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112 pages, Paperback
First published February 16, 2023
“Como é bem sabido, aquilo a que costumamos chamar Ocidente bebeu as fontes do seu pensamento em grande medida no Oriente.”
Partindo de Aristóteles, Al Farabi vai definir os seres humanos como os «membros daquela espécie que não consegue alcançar aquilo de que necessita sem viver junta, em muitas associações ou num único lar».
(…) os humanos têm de viver juntos. Como cada um dos seres humanos nunca é autossuficiente, como cada um de nós faz apenas uma parte das coisas de que necessita e precisa dos outros para obter as restantes coisas de que precisa todos os dias, os humanos têm de viver em associação (…).
(…)a humanidade inteira (…) é também uma comunidade política. E essa comunidade política terá de ser multirreligiosa(…).
(…) ao contrário dos filósofos gregos, Al Farabi é otimista em relação à democracia. Aristóteles tinha dito que a democracia redundava sempre em «tirania da maioria».
E, portanto, estas três chaves de pensamento — a humanidade é sempre uma comunidade política, independentemente das suas várias fronteiras; o objeto da política e o objeto da filosofia são a conquista da felicidade, não na eternidade mas sim nas nossas vidas, à qual se chega através da sabedoria; a possibilidade de, através da democracia, chegar à cidade virtuosa —fazem de Al Farabi um filósofo que dialoga muito bem não só com a filosofia antiga, (…) e surpreendentemente, com a nossa própria época, que tanto precisa dessas três ideias.
Este «falar franco» de Aristóteles opõe-se a dois defeitos do discurso que são hoje característicos do discurso político: os defeitos do eiron, ou ironista; e os defeitos do alazon, ou fanfarrão.
O político que diz menos do que deveria dizer padece do pecado de insinceridade, Portanto, a ironia, entendida como característica do discurso que não diz tudo o que há para dizer, torna-se um defeito político, e de facto hoje os líderes políticos não dizem tudo aquilo que deveriam dizer. Não dizem toda a verdade acerca das coisas que os rodeiam. Quando isso acontece durante demasiado tempo, podemos ir parar ao outro extremo.
O outro extremo é o (…) fanfarrão, aquele que exagera, que diz sempre mais do que aquilo que deveria dizer, é aquele que perante a realidade nos dá sempre uma leitura extremada, caricatural, grotesca. O alazon é um político potencialmente muito eficaz porque, cansadas de ouvir políticos insinceros, as pessoas começam a aproximar-se dos políticos fanfarrões, gabarolas, exagerados, demagogos. As pessoas sabem que esses políticos também mentem - não por omissão, mas por exagero - porém algo no fanfarrão nos sugere que, ao mentir, ele é autêntico. Toda a gente sabe que ele é mentiroso - claro que ele mente! —, mas é um mentiroso autêntico, sincero na sua mentira, desbragado na sua fanfarronice e, portanto, de certa forma sedutor.
Aristóteles e Al Farabi consideram que a única maneira de ultrapassar este dilema é através da parésia, ou seja, do falar francamente e através da sinceridade.