Com prefácio de Augusto Massi, Antologia pessoal traz uma reunião inédita de textos de Dalton Trevisan, um dos maiores contistas da literatura brasileira.
Da constelação de sua vasta produção literária, Dalton Trevisan selecionou 94 contos. Com prefácio do crítico Augusto Massi, esta Antologia pessoal proporciona, ao mesmo tempo, um rito de iniciação aos novos leitores e, àqueles que já são íntimos do Vampiro de Curitiba, um inventário de suas melhores histórias.
Integralmente dedicado à literatura e um mestre da privacidade, Trevisan é dos autores com maior produção na literatura brasileira das últimas décadas, sem jamais reduzir sua força criativa, de caráter experimental, expressiva e transformativa. Neste novo autorretrato, a mais ampla e representativa de suas antologias, reúne contos de Novelas nada exemplares (1959) até O beijo na nuca (2014), deixando antever suas referências literárias, as diferentes formas narrativas que adotou ao longo da carreira e o "bazar poético" – nas palavras de Augusto Massi – de suas frases e aforismos.
Demonstrando a longevidade e a contemporaneidade da obra de Dalton Trevisan, Antologia pessoal reafirma a sua inquestionável potência como um dos mais importantes contistas da literatura brasileira.
Dalton Jérson Trevisan was a Brazilian author of short stories. He was described as an "acclaimed short-story chronicler of lower-class mores and popular dramas." Trevisan won the 2012 Prémio Camões, the leading Portuguese-language author prize, valued at €100,000.
Guimarães Rosa e Dalton Trevisan, cada um a seu modo, criaram a partir do português uma língua própria, não apenas no sentido de uma variação estilística, mas de um verdadeiro sistema literário autônomo. São dois escritores que, a partir da mesma matéria-prima — o idioma comum —, construíram dois modos distintos de dizer e de ouvir o mundo.
Ambos ensinam o leitor a escutar. Ao ingressar nas páginas de Rosa ou de Dalton, somos obrigados a reaprender o português, a abrir o ouvido para um idioma que não está nas ruas, mas que remete ao rumor profundo de suas regiões e de seus mundos inventados. No caso de Rosa, o som é expansivo, cheio de curvas, feito de arcaísmos, neologismos, palavras rarefeitas e encantamentos. O sertão mineiro se torna mito, fábula, espanto e grandeza. Dalton, ao contrário, corta, silencia, suprime, rasga as frases com as lâminas dos gestos e da violência contida. Curitiba, cidade de frio e contenção, emerge na linguagem como território de solidão, crueldade e humor amargo.
O mais curioso é que, ao contrário de tantos regionalistas, nem Rosa nem Dalton se satisfazem com o retrato fiel do falar popular. O que buscam não é o verismo, mas a invenção. Criam, de fato, idiomas. E a leitura de suas obras mobiliza no leitor mais do que compreensão: exige tempo, paciência e uma atividade plena da imaginação. São linguagens que atuam na mesma zona do cérebro, aquela que nos obriga a sair da passividade da leitura decorativa e a mergulhar num processo criativo, de escuta, tradução e reconstrução do sentido.
Por isso, o leitor que se aventura pelos contos de Dalton ou pelas veredas de Rosa sente-se, ao fim, modificado. Como quem aprendeu um novo idioma e, junto dele, uma nova forma de estar no mundo.
É uma antologia de vida inteira, então obviamente não é perfeita e regular (e o autor não é perfeito nem regular). Dalton não é um construtor de contos, é uma caneta superabundante, que atira para todos os lados ao mesmo tempo. Neste sentido é um grande mestre de uma arte menor, mas também erra muito, especialmente nas décadas finais. O melhor aspecto da obra, para mim, é a inclinação escorpiana, o retrato naturalista da senescência em contos como "os velhinhos". Outra obra-prima é a linguagem interrompida, insuficiente de "sôbolos rios". enfim, aqui se vai do oito ao oitenta.
Uma facada no coração. Apesar dos contos rápidos, demorei cerca de 8 meses para conseguir ler tudo. Minha justificativa é o peso do conteúdo, o poder da narração do horror do dia a dia, do pesadelo do envelhecimento, a violência dos relacionamentos. Dos 94 contos, ao menos 30 me fizeram chorar. Com o peso daquelas palavras na cabeça, fechava o livro e só iria reabri-lo no outro dia. Como não recomendar a obra do Dalton? Impossível. Leia essa Antologia antes que a morte te alcance.