Intimidando pela verve de aríete e pela beleza, Natália Correia simbolizou, como poucos, as inquietações do século XX português. Precoce e radical no pensamento feminino, vítima de efabulações e de mitos, incompreendida e amada, lançou um olhar oracular sobre o seu tempo. Em tertúlias, que eram verdadeiras olimpíadas da confraternização lisboeta, o seu traço aglutinador envolvia, juntamente com o fumo dos cigarros, intelectuais e admiradores, que se irmanavam com párias e malditos em ideias e poemas de vanguarda.
Mulher deslumbrante e carismática, equiparada às maiores pensadoras europeias e às estrelas de Hollywood, atacou o Regime onde mais lhe doía - na moral caduca -, elegeu o erotismo como arma política e tornou-se a autora mais censurada da ditadura. Já no bar que fundou em Lisboa, fez e desfez governos à batuta da sua boquilha.
Nesta biografia, da autoria de uma das vozes mais seguras da nova literatura portuguesa, convivem a libertária e a conservadora, avessa a expor a sua atribulada vida íntima, a mulher que desprezava a política partidária e que nela viveu, inclusive como deputada; o espírito frágil e o temperamento intempestivo; o polémico exercício de funções diretivas em órgãos de imprensa e a defesa intransigente das causas maiores; e, em todas as páginas, as contradições e coerências de uma pensadora capaz de criar para si própria uma narrativa que não a torturasse pelas escolhas que fez.
Filipa Martins nasceu em Lisboa, em 1983. É jornalista desde 2004, tendo colaborado em publicações como o Diário de Notícias, Notícias Magazine, Evasões e Jornal i.
Recebeu o Prémio Revelação em 2004, na categoria de ficção, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores (APE), com Elogio do Passeio Público, o seu primeiro romance publicado em 2008. Recebeu ainda o prémio Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias, com o conto Esteira. O seu segundo romance, Quanta Terra, foi publicado em 2009. Publicou, em 2014, o último romance pela Quetzal intitulado Mustang Branco.
(PT) A vida atribulada de Natália Correia, escritora, poetisa, dona de bar e deputada, percorrida em 69 anos bem preenchidos, quer em ditadura, quer em democracia, tornando-se numa das pessoas mais carismáticas do seu tempo e coletora de causas sem hesitação.
Desde que conheço a figura de Natália Correia que a acho completamente magnetizante e, ao ler este livro, percebi que o efeito atingiu muitos. O carinho que partilhava pela poetisa foi oscilando à medida que lia este livro, cruzando-me com muitas opiniões (sobretudo políticas) que me deixavam desconcertada, mas que no final me fizeram compreender melhor quem era de facto Natália Correia. Uma personalidade muito dependente de outros e com um enorme medo da solidão, que tinha formas muito peculiares de amar e de demonstrar esse amor. Muito efervescente, bondosa e com um sentido de humor extremamente apurado é com tristeza que percebo que fica sobretudo conhecida pela sua participação parlamentar e televisiva, não sendo dada a devida atenção às suas obras. “É preciso sonhar em voz alta, amar em voz alta, odiar em voz alta, mijar em voz alta, fornicar em voz alta, ultrajar os bons costumes”. Até um dia, Mátria ❤️
Que sei eu de Natália Correia? Muito pouco, constatei à medida que a leitura avançava, a começar pela sua figura, feita daquele “tipo de beleza que atrai desgraças”. Conhecia-a enquanto escritora, dramaturga, poeta e ensaísta, mas não fazia ideia que a maior parte da sua obra, no período anterior ao 25 de Abril, sofrera tão duramente o peso da censura. Adivinhava-lhe as convicções políticas inabaláveis, mas estava longe de a ver empenhada em lutas duríssimas das quais não tinha como sair vencedora. Lembrava-me da sua língua afiada na tribuna da Assembleia da República, mas não a sabia “imatura no desamparo perante as coisas práticas da vida”. Por cima da voz de José Mário Branco, cantava a sua “Queixa das Almas Jovens Censuradas”, mas ignorava que ela própria, Natália, dera corpo a muitas outras “queixas” de muitas outras “almas”.
