Yvonne, de 80 anos, viveu 40 anos na sua casa, mas vê‑se obrigada a mudar para uma residência de idosos—um choque de identidade e autonomia que a confronta com o sentir-se "perto do fim". Yvonne é uma mulher lúcida, humorada, irreverente—alguém que nos desafia a questionar os estereótipos da velhice.
Esta novela gráfica é, desde o início ao fim, literatura de tomada de consciência.
Uma novela gráfica tocante e desconcertante, que mergulha de frente, com coragem, em temas actuais mas desconfortáveis: a velhice, a perda de autonomia, os lares de idosos, e aquilo que se faz (ou se deixa de fazer) quando já não há ninguém por perto. Tudo isto através de uma narrativa visual e literária profundamente sensível e artística.
Logo nas primeiras páginas, o leitor confronta-se com uma escolha brutal: o que fazer com um animal de companhia o qual é a sua família quando se é forçado a deixar a própria casa? É impossível não ser abalado. E este é apenas o primeiro de muitos dilemas difíceis, tratados aqui, neste livro. É um dos temas - a violência emocional das escolhas forçadas na velhice. Conheço, felizmente, alguns lares que permitem a admissão dos seus residentes com os seus animais de estimação, o que é uma atitude de louvar.
A arte e o texto caminham lado a lado para evocar empatia e desconforto. O traço, a paleta e o ritmo da imagem são quase ternos, mas o que se revela é uma realidade dura, muitas vezes invisível, onde os mais velhos são infantilizados, despersonalizados, e empurrados para a margem da vida.
“O Mergulho” é uma metáfora e uma denúncia. Uma chamada de atenção para o que acontece quando a identidade começa a ser apagada em vida.
Entre os momentos que achei mais comoventes, destaca-se a cena em que a protagonista ajuda Fifi, que vive com demência, a enfeitar uma árvore de Natal… que não existe. É um gesto pequeno e imenso ao mesmo tempo — uma escolha de empatia, em que se entra no mundo do outro, em vez de o negar. Uma delicadeza rara que mostra que, mesmo nos contextos mais desumanizantes, como neste lar que apaga a identidade dos residentes, há ainda espaço para relações verdadeiras e de empatia transformadora devolvendo a visibilidade que lhe tinha sido negada.
Num sussurro, Yvonne confessa que tem medo de se esquecer do nome de Tom. E nesse medo está tudo: o amor, o tempo, e a perda de si. O medo da morte da identidade.
O livro expõe, sem rodeios, a realidade dos lares de idosos: os residentes sentados em silêncio, a perda da identidade, horários rígidos, a infantilização nas conversas, e o apagamento do eu. A protagonista observa tudo isto, reconhecendo a dor e a solidão que são o quotidiano dessas pessoas.
Noutro momento tocante, os residentes fecham os olhos e dizem os desejos que teriam se pudessem voltar à infância. Essa cena é uma janela para a alma, revelando a criança interior que permanece, mesmo quando o corpo está cansado, e os sonhos parecem distantes.
Existe um paralelismo num mergulho inicial com um mergulho final numa outra vida onde existe lugar para o amor e para o inesperado - uma metáfora poderosa, que simboliza o ciclo da existência — mesmo no que parece o fim, há um recomeço, uma liberdade nova, uma resistência à estagnação.
Obrigada, Paulinha! 🌹🥰