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O agora, agora e mais agora de vários passados sucessivos talvez ajude a iluminar melhor o presente (e o futuro?) do que saturarmo‑nos de tudo aquilo que nos acontece hoje. Esta colecção de livros, que foi também um podcast, recupera seis memórias do último milénio — uma história alternativa da modernidade, e dos conceitos que confluíram na noção de dignidade e direitos humanos, através dos agoras dos nossos antepassados.

O que havia antes de todas as nossas polémicas? Em que é que os nossos antepassados gastavam as energias que hoje aplicamos às guerras culturais e políticas? Muito antes de haver esquerda e direita, nasce na Europa medieval uma polarização política entre dois partidos – os guelfos e os gibelinos – que, sendo importante em si mesma, nos ensina muito sobre as nossas próprias polarizações. Com a pandemia da Peste Negra em fundo e uma economia em franca mutação, gera‑se um intenso debate em torno dos conceitos de soberania, para o qual os contributos de um desconhecido notário e do seu discípulo Dante desempenham um papel fundamental.

Esta é a memória segunda de Agora, Agora e mais Agora: Seis memórias do último milénio. A sua palavra‑chave é: polarização.

80 pages, Paperback

First published February 23, 2023

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Rui Tavares

49 books493 followers

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Displaying 1 - 9 of 9 reviews
Profile Image for Beatriz Baptista.
171 reviews84 followers
July 13, 2025
4.5/5 ⭐️
"O que acontecerá às nossas polémicas quando já ninguém se lembrar delas? Quando já ninguém entender o significado das palavras com que tanta energia gastamos, tanto fôlego perdemos?"


assim começa o 2º volume desta coleção, que abandona o iluminismo do oriente (c. 900 d.C), protagonizado pelo filósofo al farabi, no 1º volume, e avança para o sacro império romano, na europa central da idade média (800 d.C — 1806 d.C).

seguimos a oposição entre guelfos e gibelinos — partidos políticos italianos, da época — para explorar o tema da polarização . ao longo desta explicação sobre as suas origens e ideologias distintas, rui tavares vai fazendo paralelos com o nosso presente, ora de forma mais abrangente, entre a esquerda e direita, liberais e conservadores, ora para as divergências mais concretas entre os estados azuis e estados vermelhos da américa, os retainers e leavers no contexto do brexit, entre outras divisões políticas/ideológicas em países como frança, turquia, brasil, alemanha e itália.

”As cidades guelfas são cidades orgulhosas da sua autonomia e da sua capacidade de criar economia, conhecimento e significados, cidades confortáveis com o papel que encontraram na globalização, cidades capazes de atrair fluxos de populações de todo o mundo, de condições muito diferenciadas(…).”

“Para o mundo gibelino, contudo, a tolerância guelfa assemelha-se a uma intolerância profunda: a arrogância dos bem-sucedidos que esqueceram os outros. O amor pela diferença assemelha-se a indiferença: uma atitude de negligência e descaso pelos territórios onde ainda estão os vizinhos, os familiares, os compatriotas, às vezes ali mesmo ao lado, (…). A desenvoltura com que o mundo guelfo se adapta à globalização só reforça o ressentimento com que o mundo gibelino vive o retrocesso (…).”

A facilidade - e a felicidade - com que os guelfos se desligam desses valores (...) não pode deixar de ser interpretada pelos gibelinos como uma alienação.”

“Um pouco da mesma forma que se costuma notar que todas as cidades portuárias têm coisas em comum, por vezes mais do que com as cidades não portuárias dos seus próprios países.”


conclui-se que o foco destas dualidades antigas se centrava entre a lealdade ao imperador contra a lealdade ao papa, onde, semelhante aos dias de hoje, se tomava o lado dos mais privilegiados ou dos plebeus, existindo os defensores da globalização e os que se agarravam ao nacionalismo , e, mais especificamente desse milénio, reinava uma preocupação com o eventual, mas certo, fim do mundo (escatologia).

deste modo, percebemos que muitas das nossas divergências atuais, de certa forma, já ocorreram no passado, mas que há sempre contextos muito específicos de cada época, assim como as respetivas razões e consequências.

