Ernesto Sabato, um dos mais importantes e influentes autores argentinos, apresenta-nos, neste ensaio que é "Resistir, o testemunho de uma época (a nossa) caracterizada pela perda dos valores humanos mais fundamentais , numa sociedade cada vez mais massificada, individualizada, ostracizada dos seus avatares sociais e culturais, muito por força do surgimento da televisão e das novas tecnologias de informação e comunicação.
Poderia parecer, à partida, uma mera abordagem de um tema prosaico, trivial, que discorre sobre algo que já sabemos, se não tivesse sido escrito com uma pujança emocional enorme e urgente (este é penúltimo livro da bibliografia de Sabato, editado em 2008) que nos toca quase até à comoção. Dividido em cinco cartas e num epílogo, Sabato nesta belíssima obra, oblitera aquilo que se valoriza hoje em dia na sociedade capitalista, na globalização, enquanto propõe abraçarmos aqueles valores humanos, hoje perdidos, como a solidariedade, os valores espirituais, o espírito gregário que desapareceu para ser substituído pelo isolamento social (é necessário sair do "cativeiro da solidão") argumentando que não podemos de todo "aceitar passivamente uma constante intrusão sensorial, o que acaba por ser uma servidão mental, uma verdadeira escravidão".
Reiterando a ideia da incapacidade funcional do homem só, isolado, Sabato escreve: "Quando somos sensíveis, quando os nossos poros não estão cobertos pelas capas implacáveis, a proximidade da presença humana sacode-nos, dá-nos alento, compreendemos que é sempre o outro que nos salva. E se chegamos à idade que temos, é porque outros nos foram salvando a vida incessantemente". É assim, na beleza da prosa, que Sabato e este "Resistir" nos vão conquistando!
Ernesto Sabato defende que a pertença do homem ao simples e ao próximo vai ganhando proporções maiores na velhice. E a propósito disso, escreve um dos trechos mais poéticos, mais belos, na minha opinião, de todo o livro: "Acontece que vemos muitos velhos que quase não falam e que parecem olhar à distância todo o tempo, quando na realidade olham para dentro, para o mais profundo da sua memória. Porque o que resiste ao tempo e aos seus poderes de destruição é a memória, algo como a forma que a eternidade pode assumir nesse trânsito incessante. Ainda que nós (com a nossa consciência, os nossos sentimentos, a nossa dura experiência) tenhamos mudado ao longo dos anos; e que a nossa pele e as nossas rugas se vão convertendo em prova e testemunha desse trânsito, há algo no ser humano, lá muito dentro, em regiões muito obscuras, aferrados com unhas e dentes à infância e ao passado, à origem da terra, à tradição e aos sonhos, que parece resistir a esse trágico processo resguardando a eternidade da alma na pequenez de uma súplica". Confesso que me comovi ...
Mas como resistir à sociedade da idiotização, da idolatria da técnica e da exploração do homem? Claro que não há receitas ou panaceias, nem Sabato se propõe resolver mas dá-nos algumas pistas: "Temos de exigir que os governos ponham todas as suas energias para que o poder adquira a forma de solidariedade, que promova e estimule os atos livres, pondo-se ao serviço do bem comum, que não é a soma de egoísmos individuais mas sim o bem supremo de uma comunidade". Tenho uma enorme vontade em dar de presente este livro aos nossos atuais (ou vindouros) governantes!
Será o que Sabato crê não passa de uma mera utopia de quem viveu muito, viu muito, sofreu muito, abdicou de muito e que construiu o seu lema de vida sobre um conceito de resistência? Como se consegue parar um "comboio que nos impele para a loucura e para a desgraça"? A sua resposta é muito simples: "Não tenho uma resposta para vos dar". Mas acrescenta: "A primeira tragédia que deve ser urgentemente reparada é a desvalorização de si próprio que o homem sente e que constitui o passo prévio à submissão e massificação".
Não há dúvida de que as reflexões contidas neste "Resistir" têm o seu quê de pessimismo mas também contém uma mensagem de fé e esperança no ser humano e que Sabato quis deixar em testamento. Defende que nunca nos devemos resignar pois "resignar-se é uma cobardia, é o sentimento que justifica o abandono daquilo que vale a pena lutar, é, de algum modo, uma indignidade".
Sabato perora sobre todos esses temas mas tem a sua morte como intuição. Deve ser por isso que conclui as suas reflexões desta forma, profundamente comovente: "Esqueci grandes trechos da vida, em contrapartida, ainda palpitam na minha mão os encontros, os momentos de perigo e o nome dos que me resgataram das depressões e amarguras. E também o vosso, daqueles que acreditam em mim, que leram os meus livros e que me ajudarão a morrer".
Ernesto Sabato (1911-2011).