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O homem que via no escuro, A Lisboa de Bruno Candé
Bruno Candé foi a primeira pessoa em Portugal cuja morte resultou numa condenação de crime motivado por ódio racial. O homicida, de 76 anos, matou por preconceito contra a cor de pele. A justiça sentenciou que, a 25 de julho de 2020, Candé, de 39 anos, ator, lisboeta, pai de três filhos, morreu por uma palavra em que ele não acreditava. Este livro é um retrato de Bruno Candé, da sua vida e do seu legado para a família, para a cidade e para a Zona J (hoje Bairro do Condado), onde nasceu e cresceu e onde levou o teatro até outras crianças e jovens. Candé dizia que, tendo nascido ali, teria «tudo para dar errado». «Mas eu sou o Bruno Candé», repetia logo a seguir. Ele, um homem que via no escuro, para lá dos estigmas da pobreza e da discriminação racial.
92 pages, Kindle Edition
Published February 15, 2023
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Community Reviews
Displaying 1 - 10 of 10 reviews
May 27, 2025
Ele saiu para a rua
Como era habitual
Bebeu o seu café
Como era habitual
Sorriu para os vizinhos
Como era habitual
Vivendo a sua vida
Uma vida habitual
Foi insultado mal tratado
Como era habitual
Foi alvejado cegamente
Por alguém para quem matar
Havia sido habitual
E assim morre mais um negro
Só por isso de ser negro
O que já é habitual
- Luísa Sobral -
No dia em que foi cobardemente assassinado por um velho racista, um ex-combatente do Ultramar com uma arma ilegal em casa, o actor Bruno Candé deixou para trás o almoço pronto, três filhos pequenos e, como bem lembra a escritora Dulce Maria Cardoso, uma cadela, Pepa, que fugiu do local assustada com os cinco tiros disparados à queima-roupa.
A jornalista Catarina Reis fez um excelente trabalho neste “Homem que via no escuro”, contando o percurso da mãe de Bruno desde que, aos 14 anos, conheceu na Guiné o português pai dos seus dois primeiros filhos, dando um panorama socioeconómico da Zona J, onde cresceu o actor, e contextualizando este crime, a primeira condenação motivada por ódio racial. São muitas as elações que se podem tirar deste homicídio bárbaro de alguém que tira a vida a um homem que apelidou de “preto de merda” e não mostrou arrependimento em tribunal, mas o último parágrafo resume-as na perfeição.
[Bruno] jamais pensaria que a história colonial da qual a família nasceu e cresceu foi a mesma que o matou. A guerra levou um português até Cadi Candé Marques, encontro que fez nascer Olga, Carla e Fernando; também foi a guerra que conduziu a guineense até Lisboa, à Zona J. A mesma guerra que tornou um homem revoltado e armado que acabaria por trazer a Cadi a pior dor de uma mãe. O que pensara Candé de um homem que ameaça, a plenos pulmões, ter matado “pretos” na guerra, violado mulheres africanas e ter uma arma em casa pronta para matar outros?
[Obrigada, Martinha!]
Como era habitual
Bebeu o seu café
Como era habitual
Sorriu para os vizinhos
Como era habitual
Vivendo a sua vida
Uma vida habitual
Foi insultado mal tratado
Como era habitual
Foi alvejado cegamente
Por alguém para quem matar
Havia sido habitual
E assim morre mais um negro
Só por isso de ser negro
O que já é habitual
- Luísa Sobral -
No dia em que foi cobardemente assassinado por um velho racista, um ex-combatente do Ultramar com uma arma ilegal em casa, o actor Bruno Candé deixou para trás o almoço pronto, três filhos pequenos e, como bem lembra a escritora Dulce Maria Cardoso, uma cadela, Pepa, que fugiu do local assustada com os cinco tiros disparados à queima-roupa.
A jornalista Catarina Reis fez um excelente trabalho neste “Homem que via no escuro”, contando o percurso da mãe de Bruno desde que, aos 14 anos, conheceu na Guiné o português pai dos seus dois primeiros filhos, dando um panorama socioeconómico da Zona J, onde cresceu o actor, e contextualizando este crime, a primeira condenação motivada por ódio racial. São muitas as elações que se podem tirar deste homicídio bárbaro de alguém que tira a vida a um homem que apelidou de “preto de merda” e não mostrou arrependimento em tribunal, mas o último parágrafo resume-as na perfeição.
[Bruno] jamais pensaria que a história colonial da qual a família nasceu e cresceu foi a mesma que o matou. A guerra levou um português até Cadi Candé Marques, encontro que fez nascer Olga, Carla e Fernando; também foi a guerra que conduziu a guineense até Lisboa, à Zona J. A mesma guerra que tornou um homem revoltado e armado que acabaria por trazer a Cadi a pior dor de uma mãe. O que pensara Candé de um homem que ameaça, a plenos pulmões, ter matado “pretos” na guerra, violado mulheres africanas e ter uma arma em casa pronta para matar outros?
[Obrigada, Martinha!]
March 11, 2025
Um livro de não ficção escrito em português com versão áudio e disponibilizado gratuitamente para quem tem cartão de biblioteca em Portugal através da plataforma BiblioLED.
