Até onde a psicanálise pode ir na nossa vida e na cultura, para além das quatro paredes de um consultório? Em Entre sessões, o psicanalista e pesquisador Lucas Liedke escreveu um livro que trata, principalmente, da potência da psicanálise como instrumento de conhecimento e também desconhecimento. O psicanalista e pesquisador Lucas Liedke elaborou Entre sessõ psicanálise para além do divã em uma busca para expandir o lugar e a função da psicanálise enquanto um exercício diário da vida cotidiana e como recurso teórico para reflexões pertinentes sobre o mundo e o tempo em que vivemos.
Com base em premissas teóricas, experiência clínica e novos estudos comportamentais, o livro aborda o impacto de temas como memes, sonhos, internet, ansiedade e os efeitos da proliferação de conteúdos sobre saúde mental em um contexto de rede.
Em uma escrita prazerosa e provocativa, o autor apresenta uma obra para analistas, analisandos, estudantes e entusiastas, incentivando os leitores a se escutarem e a se reconhecerem na sua própria relação de descoberta com o universo da psicanálise.
Altamente recomendável a todos os que se interessam pela teoria e prática psicanalítica, principalmente aos alunos de formação e analisandos. O autor faz uma retrospectiva sobre a sua jornada particular no universo da psicanálise, coloca diversas críticas e apontamentos do contemporâneo, permeia o livro com referências e citações muito interessantes, tudo isso com uma linguagem fluida, sem os performáticos lacanês e freudismos. Um respiro para que gosta do tema. Adorei !
quanto mais ignoramos o que nao sabemos que nao compreendemos, mais desconhecemos que existe um insconsciente que age sobre nós e mais vítima dele nos tornamos. pag 32
reconhecer que em alguma medida, estamos semore " por fora de nos mesmos" pode soar hohe ainda mais ultrajante e escandaloso. por isso, propagandeamos e comercializamos tao bem a promessa do autoconhecimento como um conceito tãoa traente às massas e que cola perfeitamente nos discursos vigentes de autoaprimoramento e autocuidado, faça você mesmo, lifehacking e tantos produtos e objetos culturais que pretendem empoderar o Eu. pag. 34
acredito que a promessa mais plausível coma a qual poderiamos lidar em um tratamento analistico é a de que um analisando possa vir a descobrir como conviver melhor consigo mesmo, ainda que nunca venha a se autoconhecer integralmente. pag. 34
a contradição proposta por Freud é a de que o sintoma pode trazer sofrimento para o consciente, mas satisfação para o inconsciente. de um lado, há uma força que pretende realizar uma pulsão. do outro, uma outra que não permite que isso aconteça. é para esse conflito de forças em nosso psiquismo que o comportamento sintomático tenta encontrar alguma resolução. e até encontra, e isso é bastante útil para seguirmos vivendo nossa vida. pag. 67
a linguagem nos castra, e falamos pelo sintoma o que nao expressamos pela palavra. Lacan define o sintoma como o mutismo do sujeito suposto falante (Seminário 11). Ou seja, o que nao lembramos por palavra recordaremos por sintoma. pag69
o sintoma neurótico é portanto uma invenção necessária do nosso psiquismo, sempre em parceria com nosso corpo e articulada pelos nossos afetos inconscientes e emoções conscientes. uma solução criada para dar conta do nosso lugar de desamparo pag 69
somos as palavras que usamos apra falar e pensar. somos os enunciados que repetimos há nao sei quantos anos sobre os mais variados assuntos e pessoas. como esperamos mudar de vida se nao mudamos as palavras que usamos para falar de nos mesmos e das coisas que acontecem com a gente? pag 155
entrar em detalhes a respeito de uma situação que nos perturba profundamente nao é algo simples e trivial de se fazer, mas é um esforço capaz de movimentar um pesar que está cristalizado. A verdade é que, se já lembramos, já sofremos. O sofrimento já é real. portanto, falar a respeito pode ser um alívio. é somente coma elaboração dessa cena que ela pode ganhar um novo sentido e ter os seus afetos inconscientes descarregados e ressignificados. pag 163
como já dizia o psicólogo existencialista rollo may: "há pessoas que obtém um pseudo e temporário senso de vivacidade ao correr de um lado para o outro como se estivesse realizando algo; como se o fato de estarem ocupadas e se movimentando fosse uma prova de sua importância". e vai dar pra abrir mão disso? quem somos nós se nao estivermos continuamente ocupados? vagabundos? depressivos? privilegiados? pag 177
