«Entre mim e o pesadelo. Entre mim e o pesadelo. Ou o que quer que venha ao meu encontro. Era uma viagem estranha, quase tão estranha como os seus pensamentos. Estava a atravessar o rio, estava a atravessar o lago, para um lugar que não conhecia, para um lugar que ninguém conhecia, mas as pessoas diziam que ficava sempre a noroeste. O homem que remava com firmeza conservava-se em silêncio e ela também não sabia o que dizer. Deviam ter sido só uns cinco ou sete minutos, mas pareceu-lhe uma viagem muito longa. Avistou uma luz a brilhar no nevoeiro. Aproximaram-se de um pequeno cais, e ela viu a forma da casa, a luz acesa no alpendre, a torre desenhando-se ao fundo.»
ANA TERESA PEREIRA nasceu a 30 de Maio de 1958 no Funchal, onde vive. Frequentou um curso de guia intérprete, actividade que abandonou aos vinte e cinco anos para estudar Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Contudo, no final do segundo ano, abandonará também a Filosofia e regressará ao Funchal, onde se dedicará exclusivamente à prática da escrita tendo uma já longa e variada carreira literária. Desde o seu primeiro livro tem vindo a publicar regularmente. A singularidade da sua temática e a concisão da sua escrita dão a Ana Teresa Pereira um lugar próprio na literatura portuguesa actual. Tem colaboração nos jornais Público e Diário de Notícias (Funchal) e nas revistas Islenha e Margem 2. Ao longo da sua carreira recebeu os seguintes prémios: Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB (2011), o Prémio Literário Edmundo Bettencourt (2006; 2010), o Prémio Máxima de Literatura (2007), o Prémio PEN Clube Português de Narrativa (2005); o Prémio Caminho de Literatura Policial (1989); o Prémio Revelação de Ficção APE/DGLB (1989) e o Prémio Oceanos de Literatura Portuguesa (2017).
Não se lembrava de fazer outra coisa nos últimos tempos. Ver os dvds de “Waking the Dead” e ler livros de Enid Blyton. Fizera anos alguns dias antes, e pensara vagamente em ir ao pub onde se reuniam os amigos. Mas limitara-se a oferecer a si mesma lençóis lavados e um muffin de amora com o café da manhã.
Com 34 anos acabados de fazer, Kate atravessa um bloqueio criativo até que encontra a sua personagem, Tom, um actor mais velho que a encantara 16 anos antes e que, agora, está em Dublin a representar uma peça do pai dela.
E então teria sido um trabalho limpo. O trabalho de um escritor. Não esta coisa que eu faço, escrever e representar, e não distinguir as pessoas das personagens.
Tal como um predador, segue a sua vítima, brinca com ela, orquestrando o seu próprio enredo para se poder inspirar e escrever um policial, acabando por se envolver com a sua própria personagem, que talvez não esteja a manipular tão bem como acredita. Bebendo como sempre do universo único que caracteriza a sua escrita, alternando entre a Inglaterra e a Irlanda, Ana Teresa Pereira polvilha “A Pantera” de referências literárias…
Ela teve vontade de perguntar, posso viver aqui contigo. E lembrou-se de uma frase de Truman Capote, talvez uma referência à mãe do escritor. Eu não como muito, não compro muitos batons.
…e musicais…
- Time is on my side… yes, it is… - cantou baixinho.
…mas agora sobretudo teatrais, numa obra metaliterária em que se confundem autores e personagens, representação e vida real.
- Os demónios estão à nossa volta. - Se perder os meus demónios, perderei os meus anjos. - Como? - É uma frase de Tennessee Williams. - Então… porquê? Tom levantou-se. Estava de costas para o lago e parecia ainda mais alto diante da água e do nevoeiro. - Ouve, Kate. Pára de procurar. Alguns de nós têm a necessidade de ir embora. É essa a nossa natureza. - “and I followed the smell of the panther” – disse ela baixinho. - Há coisa que não deixamos para trás, o nosso cão, alguns livros. Mas deixamos tudo o resto.