Estas e outras surpresas – muitas outras, devo dizer -, transformam a leitura de “O Dever de Deslumbrar” numa fascinante viagem ao encontro daquilo que Natália Correia soube (e quis) ser ao longo de quase sete décadas de vida. Uma vida intensamente vivida, que a levou a amar e a ser amada, na exacta medida em que foi odiada e odiou. Atenta, metódica, exímia na forma como soube tirar partido da sua enorme inteligência e perspicácia, “abominou a mediocridade, venerou a beleza, pugnou pela diferença e sacralizou a liberdade.” Em momentos da mais feroz repressão “deu o corpo às balas”, defendendo sempre que a intervenção política era uma “obrigação dos poetas”. Questionou, lutou, obstinou-se, porfiou, insultou, amuou. Insistiu, resistiu. Foi uma mulher de causas e fez da Cultura, da Mulher e dos Direitos Humanos, lutas maiores. Ganhou amigos para a vida, incompatibilizou-se irremediavelmente com outros, mas nunca se deixou surpreender por nada nem por ninguém. Ficamos com a recordação de uma mulher contundente, visceral, provocadora, mas de uma humanidade sem limites. E ficamos, também, com uma obra à sua imagem: Forte, generosa, talentosa e imensamente livre.
É neste inesgotável manancial de águas, entre o turvo e o cristalino, que Filipa Martins vai beber um conjunto de acontecimentos absolutamente extraordinários, cruzando-os com os lugares e os tempos do século XX português. É notável a forma como a biografia está construída, oferecendo múltiplas pistas para a compreensão da pessoa biografada. Apaixonada e apaixonante, a narrativa reflecte o apego da autora à sua biografada, a sua profunda admiração. São muitas as pontas deixadas propositadamente à solta, elementos criadores de tensão que tornam a leitura empolgante. Dou como exemplo o período entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro, narrado com um ritmo e uma intensidade alucinantes, a ponto de deixar o leitor sem fôlego. A elegância do fraseado, a ponta de ironia, o humor requintado, o aparte certeiro, a cadência certa no sequenciar da narrativa, colam Filipa Martins a Natália Correia no que tem de inteligência, combatividade e energia. Uma contaminação que gosto de ver no próprio título de um livro que me deixou deslumbrado. Uma e outra cumpriram bem o seu dever.
Natália, fico triste por não seres lembrada como outros do teu tempo. Nunca te deste aos outros e sempre foste pelas tuas convicções. Quero ser assim. Que a tua solidão não te tenha deixado de querer mudar o mundo fascina-me. Fascinas-me. Pareces uma figura para além do real. E talvez o sejas, sempre demasiado à frente do teu tempo. Obrigada por nunca te vergares. Que mulher complexa, que mulher cheia de ida. Enfim, que a poesia seja sempre para comer.
Nesta biografia de quase setecentas páginas, Filipa Martins viveu, durante seis anos, mergulhada no universo da sua biografada. O trabalho final revela um conhecimento e rigor notáveis. Pelas palavras de Filipa Martins vamo-nos deslumbrando com a vida de Natália Correia que foi uma mulher de excepção, quer pela sua beleza quer pela sua forma de ser e de estar; uma mulher que marcou o século XX – a sua história confunde-se com a História de Portugal, nomeadamente, nos períodos do Estado Novo e do PREC; uma mulher da Europa, pensadora e defensora das mulheres e de causas, sejam elas quais forem; apoiante de todos os que se manifestaram contra o regime; uma mulher da intelligentsia portuguesa, que promoveu em sua casa e no Botequim tertúlias, debates, discussões políticas sobre variadíssimos assuntos: luta contra a censura, apoio e defesa de presos políticos, (muitos eram seus amigos), ideologias, apoio a futuros candidatos, … Ao longo do texto, deparamo-nos com a dualidade de carácter da biografada. Natália Correia revela-se frágil, intempestiva, acutilante, decisiva, apartidária, libertária. Revela-se ainda uma mulher de múltiplas funções: escritora, radialista, cançonetista, jornalista, pensadora, ”supostamente” espia e comunista, deputada, conselheira, oradora. Em tudo manifestou paixão e loucura. Ficou muitíssimo bem expresso na obra e de forma notável, a importância desta mulher forte de convicções, o seu papel genial e único na literatura, nas artes em geral, na política, na religião e na sociedade. Natália, apesar de ter as suas obras constantemente censuradas, de ser vigiada pela PIDE, conseguiu levar uma vida confortável e de luxo, contrariando as normas instituídas e a moral e os valores vigentes. Mesmo no período pós 25 de Abril, Natália Correia mantém os seus ideais, por vezes contraditórios. As suas convicções isolam-na em muitas das decisões que toma, ao ponto de estar, como deputada, no lado oposto do seu partido. Amiúde foi criticada e mesmo ridicularizada. Sempre se posicionou activa, emotiva e corajosamente na vida. As decisões que tomou sempre foram pautadas por ideais de igualdade e liberdade. Foi sempre uma mulher muito avançada para o seu tempo, que nunca se resignou perante a adversidade e o conservadorismo. Filipa Martins revela-se uma excelente biógrafa, pois de forma insigne consegue expor numa escrita viva, cativante e imparcial toda a dimensão da mulher avassaladora “que é maior do que o país” e, simultaneamente, os acontecimentos marcantes da época. Filipa Martins transporta-nos para o mundo individual e colectivo da sua biografada, para o mundo literário nacional e internacional da época, para a política vigente. Convida-nos, assim, a mergulhar na vasta e diversificada obra de Natália Correia. Obra desconcertante, controversa e apaixonada que merece ser lida e que terá “o dever de deslumbrar” qualquer leitor que aprecie fortes emoções literárias. Pelo que foi apresentado nesta biografia, o leitor não saíra defraudado.
