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Insânia

Portugese

225 pages, Paperback

First published January 1, 1996

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About the author

Hélia Correia

62 books47 followers
HÉLIA CORREIA nasceu em Fevereiro de 1949, licenciada em Filologia Românica e professora de Português do ensino secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético.
Na sua ficção, conflui o reatar de uma herança literária que impõe certa linearidade à escrita romanesca com a assimilação de traços da narrativa contemporânea que vão de um García Márquez ou Carpentier até à novelística de Agustina Bessa-Luís, numa tendência para surpreender o sobrenatural no quotidiano da vida provinciana e burguesa, ou para transpor para a escrita romanesca o plano em que a dimensão social das relações humanas se cruza com a religiosidade, com a superstição e até com o irracional. Estreou-se na poesia, em 1981, com O Separar das Águas e O Número dos Vivos em 1982. A novela Montedemo, encenada pelo grupo O Bando, deu à autora uma certa notoriedade. Aliás, Hélia Correia revelou, desde cedo, o gosto pelo teatro e pela Grécia clássica, o que a levou a representar em Édipo Rei e a escrever Perdição, levadas à cena, em 1993, pela Comuna. Escreveu também Florbela, em 1991, que viria a ser encenada pelo grupo Maizum. Destacam-se ainda na sua produção os romances Casa Eterna e Soma, e, na poesia, A Pequena Morte/Esse Eterno Conto.
Recebeu em 2002 o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela sua obra Lillias Fraser, e em 2006 o Prémio Máxima de Literatura, pela obra Bastardia.

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Displaying 1 - 5 of 5 reviews
Profile Image for Katya.
560 reviews3 followers
Read
May 16, 2023
Ainda tenho pesadelos com o primeiro desafio que me foi colocado em edição de textos. E esse desafio foi, indiretamente, responsabilidade de Hélia Correia, cujo livro Adoecer (decerto por descarte de responsabilidade da editora para com autores nacionais vivos que são brilhantes, infalíveis, e dispensam qualquer trabalho pago de revisão, para não variar) chegou às livrarias numa edição deplorável. Tanto assim que serviu, e aposto que ainda hoje serve, de lição a um grupo de licenciandos desprevenidos que achavam que a tarefa de rever um livro era uma coisa divertida, rápida e fácil de fazer. Não é! Não foi! E Hélia Correia merecia melhor tratamento do que o que aquela edição deixa antever.
Consequência direta desta experiência traumática foi a delonga em pegar noutro livro de sua autoria - uma espécie de maldição que só quebrei agora quando, numa das trocas de livros que sempre promovo e procuro, me chegou às mãos este Insânia. E Insânia revelou-se uma coisa que eu não esperava de todo (se é que esperava algo)!

Estamos na Levada, uma vila misteriosa, sobrevivente ao fim dos tempos motivados por guerras e fomes que grassam fora de fronteira.

Tornara-se, como outros, insensível às notícias das guerras que alastravam e se fundiam umas com as outras. Eram guerras mal feitas, quase em bruto. As pessoas corriam pelos passeios, inclinadas para a frente, protegendo os sacos com as compras, e caíam,buscando com os olhos o autor do disparo, ainda a tempo de o verem por detrás de uma janela.(...)O ar, em vez de gás ou de micróbios, andava saturado de projécteis. E o vento transportava, sem fronteiras, aquela nova cólera de Deus. Qualquer coisa, chegada do princípio dos tempos, qualquer coisa sem forma e sem ideia, ia encobrindo a luz em todo o lado.
- É a Besta! - exclamava o velho Amor, batendo com o punho na poltrona.
- Metade do que passa é invenção - ponderava Maria das Mercês.


Enquanto isso, ali, o tempo cristalizou, o ramerrame da vivência mesquinha, isolada, ignorante e ignorada é o único que se faz sentir. Isto é, até ao dia em que uma criança, a pequena, estranha e solitária Natalina chega à povoação. E essa súbita aparição, fazendo mexer com moral e costumes, rapidamente se torna venenosa.

Tomava Natalina para exemplo da errância dos homens: pouco mais do que um bicho, talvez filha de comércio carnal com o Demónio, resultando tudo isto, sexo, guerras, crianças doidas, da modernidade, da ofensa das máquinas a Deus.

Regressados a uma espécie de instinto reptiliano, pela força e mistério das circunstâncias, os habitantes de Levada deixam que venham à tona comportamentos que renunciam à norma social e comunitária...

Parecia haver um nervo sensitivo a ligar toda a gente de forma que as notícias passassem sem palavra, tal como acontecia muito século atrás, quando o grupo caçava e se aquecia, e o percorria um certo frémito animal.