“Que importância tem isto? Tem toda. Como é evidente, acreditar (…) que obviamente o mundo vai acabar e vai acabar em breve, durante o nosso tempo, muda tudo nas nossas vidas. Não se fazem as mesmas escolhas, não se fazem os mesmos planos, não se projeta o futuro da mesma forma.”


de seguida, rui tavares recorre à figura notável de dante alighieri (1265— 1321), um conhecido guelfo, para introduzir o seu verdadeiro foco: brunetto latini (1220— 1294), mestre de dante e famoso notário da época. até aqui, na europa ocidental cristã, ser intelectual significava quase sempre apenas e só ser religioso, mas brunetto e a sua "recém-criada" profissão, representam esse ponto de viragem — o conhecimento começa a sair dos mosteiros e a entrar nas cidades, nas mãos de cidadãos comuns não religiosos. desta forma, o debate filosófico e político começa a democratizar-se, ganhando novas perspetivas mais plurais, nascidas do quotidiano e das suas necessidades.

com a vulgarização do acesso a textos e ideias antes restritos ao clero, tornam-se mais frequentes debates baseados em conceitos filosóficos antigos, nomeadamente do nosso grande aristóteles — ideias que ganham expressão na obra de dante, muito provavelmente sob influência do seu mestre brunetto, que acreditava que:

“a organização política que convém à humanidade é uma organização política que ultrapasse fronteiras, de forma a criar a paz perpétua de que os humanos precisam para elevar ao máximo o seu intelecto possível.”


a noção de que o cérebro humano é uma máquina universal , começa assim a enraizar-se numa sociedade em transformação, onde pensar já não é privilégio divino, mas sim um direito humano:

"É que a ideia de que toda a inteligência humana é no fundo a mesma - ou uma variação desta ideia - é um dos tópicos mais controversos por estes anos no debate intelectual medieval, seja ele judeu, cristão ou muçulmano, e trata-se da vulgarização de uma ideia aristotélica antiga (...)."

"O intelecto passivo seria a nossa capacidade individual para receber estímulos vindos do exterior, que nos dariam as experiências do mundo sensível."

"O intelecto ativo seria o acesso que todos temos às possibilidades do raciocínio, da dedução, da argumentação, enfim, de tudo aquilo que nos permite extrair das experiências um entendimento mais profundo."

"O intelecto ativo seria o mesmo para todos os humanos, ou seja, aquilo que uma mente humana é capaz de pensar, outra mente humana é capaz de pensar também, porque as regras do pensamento são as mesmas para toda a gente."


ideias bastante polémicas que levarem tomas de aquino (1225-1274) — frade católico italiano, cujas obras tiveram enorme influência na teologia e na filosofia —, a rever a sua posição uma vez que:

”(…) se toda a gente pode pensar o mesmo, no fundo os muçulmanos e os cristãos, os judeus e toda essa gente não seriam intrinsecamente diferentes; e sim, era isso certamente o que Aristóteles pensava e era certamente isso também que pensava Al Farabi, a ponto de acreditar que era possível fazer uma comunidade política para gentes de religiões diferentes.”

“(…) isso quereria dizer que, depois de morrermos, as almas iriam todas ocupar o seu lugar no intelecto ativo da alma universal. Isso impossibilitava a ressurreição em corpo que a Igreja Católica desejava e que proclamava aos seus fiéis, de acordo com a qual cada indivíduo haveria de ressuscitar com o seu corpo e a sua alma originais. Era, portanto, importante, que as almas individuais se mantivessem individuais mesmo depois da morte.”

“E tudo isso aparece no livro mais importante que Dante escreveu no seu exílio - depois da Divina Comédia, é claro. Refiro-me ao tratado De Monarchia.”


não falta também referência tanto à peste negra (1346—1353) como à gripe espanhola (1918—1920) que, ao devastarem a europa, moldaram profundamente a visão do futuro — calamidades que, tal como as crises atuais, colocaram em causa estruturas sociais, religiosas e políticas. a peste negra acabou com um mundo de notável criatividade e riqueza entre os séculos XII e XIII. após esta catástrofe, esse mundo estava muito distante da mentalidade, das práticas, dos hábitos anteriores, principalmente em relação a 3 pilares: o comércio, o conhecimento e as cruzadas.

surpreendentemente, gostei de ler sobre algumas das cruzadas que, embora nem sempre bem-sucedidas (para os cristãos), tiveram consequências marcantes: a primeira (1096–1099), com o objetivo de reconquistar a terra santa das mãos dos muçulmanos, resultou na conquista de jerusalém; a segunda (1147 – 1150), organizada pelo papa e nobres europeus, para retomar a cidade de edessa na mesopotâmia que havia caído em 1144 para os turcos muçulmanos, foi um fracasso e conseguiu produzir tensões entre o império bizantino e o ocidente, contudo, também incluiu campanhas significativas na península ibérica contra os mouros muçulmanos, que teve como consequência inesperada a conquista de Lisboa, crucial para a nossa futura expansão marítima; por fim, a sexta (1228-1229) cruzada, chefiada por um frederico II já excomungado pelo papa, o imperador cristão que decidiu entrar numa negociação com o sultão al kamil, fazendo-lhe uma proposta bizarra:

“(…) já que estava excomungado, o papa não podia excomungá-lo outra vez: e se os cristãos e os muçulmanos partilhassem Jerusalém? (...) cada um seguiria a sua religião, e quem sabe os judeus poderiam regressar e construir o seu templo. Por incrível que pareça, o sultão aceitou a proposta.”


quando os dois líderes mostraram o tratado aos respetivos aliados, estes rejeitaram-no, incrédulos, e os cristãos decidiram avançar para uma nova batalha, que foi, mais uma vez, perdida. este volume acaba com rui tavares a fazer uma reflexão sobre o facto de séculos depois, a mesma ideia de partilha da cidade continuar a gerar conflito, sugerindo que a história poderia ter seguido outro rumo....

mais uma vez, recomendo a qualquer pessoa que tenha interesse em história, política, religião e filosofia, mesmo aqueles que, como eu, seguiram áreas científicas e podem achar que não têm as bases necessárias para apreciar esta leitura.