A Natália Correia é das mulheres mais fascinantes da história portuguesa. Foi um gosto conhecer mais sobre a sua vida, mesmo sobre as posições, opiniões e situações com as quais discordo. Mas nem sempre foi um prazer ler este livro. Para escrever sobre Natália Correia, não é preciso escrever como Natália Correia. "O Dever de Deslumbrar" não está escrito de acordo com o tempo em que foi publicado nem parece pensado para os leitores do século XXI. É extremamente palavroso, o que torna a leitura cansativa em várias momentos. Nesse sentido, fez-me lembrar "As Revolucionárias", de Maria João Lopo de Carvalho, que me deu exatamente a mesma sensação. É uma pena que se escrevam livros numa linguagem tão complicada -sendo que o Português já é, por si só, uma língua complicada -, porque não tenho dúvida de que afasta muitos leitores. Se, ainda assim, recomendo? Claro que sim. Vale sempre a pena escrever e ler livros sobre grandes mulheres e Natália foi uma das maiores.
Cinco estrelas por tudo: pela Filipa Martins, pela sua capacidade de pesquisa e poder de escrita e condensação de informação de uma vida tão intensa quanto a da biografada; pelo fascínio que, ainda hoje (e mais do que nunca), exerce uma personalidade tão díspar em si própria (da sua fragilidade e necessidade de ser amada à sua postura-furacão) e tão intensamente rica e atual como a desta muito nossa Natália Correia; porque ler esta biografia, é conhecer a história de um Portugal (continental e insular) no século XX, nomeadamente no período pré e pós-25 de Abril. Um livro longo, fascinante do início ao fim.
Uma biografia de uma das personalidades mais fortes de Portugal! A forma como está escrito faz com que um livro denso passe a “voar”. Os primeiros anos de Natália foram-me penosos de ler, tenho de admitir, mas assim que a “ação” começou a aparecer devorei montes de capítulos. Quem conhece e quem não conhece Natália Correia tem de adorar esta obra pois mostra a grande poeta e feminista que ela era. MM P.s.: Fica a dica de verem a série “3 Mulheres” não desilude 😜
30 anos depois da sua morte, no centenário do seu nascimento, Filipa Martins traz-nos uma nova biografia daquela que seria a autora mais censurada durante o regime do Estado Novo, mas também no pós-25 de abril com as suas polémicas considerações sobre o PREC.
Esta é uma biografia imperdível de uma mulher visionária, de um génio sem pudores, de uma poética sem fonteiras que Filipa Martins nos traz com grande louvor e talento.
Descobri recentemente a figura de Natália Correia. Primeiro li O Botequim da Liberdade, que aparece citado neste, e agora li esta biografia completa. Não efabula a figura de Natália Correia. Expõe os seus defeitos e as suas enormes qualidades, o que não dá uma perspectiva única de uma figura mítica da cultura portuguesa.
Um trabalho biográfico consistente e com inúmeras referências que servem de "espinha dorsal" para as diferentes épocas retratadas. Para além dos aspectos biográficos de Natália Correia e as obras de relevo, o livro dá-nos uma boa contextualização dos acontecimentos históricos, políticos e sociais que marcam Portugal e o mundo e que, naturalmente, influenciam a escrita da poetisa.
Mais de 600 páginas para descodificar o percurso de vida de uma figura tão paradoxal quanto complexa. Uma estruturação por décadas que facilita a compreensão de diferentes opções, decisões e ressentimentos. Uma leitura que se impõe para conhecer mais do que a deputada que, com poesia, lutava por causas no nosso hemiciclo.
O livro deslumbra pela biografia apresentada sobre tão carismática escritora, Natália Correia. Livro para se ir lendo, de leitura inesperada, mas muito sumarenta. O que seria de esperar quando se escreve sobre uma mulher que, desde sempre, impressionou pela ousadia demonstrada. Livro maravilhoso!
Livro terminado Pensei em desistir, não o fiz porque, meio que tinha assumido o compromisso para mim mesma de o ler. E ainda bem, não é uma leitura leve, fácil... mas valeu mesmo a pena. Grande mulher a Natália... viveu muito à frente do seu tempo