a sensação em uma análise pode ser de que giramos em círculos. ainda assim, nunca estamos na mesma circunsferência. talvez seja mais como uma espiral, que de um angulo parece avançar muito e de outro, pouco. quantas voltas podemos dar em um mesmo assunto? pag 182
o ser humano, ser desejante e ser de linguagem está condenado a sentir, de segunda a segunda. só acaba quando morremos. o pathos é doença, mas também é apixão, e por mais saudáveis que estejamos, disso nao escapamos. ha sempre uma pulsao ainda por chegar vinde de algum lugar em direção a algum lugar, habituada a se fazer presente desse ou daquele jeito. o que o dispositivo analitico pode proporcionar sao melhores condições para reconhecermos as nuances e os embates desse desejo que é autofágico em si mesmo. assim, com sorte, conseguiremos tomar melhores decisões por nos mesmos. a análise nao encerra todas as nossas inquietudes, porque isso encarraria com a vida do sujeito. o que ela pretende é nos jogar para a vida, apesar de todos os seus pesares, ou, como diz o psicanalista guilherme facci "a psicanalise nao vai salvar sua pele, pelo contrário, talvez ela permita que voce coloque a propria pele em jogo". pag 192
cit freud moises e o monoterísmo: estou comçando a entender que a natureza aparentemente interminável do tratamento é algo determinado por lei e depende da transferência pag. 193
cit nasio a psicanalise cura: nenhum paciente se cura por completo e a psicanálise, como todo remédio, nao cura todos os pacientes, nem cura de maneira definitiva. sempre restará uma parte de sofrimento irredutível, inerente à vida, necessário à vida. viver sem sofrimento não é viver. pag 198
talvez nao seja nem sobre encontrar algum tipo de cura, mas como afirma, calligaris, conseguir "mudar de neurose, fugir da mesmice da uma neurose só" pag 198
um desfecho possível seria nao a eliminação completa das queixas e a realização plena de todos os nossos desejos, mas fazer o gozo condescender ao desejo (Lacan, sem 10), isto é, quando gozo e desejo se conhecem melhor e tornam-se aliados, amigos. O que era queixa no início de uma análise pode se tornar saída no final, com uma voz mais neutra, que convive melgor com as condições inerentes do humano e do sujeito, sem fazer disso um tormento tão intolerável. É se haver com o impossível da satisfação total. pag 204
O autor soube falar sobre psicanálise sem ser técnico demais ou popular demais. Passa o conhecimento ao mesmo tempo em que nos convida ao conhecimento, a forma junto novos conhecimentos. Muito bom!! . "Vale um comentário aqui – que se costuma ouvir no senso comum – de que a depressão é a incidência de um excesso de passado no sujeito e que a ansiedade seria um excesso de futuro. Essa é uma explicação didática para se pensar a respeito de sintomas; porém, sem dúvida, é simplista demais. Até porque as perturbações ansiosas e depressivas não são tratadas de forma tão antagônica assim pela própria psiquiatria. Antidepressivos também são indicados para a regulação de neurotransmissores nos casos de transtorno de ansiedade. Depressão e ansiedade estão, de certa forma, em um mesmo espectro de diagnóstico, pois ambas são respostas de sofrimento ao fato de que viver no tempo presente se tornou um desafio para a nossa mente. Afinal, como contornar o fato de que não temos agora tudo aquilo que desejamos? Ou, mesmo, que desconhecemos ainda tudo aquilo que desejamos?" (página 126) . "Muitas vezes, no entanto, o que pode ser mais terapêutico não é necessariamente uma resposta para as nossas questões, mas um tipo de processo que faça a gente sair com outras perguntas, ainda mais importantes e talvez mais indecifráveis. A análise é sobre aprender a se fazer melhores questões e não necessariamente sobre encontrar todas as explicações. São aquelas questões na vida que são difíceis de fazer justamente porque colocam a nossa própria vida em questão." (página 137)
O título começa oferecendo a maestria de jogo de palavras que cabe um universo de reflexão começando nele, depois Lucas cria sua narrativa de construção pessoal / profissional, junto com a troca de cadeiras entre analista e analisando, a cada capítulo / abordagem, vai desencadeando e encadeando também, até um grande capítulo final conclusivo e surpreendente de aprendizado, tanto para analistas, quanto para analisando.
Um livro leve com leitura suave e na profundidade exata do limiar entre analista e analisando, aborda a aplicação da psicanálise nos dias atuais, construindo e desconstruindo suas bases.
