demónios (Margarida La Rocque)»] analisei a paixão feminina em todo o seu desvario. Se Madame Bovary deu um tipo de neurose, hoje chamada pelos clínicos de bovarismo, Margarida é a “neurose da paixão”. Àquela época em que se passa o romance, a meio do século XVI, as angústias emocionais eram vividas em imagens.(..) escrito em 1948, o livro precedeu, de mais de vinte anos, o realismo fantástico dos latino-americanos, escritores entre os quais sobressai um Garcia Marquez.» - Excerto do Prefácio escrito pela autora e dedicado aos seus amigos portugueses.
Da autora apenas tinha lido «Floradas da Serra», daí me ter surpreendido com um livro precursor do realismo mágico onde não falta até uma lebre falante. É a história de uma jovem exilada numa ilha deserta cujo pavor do desconhecido e a culpa criam demónios e fantasmas; uma ilha deserta como símbolo da solidão humana. E os demónios que perseguem Margarida? Estão dentro de nós, somos nós próprios.
Num longo monólogo, Margarida fala a um padre e entrega-se ao julgamento e à compreensão de Deus. Estão os dois sob as arcadas de um convento. Vai a meio o século XVI.
«- Disseram-me … profetizaram-me…que eu iria em vida ao Inferno. Cumpriu-se a profecia!»
Um livro que merece uma releitura; está ambientado numa época em que a imaginação e as crenças eram infinitas; é um desafio para um leitor do século XXI compreender e aceitar como verdade a realidade maravilhosa e fantasiosa de uma Europa que vivia desconcertada pelo Novo Mundo.
Talvez não seja o livro mais memorável do mundo, mas é uma leitura que vale à pena demais.
Esse ano, por pura coincidência, só estou lendo livro de naufrágio, e esse é, de longe, o mais interessante deles (também é o único contemporâneo, o que pode explicar essa minha opinião). A ambientação da ilha é ao mesmo tempo assustadora e acolhedora, e tem algumas cenas nesse livro que devem estar entre as mais bonitas que já li - ainda que seja um pouco estranho, dado o que está acontecendo nelas.
O tempo todo fiquei visualizando o livro como se fosse dirigido pelo Robert Eggers. A autora tem um domínio muito grande de narrativa e consegue construir mistério e realidade na medida certa. A ilha é quase que um personagem a parte e dá muita vontade de conhecer um pouco mais sobre a história e os personagens que nela habitam.
A narrativa, classificada como fantástica, é sobretudo uma derrocada psicológica da protagonista. Os meandros da mente humana em meio a solidão extrema. Dinah nos conta uma história repleta de seres inumanos mas que apontam a humanidade da personagem. É incrível perceber a originalidade da obra sobretudo considerando o ano que foi lançada - 1949. Lerei novamente e darei de presente.
muito bom conhecer uma nova escritora. nova pra mim. Dinah arrasou nesse livro. Fabuloso. São Demônios, metáforas, realidade, sonhos? Afinal o que é a vida, né?
Margarida la Rocque - A Ilha dos Demônios (Dinah Silveira de Queiroz). A obra é rica em camadas, que mescla elementos do fantástico e do psicológico, desafiando as expectativas sobre o papel feminino na sociedade da época em que foi escrito. A narrativa gira em torno de Margarida, uma personagem que, desde sua infância, já é marcada por um vaticínio de sua tia, que previu que ela viveria o "inferno" na vida. Margarida se destaca como uma mulher que não se conforma com os papéis tradicionais impostos a ela. As suas experiências, que vão desde um casamento não satisfatório a uma busca por aventuras, refletem uma intensa insatisfação e desejo de liberdade. Após ser aprisionada em um contexto doméstico, ela decide seguir seu marido em uma jornada que a levará a uma ilha isolada, onde confrontará não apenas os desafios da sobrevivência, mas também os demônios internos que fazem parte de sua psique. A prosa de Dinah Silveira de Queiroz é elogiada pela sua habilidade em capturar as descrições vívidas do ambiente e das experiências de Margarida, criando uma ambiência que oscila entre o maravilhoso e o estranho. O contraste entre a liberdade que Margarida busca e as limitações impostas a ela por sua condição de mulher é uma das principais temáticas do livro. Outro aspecto interessante é como a autora brinca com as narrativas de viagem tradicionais, subvertendo-as ao colocar uma protagonista feminina no centro da ação, sendo ela não apenas uma observadora, mas protagonista das suas próprias histórias. O uso da primeira pessoa torna a narração íntima e pessoal, permitindo que o leitor acesse diretamente os pensamentos e sentimentos da personagem. Ademais, a Ilha dos Demônios serve como um espaço simbólico onde Margarida deve confrontar seus medos, anseios e desejos, criando uma poderosa alegoria sobre a luta pela liberdade e a busca de identidade feminina. O livro também provoca reflexões sobre as várias interpretações possíveis do que é real e do que é construção mental, destacando o poder das histórias e das narrativas na constituição do ser. "Margarida La Roque: A Ilha dos Demônios" é uma obra que, apesar de ter sido lançada originalmente em 1949, ainda ressoa fortemente com questões contemporâneas sobre gênero, liberdade e a complexidade da condição humana. O convite a explorar a escrita de Dinah Silveira de Queiroz é uma oportunidade de redescobrir uma voz significativa da literatura brasileira, que merece ser lida e discutida.
Margarida La Rocque é um romance audacioso do século XVI. A protagonista narra sua fascinante trajetória, marcada pelo exílio em uma ilha misteriosa e povoada por seres estranhos. Misturando ficção histórica, o fantástico e terror psicológico, o livro subverte estereótipos femininos. Margarida é uma personagem complexa, com voz própria, que desafia convenções. Uma leitura potente e surpreendente que nos transporta e provoca reflexão.