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80 pages, Paperback
First published February 23, 2023
"O que acontecerá às nossas polémicas quando já ninguém se lembrar delas? Quando já ninguém entender o significado das palavras com que tanta energia gastamos, tanto fôlego perdemos?"
”As cidades guelfas são cidades orgulhosas da sua autonomia e da sua capacidade de criar economia, conhecimento e significados, cidades confortáveis com o papel que encontraram na globalização, cidades capazes de atrair fluxos de populações de todo o mundo, de condições muito diferenciadas(…).”
“Para o mundo gibelino, contudo, a tolerância guelfa assemelha-se a uma intolerância profunda: a arrogância dos bem-sucedidos que esqueceram os outros. O amor pela diferença assemelha-se a indiferença: uma atitude de negligência e descaso pelos territórios onde ainda estão os vizinhos, os familiares, os compatriotas, às vezes ali mesmo ao lado, (…). A desenvoltura com que o mundo guelfo se adapta à globalização só reforça o ressentimento com que o mundo gibelino vive o retrocesso (…).”
“A facilidade - e a felicidade - com que os guelfos se desligam desses valores (...) não pode deixar de ser interpretada pelos gibelinos como uma alienação.”
“Um pouco da mesma forma que se costuma notar que todas as cidades portuárias têm coisas em comum, por vezes mais do que com as cidades não portuárias dos seus próprios países.”
“Que importância tem isto? Tem toda. Como é evidente, acreditar (…) que obviamente o mundo vai acabar e vai acabar em breve, durante o nosso tempo, muda tudo nas nossas vidas. Não se fazem as mesmas escolhas, não se fazem os mesmos planos, não se projeta o futuro da mesma forma.”
“a organização política que convém à humanidade é uma organização política que ultrapasse fronteiras, de forma a criar a paz perpétua de que os humanos precisam para elevar ao máximo o seu intelecto possível.”
"É que a ideia de que toda a inteligência humana é no fundo a mesma - ou uma variação desta ideia - é um dos tópicos mais controversos por estes anos no debate intelectual medieval, seja ele judeu, cristão ou muçulmano, e trata-se da vulgarização de uma ideia aristotélica antiga (...)."
"O intelecto passivo seria a nossa capacidade individual para receber estímulos vindos do exterior, que nos dariam as experiências do mundo sensível."
"O intelecto ativo seria o acesso que todos temos às possibilidades do raciocínio, da dedução, da argumentação, enfim, de tudo aquilo que nos permite extrair das experiências um entendimento mais profundo."
"O intelecto ativo seria o mesmo para todos os humanos, ou seja, aquilo que uma mente humana é capaz de pensar, outra mente humana é capaz de pensar também, porque as regras do pensamento são as mesmas para toda a gente."
”(…) se toda a gente pode pensar o mesmo, no fundo os muçulmanos e os cristãos, os judeus e toda essa gente não seriam intrinsecamente diferentes; e sim, era isso certamente o que Aristóteles pensava e era certamente isso também que pensava Al Farabi, a ponto de acreditar que era possível fazer uma comunidade política para gentes de religiões diferentes.”
“(…) isso quereria dizer que, depois de morrermos, as almas iriam todas ocupar o seu lugar no intelecto ativo da alma universal. Isso impossibilitava a ressurreição em corpo que a Igreja Católica desejava e que proclamava aos seus fiéis, de acordo com a qual cada indivíduo haveria de ressuscitar com o seu corpo e a sua alma originais. Era, portanto, importante, que as almas individuais se mantivessem individuais mesmo depois da morte.”
“E tudo isso aparece no livro mais importante que Dante escreveu no seu exílio - depois da Divina Comédia, é claro. Refiro-me ao tratado De Monarchia.”
“(…) já que estava excomungado, o papa não podia excomungá-lo outra vez: e se os cristãos e os muçulmanos partilhassem Jerusalém? (...) cada um seguiria a sua religião, e quem sabe os judeus poderiam regressar e construir o seu templo. Por incrível que pareça, o sultão aceitou a proposta.”