Existem livros – tais como O Guarani, Iracema e por que não, O Continente – que se tornam retratos de um determinado período histórico. Alguns livros, no entanto, além de se tornarem retratos daquele período, mantém-se atuais mesmo várias décadas após sua publicação. Incidente em Antares é um dos representantes desse segundo grupo.
Erico Verissimo, usa de toda a sua genialidade com as palavras para fazer duras críticas sociais e políticas à sociedade brasileira da época (e incrivelmente as críticas tecidas em 1970 podem ser transportadas para o presente e ainda assim serem validas).
O livro é dividido em duas partes – Antares e O Incidente. Na primeira parte Erico age como um historiador, recriando o passado da fictícia cidade de Antares desde a sua fundação até os anos de 1963. Essa parte é incrivelmente detalhada, citando as “fontes” usadas, tais como trechos de diário e artigos de jornal. Nessa parte também é feito um retrato da elite gaúcha da época, isto é, branca, conservadora, racista e corrupta.
"Antes de embarcar, conversou longamente com Zózimo, que o escutou num silêncio entre tristonho e constrangido:
– Precisas compreender, homem, que os tempos mudaram. – E, num tom quase de colegial lendo um editorial de jornal, acrescentou: – É preciso reformar as velhas estruturas chamadas democráticas liberais. O Getúlio compreendeu a coisa. Somos um país subdesenvolvido de analfabetos e indolentes. É indispensável unificar e organizar a nação com punho de ferro. Vê o caso da Itália... O Mussolini acabou com a anarquia, implantando a ordem e o respeito à autoridade, e os trens já partem e chegam dentro do horário.
– Não sabia que tinhas aderido ao fascismo – sorriu Zózimo.
– Qual fascismo qual nada! Sou um realista e como tal simpatizo com os regimes autoritários. Sempre simpatizei, tu sabes.
– Mesmo no tempo do Dr. Borges de Medeiros?
– Ó homem, estamos na era do avião e do rádio e tu me vens com o borgismo! Naquela época eu era pouco mais que um rapazola inexperiente. E se me meti na revolução de ‘23 foi só para seguir o meu velho pai. Mas não desconverses. O Hitler reergueu a Alemanha, aboliu todos os partidos (menos o dele, naturalmente), botou pra fora do país os judeus que, como se sabe, são os culpados dessas guerras e intrigas políticas e financeiras internacionais, homens gananciosos e sem pátria.
– Também não sabia que tinhas virado racista.
– Racista eu? Ora, não sejas bobo. Sabes como trato a minha negrada. Eles me adoram. Mamei nos peitos duma negra-mina. Me criei no meio de moleques pretos retintos. Quando leio esses casos de ódio racial nos Estados Unidos, comento a coisa com a Lanja e lhe digo que no Brasil a gente, graças a Deus, não tem esses problemas, pois aqui o negro conhece o seu lugar."
Já na segunda parte do livro, ocorre o Incidente. Devido a uma greve geral convocada pelos sindicatos, sete mortos – representantes das diversas castas sociais - não podem ser sepultados. Indignados por não serem sepultados como “bons cristãos”, os mortos se levantam e passam a exigir o seu direito ao descanso eterno (e a infernizar a vida dos vivos). O que ocorre a seguir é uma crítica fortíssima à hipocrisia da sociedade brasileira e a corrupção endêmica que assola nosso país até hoje. É impressionante a coragem que Verissimo teve de escrever – e publicar – esse livro no auge da ditadura militar brasileira e é ainda mais impressionante o fato desse livro ter passado pelo crivo dos censores empregados pelo regime.
“O delegado Pigarço estará sempre pronto a prender como subversivo todo aquele que escrever com realismo sobre as misérias da nossa Babilonia e outros antros de indigência, mas essas favelas propriamente ditas não preocupam a burguesia. Aquilo que ninguém fala ou escreve não existe. Se um espelho reflete um ato ou fato que consideramos escandaloso, quebramos o espelho e voltamos as costas para o ato e o fato, dando a questão como resolvida. Neste país quase todos os problemas políticos, econômicos e sociais são solucionados no papel”.
É interessante, também, ver que vários dos conceitos bradados pelo Cel. Tibério Vaccariano, exemplo da elite conservadora gaúcha do inicio do Século XX e que são ecoados por políticos de extrema direita atualmente, são duramente criticados por Erico Verissimo na década de 70.
“Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplisticamente todo o sujeito que clama e luta por justiça social”.
No final, obviamente, ocorre uma operação borracha para “apagar dos anais da história” o triste incidente em que todas as hipocrisias da sociedade brasileira foram reveladas pelos mortos, contando é claro, com a curta memória de nosso povo.
“-Mas o povo ficou sabendo.
- Que é o povo? Um monstro com muitas cabeças mas sem miolos. E esse “bicho” tem memória curta...”