Edição maravilhosa da Carambaia. Não poderiam ter colocado juntos novelas melhores.
Pra quem nunca leu Tolstói, com certeza Sonata Kreutzer não é a melhor novela para começar pois representa um período muito peculiar da vida do autor - o fim da vida meio doido que ele teve. Uma novela em que o personagem principal tem umas ideias bem misóginas e só consegue ver o próprio umbigo.. muito representa do que o próprio autor pensou nessa época. Mas gente, nem parece o mesmo Tolstói que escreveu Guerra e paz.. felicidade conjugal, Anna Kariênina..enfim, tem a mesma potência, uma narrativa cinematográfica que prende o leitor, mas é decepcionante pensar que Tolstói pensava dessa forma sobre as mulheres e sobre o casamento;
A novela se passa em um trem, o narrador está ouvindo um debate sobre como o direito das mulheres (em específico o divórcio) tem avançado na Europa.. como sempre tem os a favor e os contra, e nesse meio tempo um homem que observava o debate calado, não aguentando mais, se manifesta dizendo que matou a esposa por ciúmes (ahhh como as mulheres estão depravadas).. obviamente fica aquele climão, a galera se dispersa, e fica somente o narrador para ouvir o relato do assassino.
Na época do lançamento da novela - 1891 - foi unânime a opinião de que as ideias expressas (com exceção do ato final - assassinato) representava as ideias que o Tolstói tinha do próprio casamento.
Sendo assim, Sófia Tostaia escreveu uma novela resposta "De quem é a culpa?", onde a novela é escrita na perspectiva da mulher assassinada. E escreveu também "Canção sem palavras", não é uma resposta direta a Sonata Kreutzer, mas representa o que Sófia pensava sobre o amor, casamento.
A carambaia publicou essas três novelas neste livro. E ainda conta com um artigo curtinho em que Tolstói expõe o que ele queria dizer o com a novela Sonata Kreutzer e mais dois posfácios muito bons sobre a relação conturbada de Sófia e Tolstói, o que torna esse edição maravilhosamente genial!
enfim, ambas as três novelas são muito boas. Tolstói indefensável e Sófia contando com toda minha solidariedade. Não é fácil ser mulher. Meu Deus!
como diz o posfácio de Boris Schnaiderman para a editora 34 "A sonata a Kreutzer desafia-nos até hoje e parece insistir em que a literatura nos obriga às vezes a conviver com aquilo que nos parece mais odioso em nosso cotidiano". Com toda certeza!