Metanoia foi definitivamente a leitura mais cansativa e arrastada que já li em toda minha vida. A Cora, a autora do livro, reconhece os problemas nele, mas eu ainda não tive a chance de conversar com ela sobre todos esses pontos, e eu acho que sequer escreveria essa resenha se o livro não tivesse me deixado tão desconfortável. Honestamente, tive vontade de jogar meu Kindle pela janela de um ônibus e me jogar logo em seguida por vários momentos, porém, me segurei com força na esperança de postar essa resenha e poder me expressar de uma vez sobre como essa leitura foi imensuravelmente incomoda para mim.
Representação LGBT
Absolutamente todos os personagens do livro são LGBTs, por isso, acreditei que eu não precisaria me preocupar com nada nessa questão, porém, foi um dos pontos que mais me incomodou. A sexualidade do Daniel é, de longe, a mais explorada, principalmente em relação a da Mariana, que falou que é bissexual nas primeiras páginas e depois isso só foi mencionado novamente no fim do livro, porém apesar de ser a mais explorada também foi a pior e fez com que eu preferisse que não tivesse sido abordado em momento algum. Todas as cenas que a sexualidade do Daniel é reforçada nos livros é através de LGBTfobia, seja pelas meninas do time, em uma festa que ele apanha, que por acaso, a Mariana faz uma piada sobre deixar o outro olho roxo, novamente em uma festa, em uma conversa sobre as pessoas que ele já namorou e em outra conversa com a Mariana. O fato deles dois serem LGBTs poderia ser um motivo facilitador na construção da relação deles, eu esperei um momento que não veio, uma tentativa disso foi quando o Daniel falou sobre a LGBTfobia que sofreu na época que se assumiu e faz o preconceito parecer a base de ser LGBT. Além disso, o Daniel, apesar de panssexual, entra muito em estereotipos atrelados à bissexualidade.
Representação negra
Em qualquer outro livro, isso seria meu maior problema, porém, nesse especificamente tem algo pior, então, acaba sendo apenas o segundo maior defeito. A Mariana é a única personagem negra no livro inteiro, é a única personagem negra em um livro que se passa no Brasil e em um livro sobre futebol é majoritariamente composto de jogadores negros. Além dela não ter nenhum amigo negro, não existe explicação nenhuma para que o pai dela seja branco, não a mãe que morreu, e a mãe morta que até então seria, obrigatoriamente, a única pessoa negra na vida dela, não é sequer lembrada. Como a única personagem negra, a Mariana é péssima, ela é mal educada, grossa, agressiva e violenta, o que me fez pensar até o estereótipo de preta raivosa entraria nisso? Até porque não existe explicação para o comportamento da Mariana, constantemente ela fala sobre bater, agredir ou socar alguém, sem que nada sequer tenha-acontecido. Se ignorarmos o quão estereotipada a personagem parece, não existe nada que a associe a uma mulher negra, o livro abordou LGBTfobia com o Daniel de uma forma escrota e desnecessária diversas vezes, porém, em vários momentos foram necessários abordar a negritude da Mariana e foi completamente frustrante. Percebi também que em alguns trechos perdidos, o Daniel menciona ela ter cabelo liso, provavelmente não passaram na correção, mas enfim, o que me faz pensar que ela era uma personagem branca que foi transformada em negra no final.
Representação PCD
O Daniel é uma pessoa com deficiência, ele sofreu um acidente que limitou suas funções. Isso é uma deficiência e uma das coisas que mais me incomoda no livro, que apesar de deixar esse fato claro, parece não reconhecer. A Mariana constantemente faz piadas sobre isso, sobre ele ter ficado inútil depois do acidente e muitas vezes parece não ter, assim, consideração pela situação em que ele está, principalmente quando ela está constantemente falando sobre agredir ele ou sobre como ele é um fardo, sendo que a Mariana nunca tentou ajudar ele com literalmente nada. Além disso, tem uma cena que o Assis literalmente bate nele, assim como se não fosse nada e mostra novamente que o reconhecimento da condição dele não existe, mesmo com tudo que ele passou e das humilhações que ele recebe da Mariana que são bem capacitistas.