No fundo é uma longa peça jornalística que nos mostra o Bruno Candé, assassinado em 2020 por motivos racistas (como provado em tribunal). É também um retrato de alguns bairros marginalizados da capital, sobre a emigração de comunidades dos PALOP para Lisboa/Portugal, sobre a integração (ou falta dela) na vida em Portugal. Como mudar o nome aos bairros não muda a fama ou o nome com que os locais (e media) continuam a usar para se referir a esses bairros.
Doeu ler este livro, doeu pensar que no meu país há pessoas que pensam e são capazes de cometer estes actos e que há quem os defenda ou incentive.
Este foi meu primeiro audiobook em português e por tudo (conteúdo, escrita/texto, narração) merece as 5 estrelas. Senti que estava a ouvir uma longa reportagem de investigação da RTP.
No fundo é uma longa peça jornalística que nos mostra o Bruno Candé, assassinado em 2020 por motivos racistas (como provado em tribunal). É também um retrato de alguns bairros marginalizados da capital, sobre a emigração de comunidades dos PALOP para Lisboa/Portugal, sobre a integração (ou falta dela) na vida em Portugal. Como mudar o nome aos bairros não muda a fama ou o nome com que os locais (e media) continuam a usar para se referir a esses bairros.
Doeu ler este livro, doeu pensar que no meu país há pessoas que pensam e são capazes de cometer estes actos e que há quem os defenda ou incentive.
Este foi meu primeiro audiobook em português e por tudo (conteúdo, escrita/texto, narração) merece as 5 estrelas. Senti que estava a ouvir uma longa reportagem de investigação da RTP.
December 25, 2023
"(...) os crimes de ódio podem não só afetar as pessoas mais próximas da vítima, como atingir uma comunidade com quem partilham a característica pela qual foi discriminada. Nos cálculos da discriminação, portanto, a vítima não é só uma."
Um retrato belíssimo e comovente do ator Bruno Candé e da sua paixão pelo teatro. Um retrato dos bairros marginalizados de Lisboa, nomeadamente o Cais do Sodré e Chelas, e a sua história, bem como a história das vagas migratórias de Cabo-Verde e Angola para a AML. E um retrato do racismo estrutural na sociedade portuguesa, da falta de referências negras para os jovens e da falta de apoio às vítimas de racismo e discriminação.
Achei muito interessante a citação de Sam The Kid sobre o facto de mudar o nome de um bairro considerado "problemático" não alterar a sua reputação, bem como o facto de um quarto ou casa na mesma rua ter valores diferentes consoante estivesse indicado que se situava em Chelas ou Marvila (apesar de ser a mesma localização). Também merece destaque a parte sobre os benefícios que a Casa Conveniente trouxe para as escolas e para a comunidade local ao mudar-se para Chelas. A Casa Conveniente é a associação teatral da qual Candé fez parte, fundada por Mónica Calle, cujo conceito é estar precisamente em locais marginalizados, "onde ninguém para fica para ver a história". A sua instalação em Chelas solidificou o ensino da música nas escolas, a identidade e a arte urbana local e trouxe a vinda de atores que, de outra forma, circulariam apenas noutras regiões de Lisboa (Chelas até recentemente estivera "isolada" da cultura exterior, devido ao estigma associado ao bairro).
Foi incrivelmente comovente ler sobre a paixão de Bruno Candé pela arte e pelo teatro e sobre o seu o caráter altruísta, que lhe valia a alcunha de "chato" enquanto anfitrião, por fazer questão que todos os seus amigos e convidados estivessem confortáveis e a comer ou a beber. O livro em que estava a trabalhar, sobre os testemunhos de diferentes pessoas em relação ao que significa ser "miserável", teria de certo sido uma obra inestimável e algo nunca antes visto, e é lamentável que não se tenha vindo a concretizar. É uma tragédia que um ser humano tão extraordinário, que via sempre o lado positivo das coisas, tenha falecido vítima de um crime de ódio.
Os meus agradecimentos a Catarina Reis por nos ter trazido o retrato desta grande figura, e por contar e ensinar tanta coisa num livro tão pequeno.
Um retrato belíssimo e comovente do ator Bruno Candé e da sua paixão pelo teatro. Um retrato dos bairros marginalizados de Lisboa, nomeadamente o Cais do Sodré e Chelas, e a sua história, bem como a história das vagas migratórias de Cabo-Verde e Angola para a AML. E um retrato do racismo estrutural na sociedade portuguesa, da falta de referências negras para os jovens e da falta de apoio às vítimas de racismo e discriminação.
Achei muito interessante a citação de Sam The Kid sobre o facto de mudar o nome de um bairro considerado "problemático" não alterar a sua reputação, bem como o facto de um quarto ou casa na mesma rua ter valores diferentes consoante estivesse indicado que se situava em Chelas ou Marvila (apesar de ser a mesma localização). Também merece destaque a parte sobre os benefícios que a Casa Conveniente trouxe para as escolas e para a comunidade local ao mudar-se para Chelas. A Casa Conveniente é a associação teatral da qual Candé fez parte, fundada por Mónica Calle, cujo conceito é estar precisamente em locais marginalizados, "onde ninguém para fica para ver a história". A sua instalação em Chelas solidificou o ensino da música nas escolas, a identidade e a arte urbana local e trouxe a vinda de atores que, de outra forma, circulariam apenas noutras regiões de Lisboa (Chelas até recentemente estivera "isolada" da cultura exterior, devido ao estigma associado ao bairro).
