O agora, agora e mais agora de vários passados sucessivos talvez ajude a iluminar melhor o presente (e o futuro?) do que saturarmo‑nos de tudo aquilo que nos acontece hoje. Esta coleção de livros, que foi também um podcast, recupera seis memórias do último milénio — uma história alternativa da modernidade, e dos conceitos que confluíram na noção de dignidade e direitos humanos, através dos agoras dos nossos antepassados.
As mulheres e os homens que fizeram o mundo do pós‑guerra, que criaram as Nações Unidas e que escreveram a Declaração Universal dos Direitos Humanos eram sobreviventes de outra era. Nasceram no fim do século XIX, cresceram no tempo do Caso Dreyfus, conseguiram não morrer nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial e tiveram de se exilar durante o fascismo. Apesar de terem visto muito, tinham a capacidade de extrair significado das piores catástrofes morais da humanidade. Seguimos a trajetória de um professor de história italiano, Gaetano Salvemini, um exemplo em carne e osso dessa espécie de otimismo trágico, e acompanhamos os dias de George Orwell pouco depois de ter terminado de escrever 1984, ao mesmo tempo que em Paris é proclamada a «carta magna da humanidade». No fim, fica uma pergunta: e a nossa era? Entre alfarrábios e algoritmos, será uma era de direitos humanos ou de humanos tratados como números?
Este é o sexto volume de Agora, Agora e mais Agora: Seis memórias do último milénio — e o seu título é: a pergunta.
É possível reconhecer, numa base comum aos povos do mundo, cujas tradições filosóficas são diferentes e, por vezes, subalternizadas em relação à ocidental, uma noção de direitos humanos? Sim, responde Rui Tavares, contando neste volume, mais uma vez através de protagonistas quase anónimos e esquecidos, que nem sempre foram só homens brancos, como foi escrita a Declaração Universal dos Direitos do Homem e de como, pela primeira vez, se reconheceu a dignidade que todo e qualquer ser humano tem. Mas o ano da sua aprovação, 1948, foi também o ano da criação do Estado de Israel e do início de uma época de social-democracia na Europa, que, pela primeira vez, trouxe alguma igualdade e desenvolvimento. Prova-se que não há determinismos, mas que nunca se pode parar, pois os totalitarismos, agora digitais, estão sempre à espreita.
«E o nosso futuro é um futuro onde só teremos agência se tivermos memória». P.77
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Termino mais um livro da série achando que foi o melhor de todos. Gosto muito do jeito leve que Rui Costa vai narrando a história e engajando com o leitor. Às vezes acho que se perde trazendo muitos nomes que não são necessariamente relevantes, mas como disse o autor na memória passada, as memórias são uma coleção das histórias que ele queria escrever. Nesta memória, ele amarra muito bem (e até melhor do que na primeira memória) a importância de Al Farabi na junção da filosofia grega com a filosofia do zoroastrismo e filosofia árabe para a filosofia ocidental moderna, chegando até aos direitos humanos do século XX.
Não posso deixar de comentar a ironia que é ler exatamente hoje em que Bolsonaro está sendo julgado pela suprema corte, a comparação que sua família e advogados fizeram com o caso Dreyfus. Adoraria saber o que Rui Costa escreveria sobre isso. Como se Bolsonaro sofresse de alguma sorte de preconceito e como se as provas contra ele não fossem vastas.
" A 'pergunta' que é o tema desta memória - a que devemos responder não adivinhando, mas fazendo. Em 'Uma resposta à velha pergunta sobre se há progresso moral da humanidade', Kant diz algo como - ' em última análise, a resposta a esta pergunta não é uma resposta para dar adivinhando, mas para dar fazendo.' Ou seja, esforçando-nos nós mesmos por implementar o progresso moral da humanidade"