O agora, agora e mais agora de vários passados sucessivos talvez ajude a iluminar melhor o presente (e o futuro?) do que saturarmo‑nos de tudo aquilo que nos acontece hoje. Esta coleção de livros, que foi também um podcast, recupera seis memórias do último milénio — uma história alternativa da modernidade, e dos conceitos que confluíram na noção de dignidade e direitos humanos, através dos agoras dos nossos antepassados.
De onde vinha o ódio de Léon Daudet? Não vinha de uma vida de privações e dificuldades. Não vinha de um ambiente cultural fechado e ignorante. Não vinha de falta de reconhecimento ou prestígio social. Figuras assim permitem questionarmos esta ideia singela, mas provavelmente equivocada, de que o ódio tem uma explicação externa. O ódio de Léon Daudet vinha de Léon Daudet. Não foram os acontecimentos históricos que lhe provocaram esse ódio; foi esse ódio que se colou, como um íman, aos acontecimentos históricos. Enquanto procuramos explicação para o ódio, esquecemo‑nos de que é ele que explica muita coisa: explica o caso Dreyfus, o nascimento do antissemitismo moderno, o nacionalismo revanchista pré‑Primeira Guerra Mundial e a pré‑história do fascismo europeu. Mas explica também o renascimento de um movimento de defesa dos direitos humanos entre aqueles que se opuseram ao ódio, como Bernard Lazare, Émile Zola ou Lucien Herr.
O ódio não explica esta memória quinta de Agora, Agora e mais Agora: Seis memórias do último milénio — mas é a sua palavra‑chave.
De todos os volumes que compõem a "saga", este para mim o mais interessante de ler. A peça central do caso Dreyfus, que conhecia apenas de ouvir falar, e a suas "consequências" para o nascimento do antissemitismo moderno. Sendo que este antissemitismo será a semente para o pensamento de ódio, nacionalista, populista e extremista que levará a Europa ao pior da sua história. Leitura muito interessante para pessoas que como eu, mais focados nos temas políticos e económicos, muitas vezes nos esquecemos também dos efeitos colaterais que as ideias/pensamentos têm na definição do rumo da história.
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Os livros estão melhorando a cada edição. Este novamente virou meu favorito, talvez pelo período da história, mas também pela maneira intrigante que Rui Tavares escreve. Melhor trecho: "Enquanto procuramos explicação para o ódio, esquecemo-nos que o ódio explica muita coisa"
A explicalção do caso Dreyfus e, principalmente a introdução (para mim) de Bernard Lazard foram os pontos altos desta memória, com Lazard "prevendo" o Holocausto e o genocídio do povo Palestino anos depois. Rui Tavares escreve muito bem, de maneira quase cômica ao mesmo tempo que desperta curiosidade.
Uma ressalva que me incomodou um pouco neste e nos outros volumes: a história contada neste e outros volumes são totalmente eurocêntricos, o que não tem nenhum problema. Porém o autor se proprõe a contar as "Seis memórias do último milênio" e não as "Seis memórias européias do último milênio". Reconhecer esse fato durante o livro seria interessante. De qualquer maneira, continuo a adorar a leitura.
Não é apenas o facto de a história estar constantemente a repetir-se; é que os sentimentos e emoções de ódio e rancor que causam a sua repetição teimam em não desaparecer e estão espalhados por todo o lado. Que nunca deixemos de lutar contra eles
De como o caso Dreyfus criou as bases para o anti-semitismo destruidor realizado pelo Holocausto, e, ao mesmo tempo, as bases para o sionismo e os actuais problemas israelo-palestinianos e do Estado fundamentalista religioso em construção israelita. As notícias falsas, a manipulação e a desonestidade, intelectual e não só, não são de hoje.