Foi incrivelmente comovente ler sobre a paixão de Bruno Candé pela arte e pelo teatro e sobre o seu o caráter altruísta, que lhe valia a alcunha de "chato" enquanto anfitrião, por fazer questão que todos os seus amigos e convidados estivessem confortáveis e a comer ou a beber. O livro em que estava a trabalhar, sobre os testemunhos de diferentes pessoas em relação ao que significa ser "miserável", teria de certo sido uma obra inestimável e algo nunca antes visto, e é lamentável que não se tenha vindo a concretizar. É uma tragédia que um ser humano tão extraordinário, que via sempre o lado positivo das coisas, tenha falecido vítima de um crime de ódio.
Os meus agradecimentos a Catarina Reis por nos ter trazido o retrato desta grande figura, e por contar e ensinar tanta coisa num livro tão pequeno.
August 8, 2023
"A empatia é a melhor educação, continua a acreditar." (p.72)
November 3, 2023
um belíssimo retrato de Bruno Candé, e do longo caminho que Portugal tem pela frente. Lágrimas, sorrisos e arrepios foi o que este livro me deu.
March 4, 2023
Retrato do ator Bruno Candé, retrato de Lisboa, retrato da primeira condenação em Portugal de crime motivado por ódio racial, retrato da morte causada pela cor de pele.
Leitura obrigatória. Traz lágrimas, memórias, comparações e coincidências com a minha vida, talvez da empatia, mas eleva temas que nunca deveremos esquecer.
Leitura obrigatória. Traz lágrimas, memórias, comparações e coincidências com a minha vida, talvez da empatia, mas eleva temas que nunca deveremos esquecer.
December 7, 2023
Recomendo a leitura, sobretudo para quem ainda tiver dúvidas acerca do racismo português.
January 4, 2025
Bruno Candé, actor português brutalmente assassinado em 2020, tornou-se símbolo de como o racismo pode manifestar-se de forma extrema, letal e visceral. O seu assassinato escancarou as feridas de uma sociedade que muitas vezes tenta negar ou minimizar a existência do racismo estrutural e individual.
No livro "O Homem que Via no Escuro", de Catarina Reis, as narrativas abordam a escuridão não apenas como ausência de luz, mas como uma metáfora para a cegueira moral e ética da sociedade. Essa cegueira impede que muitos vejam o peso do preconceito que marginaliza e vitimiza pessoas negras.
Refletir sobre o caso de Bruno Candé, sob a ótica das metáforas do livro, desafia-nos a confrontar a nossa própria visão: o que nos impede de ver o outro como um igual?
É urgente trazer luz, consciência e ação para combater a violência que nasce do preconceito
No livro "O Homem que Via no Escuro", de Catarina Reis, as narrativas abordam a escuridão não apenas como ausência de luz, mas como uma metáfora para a cegueira moral e ética da sociedade. Essa cegueira impede que muitos vejam o peso do preconceito que marginaliza e vitimiza pessoas negras.
Refletir sobre o caso de Bruno Candé, sob a ótica das metáforas do livro, desafia-nos a confrontar a nossa própria visão: o que nos impede de ver o outro como um igual?
É urgente trazer luz, consciência e ação para combater a violência que nasce do preconceito
April 3, 2026
teria "tudo para dar errado, mas eu sou o Bruno Candé".
que livro, meus amigos. o meu capítulo preferido é aquele "As notas de Bruno Candé - Quem são os miseráveis?" que diz respeito às transcrições de testemunhos recolhidos pelo próprio Bruno, meses antes da sua morte, às mais variadas pessoas, em resposta à pergunta "quem são os miseráveis?". uma simples pergunta com mais de uma centena de respostas e perspetivas diferentes. simplesmente delicioso de ler.
outra nota importante e que estimula a reflexão: "Esta é uma das limitações que tem sido apontada a Portugal. Se não temos consciência suficiente sobre a dimensão do racismo, não haverá meios para combatê-lo."
que livro, meus amigos. o meu capítulo preferido é aquele "As notas de Bruno Candé - Quem são os miseráveis?" que diz respeito às transcrições de testemunhos recolhidos pelo próprio Bruno, meses antes da sua morte, às mais variadas pessoas, em resposta à pergunta "quem são os miseráveis?". uma simples pergunta com mais de uma centena de respostas e perspetivas diferentes. simplesmente delicioso de ler.
outra nota importante e que estimula a reflexão: "Esta é uma das limitações que tem sido apontada a Portugal. Se não temos consciência suficiente sobre a dimensão do racismo, não haverá meios para combatê-lo."
December 16, 2024
Tenho tido tanto interesse pelo tema do racismo. Eu sinto culpa pelo que fizemos e continuamos a fazer com outros povos.
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