Edição portuguesa: "Recomeçar", Orfeu Negro
4,5*
desenhámos linhas imaginárias
para sabermos quem somos e quem não somos,
a que sítio pertencemos e a que sítio não pertencemos.
Sem moralismos, neste “Recomeçar”, Oliver Jeffers, um autor criado na Irlanda do Norte, deixa uma mensagem válida e empática, face a um mundo “mais sombrio e mais zangado do que nunca”, usando aquilo a que chama a perspectiva do astronauta: vendo o mundo de forma global e à distância.
Tal como este artista visual, também acredito no poder da arte e ainda mais no poder das histórias, não só as que lemos, mas sobretudo aquelas em que nos incluímos e aquelas que contamos a nós mesmos na nossa cabeça, sejam elas autênticas ou alindadas pelas nossas intenções, e que ansiamos por contar aos outros.
Se pensarem nisso,
gostamos mais de oferecer o presente certo
do que recebê-lo.
E a primeira coisa que fazemos,
depois de nos rirmos de uma boa piada
ou de ouvirmos uma boa história, é pensar…
a quem
é que a vamos contar?
As ilustrações, em fortes tons de azul, rosa e roxo, acompanham a leitura na perfeição, mas a nota final do autor transmite toda a sua experiência de vida e a vontade de aproveitá-la de forma positiva, para que o paradigma deixe de ser o “nós” contra “eles” e, em última instância, “eu” contra os “outros”.
Hoje, em vez de perguntar às pessoas o que é que elas querem, a pergunta que lhes faço é “Como é que te queres sentir?” Uma vez que nos sintamos seguros, todos queremos sentir que estamos integrados, que pertencemos a algo. Queremos ter importância. E há um número crescente de pessoas em desespero por sentirem que não a têm. Que, ao invés, foram esquecidas, que não contam, que não têm lugar na história coletiva da sociedade moderna.