"Aos poucos, eu passei a confiar no fato de que a análise nos toma, mas também nos devolve tempo, porque nos entrega a chance de algum respiro à medida que colocamos (quase) tudo para fora e depois para dentro de novo. Quando aprendemos não só a falar mas também a nos escutar. Nesse retorno a nós, podemos nos enxergar sob outro ponto de vista, em um plano mais aberto da existência, que pode estar para além do sintoma e para além da crise, e com isso ganhamos tempo para lidar com nossos apuros perante o desejo. É ganhar tempo e mobilidade diante daquela paralisia neurótica que nos é tão familiar, que nos diz que ainda não é a hora H do desejo ou, pior, que já é tarde demais." trecho do livro que me encantou e deixo ele aqui nesse meu review.
Como alguém que acaba de começar sua própria análise (para talvez um vir a ser), o livro de Lucas foi um banquete para mim. E revisitando minhas marcações depois de concluir a leitura, noto que a vasta maioria dos grifos são sobre a situação do analisando ou sobre o fazer do analista. Penso como isso denuncia as questões e expectativas que circulam esta minha leitura.
Lucas é bastante direto com sua fala - salve alguns trechos no meio do livro. Algo evidente já no título da obra. Em “Entre sessões”, Lucas extende a área de atuação da psicanalise, como ferramenta do saber, para além da clínica - um exercício sempre presente na história da psicanalise. O autor deixa claro que, no entanto, há limites para essa extensão e que o olhar é sempre na criação do sujeito como fonte de subjetividade. Um trabalho de criação infindável e inesgotável em sua multiplicidade.
Mas é carregando uma das frases de efeito (i.e., que me afetam) do livro para a minha análise que concluo essa leitura: “É sobre encontrar uma nova posição subjetiva perante o mundo”. Tenho pleno conhecimento de que esse encontro se dá com o tempo e nunca será absoluto, pois, como Lucas alerta, todo conhecimento tem seu limite, inclusive - e se não principalmente - nosso conhecimento sobre nós mesmo.
minha primeira não-ficção do ano marca o início do meu retorno aos estudos de psicanálise e que delícia que foi poder contar com as palavras de Lucas Liedke.
de forma muito natural e bem executada, ele traz não só conceitos da psicanálise clássica, mas engendra muito bem com questões culturais e contemporâneas, traz luz a questões relevantes como as novas formas de comunicação, a relevância da internet nas nossas elaborações, o tempo que o tempo leva e reforça que tudo é a linguagem dentro do universo psicanalítico.
é uma leitura muito gostosa, não só porque gosto do tema, mas porque o autor foi muito feliz em desmontar questões importantes com uma linguagem acessível, fluidez dentro dos assuntos e uma bibliografia de referência incrível. depois de "Cartas a um Jovem Terapeuta", de Contardo Calligaris, esse provavelmente é o meu mais novo favorito nesse tema de se tornar analista.
Lukas Liedke reflete, de forma cuidada, inteligente e acessível (também para quem não seja da área) sobre a Psicanálise para além das sessões.
Uma reflexão muito interessante na qual a Psicanálise é uma lente para pensar no sofrimento humano, mas também no mundo actual onde parece que se procuram soluções rápidas vendidas numa espécie de planos que o autor refere como “insta-therapy”. A superficialidade e a generalização motivational, típica de “gurus”, fazem crer numa omnipotência do esforço. Em consequência, assistimos à proliferação de estados de exaustão e frustração. Será isso a procura de um mundo melhor?
A Psicanálise aposta na alteridade e na singularidade. “colocamos (quase) tudo para fora e depois para dentro de novo. Quando aprendemos não só a falar mas também a nos escutar” p. 197
O livro parece um comentário enorme de Twitter, porém, em papel pólen, o que ajuda na leitura letárgica. Sendo carente de materialidade histórica ou atual e péssimo em demonstrar suas ideias o autor apresenta sua escrita como uma inovação do pensamento psicanalítico atual, porém, a ideia geral não se vende e é miseravelmente apresentada nas linhas desperdiçadas entre desabafos e referências elogiosas a outros autores mais renomados. Com uma leitura atenta é possível notar até mesmo contradições lógicas na dialética que o autor tenta inserir nos parágrafos. Vale a pena ficar com os grandes clássicos mesmo.
uma leitura rápida, mas profundamente reflexiva. este livro nos conduz delicadamente pelas interseções entre a psicanálise e a vida contemporânea, desvendando temas com clareza e leveza. como estudante de psicologia, senti como um convite caloroso para explorar as camadas do comportamento humano através de uma lente psicanalítica renovada.
seja para quem está começando a se aprofundar no mundo da psicanálise ou já é apaixonado por seus mistérios, este livro é envolvente.
Gostei muito deste livro por ser bem escrito e por apresentar a psicanálise de uma forma bem objetiva e simples de apreender. Uma psicanálise para a formação dos psicanalistas e para o tratamento possível de sintomas que apresenta o sujeito que deseja. Vale a pena, seja vc psicanalista ou não.