...o próprio espaço, alimentado pelo vazio e pelo silêncio pós-apocalíptico, revela-se a cada dia mais primordial, e os habitantes reagem a ele como manadas de animais que, postas sobre os relevos das paisagens, as interpretam no que têm de perigoso ou seguro para a sua sobrevivência, consoante os predadores que nelas se podem abrigar da vista.

Na verdade, acontecem movimentos assim, de cardume, e, ao sinal de qualquer emissão que os sentidos humanos não podem perceber, estala em todo o alarme como uma chicotada. Talvez que fosse alguém mais entregue à preguiça quem se lembrou de propagandear que os campos já não eram transitáveis, não sei. Certo é que, um dia, ninguém foi para o campo e acabou-se. Ou melhor, começaram a levantar-se em volta, como em cenário toscamente debuxado, rumores sobre coisas medonhas que fugiam aos moldes naturais da existência. O que, efectivamente, parecia confirmado pelo vertiginoso crescer dos matagais e o progressivo rarear dos bichos nos caminhos e muros ainda a descoberto.

A vida assim tolhida no que tem de mais humano, reduzindo os homens a bichos, acaba por se revelar mera sobrevivência do mais forte.

Houvera, de algum modo, um atrofiamento idade mental de toda aquela gente que ainda fora educada para um padrão de vida cuja glória assentava num ofício promissor e num acrescentar sem fim de aparelhagens e mais assoalhadas para as conter. Mas, nos últimos tempos, viviam de subsídios e pequenas malícias, o que, ao longo dos meses, os emparvoecera, tornando-os temerosos e falhos em piedade, como se regressassem ao descuido da infância, quando se encontra sempre a comida na mesa e a mão do sobre a cabeça, a perdoar.

Aquilo que fica a faltar ao raciocínio humano, posto perante tanta adversidade, é uma atribuição de culpas. Se há um crime há um culpado. É preciso apontar o dedo a alguém.

Faltara-lhe uma carne contra a qual disparar a sua pregação. Talvez a carne fosse imprescindível para que o verbo odiasse eficazmente. (...)Chuvas, ventos, loucura, cegueira, mães indiferentes, frutas ocas, casas mortas, a rede social desfeita em pó, a ilusão dos olhos, dados a erros próprios dos olhos animais a quem Deus não concede a discriminação - que era isso senão o demo sobre a terra?
E que coisa endoidara os corações, para que, em vez de pulsarem com regularidade, se pusessem a andar à roda do seu centro, engolidos num vortice que a seguir sugaria a alma e a sensatez- que coisa era, se não o rosto da criança?


E então onde acaba Natalina no meio disto tudo? E os habitantes de Levada? Essas são duas das muitas perguntas que se repetem e adensam ao longo de uma leitura misteriosa, complexa e estranha também ela como as personagens que oferece. Talvez existam algumas arestas por limar, concedo sem preconceito, mas o romance está muito bem conseguido no que tem de fantasia, suspense, crítica social e profecia.

Nessa limpeza, que era a morte na alma, presença alguma poderia criar sombra.
Profile Image for Teresa.
1,492 reviews
April 12, 2018
Gostei da escrita que, embora incomum, me soa natural e genuína; ao contrário das personagens e enredo, que achei artificiais. A partir do meio, perdi o interesse. Como a vida, o tempo são bens escassos e preciosos, arrumo-o sem ver o fim...
Profile Image for Bruno Carriço.
201 reviews16 followers
August 10, 2021
A prosa de Hélia Correia prometia mais, mas confesso que nunca me senti envolvido. Foi, quase sempre, uma leitura em esforço. Tratarei de insistir, pelo que aceito sugestões de obras da autora.
Profile Image for Susana.
136 reviews
April 30, 2012
Desta autora só tinha lido Lillias Fraser. Os dois livros têm em comum a presença de elementos de fantasia mas, enquanto no Lillias Fraser, a história segue um rumo certo, que faz sentido, e está ligada à realidade pela reconstituição histórica cuidada, neste livro o surreal tomou conta do enredo e chegamos ao fim sem saber muito bem o que aconteceu ou porquê...
Aliás, fiquei com a sensação que a escritora foi escrevendo ao sabor da inspiração sem ela própria saber muito bem por onde ia ou para onde... Mas gostei da escrita, assim cuidada, complexa e exigente.
Profile Image for Filipe Carmo.
10 reviews1 follower
July 6, 2014
Para quem gostou do Cem anos de Solidão provavelmente este é o livro a ler a seguir. Uma aldeia (Levada) e algumas pessoas com certas relações entre si e uma aura de fantasia em volta. Contudo, assemelha-se mais ao final do Cem anos de Solidão, aquele desespero da luta dos seres humanos contra o destino e contra a força da Natureza. Um pouco mais sombrio. Mas uma boa leitura.
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