Cobrindo um alargado espectro temporal (de 1901 a 1932), as brevíssimas composições (pequenas descrições, microcontos, breves apontamentos) que integram a presente antologia pintam delicadas cenas que, segundo a arguta descrição de W.G. Sebald, não duram mais do que um piscar de olhos. Os textos de Walser encenam uma discreta elegância, quase como se estivessem a pedir licença para existir. Neles se celebra a despojada humildade das pequenas coisas, dos mais ínfimos elementos que, votados – e eles próprios se votando – à sóbria desaparição, insistem em oferecer uma silenciosa e cintilante resistência à estridente voracidade do tempo: a cinza, a agulha, o lápis, o fósforo, a luva, o chapéu, o candeeiro, o relógio, o papel.
Robert Walser, a German-Swiss prose writer and novelist, enjoyed high repute among a select group of authors and critics in Berlin early in his career, only to become nearly forgotten by the time he committed himself to the Waldau mental clinic in Bern in January 1929. Since his death in 1956, however, Walser has been recognized as German Switzerland’s leading author of the first half of the twentieth century, perhaps Switzerland’s single significant modernist. In his homeland he has served as an emboldening exemplar and a national classic during the unparalleled expansion of German-Swiss literature of the last two generations.
Walser’s writing is characterized by its linguistic sophistication and animation. His work exhibits several sets of tensions or contrasts: between a classic modernist devotion to art and a ceaseless questioning of the moral legitimacy and practical utility of art; between a spirited exuberance in style and texture and recurrent reflective melancholy; between the disparate claims of nature and culture; and between democratic respect for divergence in individuals and elitist reaction to the values of the mass culture and standardization of the industrial age.
Queridas e delicadas flores, como sois tranquilas. Não vos moveis, não tendes olhos nem orelhas e tão pouco podereis dar um passeio, algo que, porém, é tão agradável. Às vezes parece mesmo que poderíeis falar, mas decerto que tendes sensibilidade e um sentimento próprio. Tantas vezes me deu a impressão de que pudésseis estar a meditar e a ter toda a espécie de pensamentos. Decerto me equivoco, mas penso em vós e de bom grado viveria convosco, com todo o prazer seria como uma de vós, deixando-me acariciar pela luz do sol, balançando-me, num embalo, ao vento."
Belo, simples, mas essencial para parar o tempo. Beautiful, simple, yet essential to stop time
"Só o conforto valia alguma coisa, pois só ele se assemelhava à eternidade" (Only comfort held any worth, for only it resembled eternity.)
"Um tal relógio é incansável na sua acção, e a sua cabeça não está onde uma cabeça não deve estar." (Such a clock is tireless in its motion, and its head is not where a head ought not to be.)
"Alguma vez bateu na água com a palma da mão?" (Have you ever struck the water with the palm of your hand?)
"És feliz porque a modéstia se satisfaz a si mesma e a lealdade se sente bem consigo [...] és aquilo a que se poderia chamar uma rosa esplendidamente perfumada [...] cuja fragrância emana sem a menor intencionalidade." (You are happy because modesty fulfills itself and loyalty feels content within [...] you are what one might call a splendidly fragrant rose [...] whose scent emanates without the slightest intention.)
Esteve muito tempo sozinho de pé, costas encostadas, virado para a frente no topo do móvel junto à janela. Quando um livreiro, carregado de livros, perguntava: "Não quer ceder o lugar?"; ele respondia: "Preferia não o fazer por agora."
Walser consegue encontrar beleza nas coisas mais simples, lembra-se dos detalhes mais improváveis, dá sentido às coisas do dia-a-dia que costumamos ignorar.
“Desejo, pois, ser ignorado. Se, ainda assim, alguém quiser prestar-me atenção, pela minha parte não prestarei atenção àqueles que prestam atenção. A escrita dos meus livros anteriores não foi forçada. Creio que escrever muito não garante uma escrita de qualidade.”
É nas coisas simples que se encontra a beleza da vida no seu quotidano. Um livro de pequenos contos e textos, com linguagem delicada e cativante. Foi delicioso.
Walser é de facto um atento observador, valorizando tudo o que o rodeia com candura, por vezes ironia, mas sempre em permanente diálogo solitário com a natureza e os objectos com que se depara e que sempre o surpreendem; como a “arvorezinha”(…que não precisa de felicidade… apenas está ali para o meu bel-prazer…) ou as flores (…com todo o prazer seria como uma de vós, deixando-me acariciar pela luz do sol, balançando-me, num embalo, ao vento…).
Ao ler os textos recordei-me do quadro de René Magritte “Les valeurs personnelles” (1952) no qual Magritte retrata objectos de uso quotidiano (pincel, pente, fósforo, cálice e sabonete) exagerando a dimensão de cada um em relação ao contexto, um quarto com uma cama, um tapete e um armário, forçando (talvez) a nossa atenção para objectos que sendo de uso diário se tornam indiferentes ao nosso olhar. Exactamente como Walser, que nos lembra a utilidade de um modesto botão (não carecendo de elogios e de reconhecimento a que aspiram todos aqueles que realizam algo), a elegância de um par de luvas (que não mudam o estado de infelicidade da bonita mulher que as calça), de um fósforo (que morre realizando o seu serviço de amor), de um seixo (e a sua imobilidade), de um prego e um guarda-chuva (que embora já fracos se amparam).
O Walser irónico, que também era poeta, é bem presente na“carta de um poeta a um senhor”(na qual o poeta declara, declinado o convite, recear o supérfluo trabalho interior que teria de ser feito para se defender da sua influência) ou no texto“sobre um poeta”(que procurando descobrir que coisa é essa que paira sobre ou à volta dos seus poemas. Pressiona, mas não surge nada; empurra,mas não sai nada; puxa, mas tudo fica igual,ou seja, obscuro.).
Walser escreve sobre detalhes da vida de uma perspectiva original, nunca banal ou previsível.