✧˖°˖ boas leituras ! ─────── ☾•
856 reviews
April 2, 2023
Mais um brilhante ensaio, ainda na Idade Média, esse país estrangeiro em que, afinal, nem tudo foram trevas. Desta vez Rui Tavares guia-nos pela discussão entre guelfos e gibelinos, fazendo paralelismos com o presente. Não, não somos melhores que os nossos antepassados, os guelfos e os gibelinos já se guerreavam, a polarização sempre existiu, o nome é que é novo. Finalmente, assistimos ao nascimento da Divina Comédia num mundo de intensas trocas entre cristãos, muçulmanos e judeus, e assistimos à forma como a Peste Negra, uma epidemia que o ser humano não causou, mas interferiu, mudou aquele mundo.
Profile Image for R.B..
Author 1 book6 followers
August 18, 2023
Correndo o risco de revelar algo que só vai ser revelado em memórias futuras, nesta memória sobre a polarização começa-se já a sentir que isto é algo que surgiu quando o autor devia estar a pensar noutra coisa qualquer. Digo-o porque nesta memória há muitas pontes entre o agora, agora e mais agora de Guelfos e Guibelinos e o nosso.

Gente que era tão extremada que, de acordo com o autor, cortavam até a fruta de forma diferente, e cujo extremismo levou a milhares de mortes, não é uma imagem que esteja tão longe dos dias de hoje. Que esse extremismo tenha origem em mundivisões distintas, não é algo longe dos dias de hoje. E se poderia partir de mim essa interpretação, o autor explana-a mencionando o ano de 2016, que ele baptiza como o ano 0 do renascimento de um certo autoritarismo populista. O autor não vai levar a memória até ao final da era em que se esperava o fim do mundo, porque uma pandemia oriunda do Oriente lhe fornece um momento mais do que ideal para parar de procrastinar, mas dá-nos na última conversa laivos do que é estar do lado de cá da Peste Negra, e de como a polarização é algo quase que inevitável na espécie humana.

Esta memória serve de momento inaugural de uma viagem ao pensamento de Rui Tavares. É aqui que se começa a entrever quem é o autor, apesar da muita obra que tem escrito ao longo dos anos. É nas ligações que faz dos sucessivos momentos de polarização, entre Guelfos e Gibelinos, entre Guelfos Brancos e Negros, entre Piagnoni e Palleschi, que começamos a assomar as preocupações que o assombram nas horas em que devia estar a fazer outras coisas. Se o intelecto activo de Aristóteles vai ser um espírito presente em todas as memórias, a tendência humana para a polarização faz aqui a sua estreia, mas será também ela uma constante. Seja ela entre Católicos e Protestantes, Absolutistas e Iluministas, anti-Dreyfusards e Dreyfusards, e estes e os Dreyfusiens que ainda estão para vir, todos foram antecessores das polarizações que vivemos hoje.

É desta percepção da tendência para a polarização que terá de surgir a consciência de que é necessário construir pontes e de lutar contra o afastamento. Mais do que voar sobre os Estados onde se pensa de forma diferente, é necessário por vezes apanhar um comboio e ir saindo e falando. Porque sabemos do passado onde nos leva a polarização.
Profile Image for Manuel Pinto.
150 reviews6 followers
June 27, 2023
"Ora, Dante considera que a organização política que convém à humanidade é a organização política que ultrapasse fronteiras, de forma a criar a paz perpétua de que os humanos precisam para elevar ao máximo o seu intelecto possível."
Profile Image for Francisca.
23 reviews2 followers
June 18, 2025
With a very fluent writing style, Rui Tavares once again takes the reader around the world - this time focusing on the 12th to 14th centuries - to reflect on human exchange of knowledge and friendship despite - or even, maybe, because of - differences. A short but compelling read!
Profile Image for Carolina Bento.
117 reviews7 followers
January 25, 2024
O livro mais interessante da coleção até agora. Espero dizer o mesmo de cada um dos restantes.
3 reviews
July 15, 2024
Este pequeno livro traz-nos uma perspectiva da Idade Média totalmente diferente do senso comum no que toca ao desenvolvimento económico, social e até do pensamento filosófico.
Displaying 1 - 9 of 9 reviews

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