A escrita
A escrita foi frustrante porque parece um livro traduzido com centenas de variações para a palavra “foda”. O livro é formado por repetição, a palavra “morena” foi repetida mais vezes do que eu posso contar junto com outros absurdos como acastanhado e platinado. Outras repetições são piadas com torta, vegetarianismo etc. É reforçado diversas vezes que o Daniel é/foi o melhor do mundo, não é citado campeonatos, prêmios ou qualquer jogo que ele tenha participado, é só repetido diversas vezes que ele era o melhor do mundo, e isso, especificamente, mostra muito um dos maiores problemas da escrita que é trabalhar com fatos e não com construção de personagem, porque ela fala, mas nunca chega a mostrar qualquer coisa, o que é absurdo que em um livro de 600 páginas que não acontece praticamente nada você tenha a sensação de que tem coisa faltando, mas foi o que eu senti. O começo do fake dating não teve explicação, o pai da Mariana simplesmente concordou e depois o amigo dela também, mas em momento algum, argumentaram sobre o porquê aquilo seria bom para ela, porque se tivessem pensado, perceberiam que não seria porque ela ficaria conhecida apenas como namorada do Daniel, o que foi que aconteceu. Entre isso, tem diversas outras coisas que são jogadas, a doença do pai da Mariana, a relação do Daniel com a mãe, o fato de ter morrido pessoas no acidente dele, mas isso não ter sido mencionado. Como a mídia aparece e desaparece quando é conveniente, assim, diversas coisas.
E outra coisa que pode ser ruim para quem entende o mínimo de futebol, não faz o menor sentido da Mariana ser uma goleira com 1.50, isso é absurdo e eu tentava ignorar para o livro não ficar tão ruim, mas ela parecia querer reforçar o tempo inteiro. A Mariana sendo cotada para a SELEÇÃO DE PORTUGAL sendo que para ser de uma seleção você necessariamente precisa ser nacionalizada ou ter o mínimo de conexão com o país, além disso, o Daniel estava falando sobre conseguir uma seleção para ela, como se ele tivesse o poder de algo assim e ela recebe ofertas de SELEÇÕES, não de times. A Mariana menciona diversas vezes que ela é de um time pequeno, que nunca sequer foi televisionado, como uma seleção teria acesso a ela?? Como ela seria considerada boa se ela nunca jogou contra qualquer time grande E TINHA UM METRO E MEIO. Além dos treinos serem só correr para lá e para cá e diversos outros detalhes que mostram que não houve uma pesquisa mínima.
Personagens
O pior defeito da escrita. Todos os personagens são ruins, absolutamente nenhum se salva. Os personagens só existem para reafirmar o comportamento da Mariana e apoiar ela em qualquer absurdo que ela faça, enquanto demonizam o Daniel. A Mariana trata o garoto como um lixo e recebe todo o apoio do melhor amigo dele, que ainda incentiva, com piadas sobre bater e agredir. A Mariana fala absurdos sobre o Daniel e nunca é corrigida, entre esses absurdos dizer que ele é um inútil pela situação atual, ameaçar bater nele, culpar ele pelo vício em bebidas, onde ela até manda ele misturar bebidas com os remédios, o que foi uma clara alusão a suicídio, e com todas essas coisas, ela nunca foi corrigida, pelo contrário, foi apoiada e o erro sempre era tido como dele. A autora tinha um personagem favorito e queria escrever como se a Mariana estivesse sempre certa, sendo que ela não conseguia convencer o leitor disso, de tão absurdo que era. O Daniel é um personagem sem personalidade nenhuma e que só faz que você sinta pena por ele, pela situação e por conviver com uma menina tão insuportável. E todos os outros personagens só existem para amaciar o ego da Mariana ou para servir de ponte para um suposto desenvolvimento do casal, que nunca acontece, seja falando ou fazendo piadas sobre como eles se importam um com ou outro.
Houveram outras coisas que eu não gostei, mas daria um livro maior do que o que foi feito. Metanoia foi uma decepção.