4,5*
#halfon de mi corazón
Releitura: 23/11/2024
Cheguei a Tóquio disfarçado de árabe.
Depois de ter publicado duas novelas auto-ficcionais de Eduardo Halfon, a D. Quixote parece ter desistido dele, o que é de lamentar porque este guatemalteco tem uma voz muito própria que, tal como Alejandro Zambra e Annie Ernaux, se compreende melhor quanto mais das suas obras se ler. Agora que li e sondei outros livros do autor, compreendo que repete as histórias da sua família que recuam aos seus avós, acrescentando mais informação, apresentando-as de outra perspectiva, investigando-as mais a fundo, e o que é aqui abordado superficialmente será aprofundado noutro lado e vice-versa.
***********************************************
Leitura: 06/2022
Preciso de leituras de 4 e 5* como de pão para a boca (falando nisso, já repararam que, dependendo de onde compram os vossos livros e do tamanho da vossa família, não tarda o pão está ao preço dos livros?), mas não preciso de descobrir todas as semanas novos autores que me entusiasmem e me façam adquirir mais livros do que aqueles que já tenho por ler. E Eduardo Halfon, cuja existência desconhecia até esta semana, empolgou-me bastante.
Desde que li “Somos o Esquecimento que Seremos” de Hector Abad Faciolince que sinto uma enorme apetência por livros de memórias e, apesar de se passar num país diferente e o registo ser muito menos emotivo, porque os protagonistas não se prestam a isso, encontrei alguns pontos de convergência entre aquele e “Canción”, nomeadamente a violência e a instabilidade política que, a bem dizer, se estende a grande parte da América Latina.
Numa Guatemala dos anos 60, caracterizada pelos sequestros constantes de estrangeiros em altos cargos para serem usados como moeda de troca e de empresários para financiamento da guerrilha opositora ao governo manobrado pelos EUA, o avô de Halfon, um judeu de origem libanesa, dono de uma loja e de uma fábrica de tecidos, permanece em cativeiro durante 35 dias. O mais cordial dos seus captores, mas também aquele que não hesitou em apontar uma metralhadora à filha do Sr. Halfon quando ela se pôs à frente do carro usado no rapto, é Canción, também conhecido como El Carniceiro.
Este relato é-nos habilmente dado através de pequenas migalhas que o autor vai espalhando e alternado com o passado do avô e com episódios recentes e distantes do seu neto, incluindo os que nos mostram que não era próxima a relação entre eles.
O meu pai abriu a caixa e disse-me que o meu avô me tinha deixado algumas coisas: um pesado selo branco que gravava em papel o relevo do seu nome, que é também o relevo do meu nome; umas pequenas cartolinas azul-celestes, como cartões de negócios, com o seu nome gravado em letras cinzentas, que também é o meu nome gravado em letras cinzentas. (...) O meu avô, pensei, tinha-me deixado aquelas coisas porque eu era o único outro Eduardo Halfon. A minha herança, literalmente, textualmente, era o meu nome.
Pelo que percebo, é esta a pedra de toque das obras de Halfon, as origens e a identidade, que ele busca incessantemente através da biografia da sua família.
Estava no Japão para participar num congresso de escritores libaneses. (...) Nunca me tinham solicitado que fosse um escritor libanês. Escritor judeu, sim. Escritor guatemalteco, claro. Escritor latino-americano, com certeza. Escritor centro-americano, cada vez menos. Escritor norte-americana, cada vez mais. Escritor espanhol, quando era preferível viajar com este passaporte. (...) Guardo todos esses disfarces sempre à mão, bem passados a ferro e pendurados no armário.
É um género de literatura, baseada em memórias e investigação, que me agrada muito, mas em Eduardo Halfon há um desprendimento e uma divagação que verdadeiramente me seduz.
Uma académica literária já idosa saltou em minha defesa, mais ou menos, dizendo ao jornalista – também sem olhar para mim e falando de mim como se eu não estivesse presente – que Halfon fazia a mesma coisa quando escrevia, que todas as suas histórias pareciam extraviar-se e não chegar a lado nenhum. Eu não disse nada, embora pudesse ter dito isto: o fotógrafo Cartier-Bresson, para determinar o valor artístico de uma das suas imagens, voltava-a sempre de cabeça para baixo e via-a ao contrário.