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O Poder das Mulheres

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Os gregos antigos inventaram a democracia, mas às mulheres desse tempo não foi permitido deliberar, dirigir ou defender o Estado. Ficaram sem representação. Ao homem foi reconhecido o estatuto de animal político, enquanto a mulher era um animal doméstico. O cristianismo e os pensadores medievais, como Tomás de Aquino, viam a mulher como incoerente, incapaz de refletir, e no iluminismo, sobretudo com Jean-Jacques Rousseau, à mulher ficavam reservadas as frivolidades. Somente com filósofos como Condorcet, que substituiu as leis da natureza pelos direitos humanos, houve lugar à igualdade e à emancipação da mulher.

Nestas condições as mulheres foram levadas a duvidar da sua legitimidade. Uma suspeição fundamental paira nas próprias democracias: não serão as mulheres, sem dúvida, incompetentes? Não serão elas, talvez, menos capazes?

«O poder das mulheres é um desafio para a democracia. As vicissitudes da paridade, os debates, os obstáculos, as resistências de hoje mostram que se trata de um projeto interminável. Dado que assenta nos princípios da liberdade individual e da igualdade natural, a democracia liberal moderna favorece a emancipação e abre espaço de oportunidades para todos e todas. A longa história da censura das mulheres — porque elas devem manter-se fora do político — faz parte da história da democratização do mundo. Não existe modernidade sem as mulheres. O insulto feito às mulheres sob a capa de filosofia nunca deve ser esquecido. Na época do #MeToo e de Kamala Harris, ler um pouco de Rousseau, de Tomás de Aquino, de Jean de Jandun e sobretudo de Aristóteles faz bem. Revigora. Recomendo-o a quem quer viver bem no século XXI.

376 pages, Paperback

Published March 1, 2023

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Giulia Sissa

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517 reviews
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April 2, 2026
A junção do direito e da aptidão e, mais precisamente, a subordinação do direito à aptidão, é essencial na história da diferença dos sexos. Porque, nesta história, as mulheres não são apenas excluídas de facto dos lugares de poder: é suposto elas não poderem poder.

A premissa de Giulia Sissa é ousada: enquanto o feminismo contemporâneo debate o uso do capitalismo como ferramenta de repressão, Sissa dobra a aposta: a democracia está na génese dessa repressão — capitalismo e patriarcado podem assim ser encarados como expressões encadeadas de uma mesma fórmula (leitura minha). O que aqui importa esclarecer é que a demokratia grega, berço da democracia ocidental, não procurava apenas excluir as mulheres dos lugares de poder, mas ia mais longe na subversão da legitimidade e assegurava que as mulheres não podiam poder, deslegitimando ontologicamente a sua autodeterminação.
Esta proposição não surge como um capricho isolado. Sissa segue uma premissa histórica presente na obra de académicos como Jürgen Habermas, na qual se analisa e contesta o espaço democrático idealizado face ao espaço democrático concreto, com assimetrias e desigualdades que recaem sobre os grupos não masculinos e não elitizados. Nesse sentido, a democracia enquanto construção social, sistema jurídico, conjunto de valores, modo de vida e ainda cultura política tem um longo historial crítico. Talvez por isso não se aviste propriamente fricção entre a sua abordagem e a tradição de teoria social da qual decorre. A ser assim, onde esta obra se expande é no esgrimir de um precedente cultural original: a democracia é essencialmente androcêntrica por conta da guerra, afirma Sissa. É, pois, a justificação bélica que aliena as mulheres do corpo do demos (povo) sobre o qual a demos+kratia (governo do povo) deverá assentar. A guerra enquanto elemento legitimador do poder androcêntrico é a grande tese que sustenta a ideia de que ao início, são os reis, príncipes, nobres que, no mundo pan-helénico de Homero, praticam entre eles formas de deliberação coletiva. A seguir, são os cidadãos que instauram o governo popular em Atenas.(...) [A]o longo de toda a história da democracia, apenas estes machos são considerados capazes, e dignos, de se governarem a si mesmos.
Mas, para chegar a ela, é necessário todo um desenredar de conceitos que a autora imagina a escapar ao seu público. Por conta disso, opta por um didatismo forçado que, embora não comprometendo o argumento, compromete a adesão do leitor.
De todas as formas, a pedra angular desta demokratia, diz-nos Sissa, é a performatividade de género masculino, igualmente dependente da biologia como das implicações morais dos elementos físicos e corpóreos masculinos (calor, estatura, pilosidade = coragem, honra), e é precisamente pegando nesta performatividade que a autora vê evoluir o conceito de feminino. Assim, enquanto o período da tragédia grega (coetânea do nascimento da democracia) recupera figuras femininas excelsas (e monárquicas) como Artemisia, Jocasta, Etra, Antígona e Electra que brilham na cena trágica graças ao escândalo do seu saber, da sua sabedoria e da sua coragem e que deliberam não tão bem quanto os homens, mas bem melhor, o período de consolidação da democracia antiga torna estas proezas impossíveis, afirma.
Na origem desta regressão, está a teorização de género de Aristóteles que atribui à fêmea a diferença entre uma faculdade decisória deficiente, por um lado, e uma inteligência discursiva e técnica superior, por outro lado, acabando por criar um sistema de exclusão estável e duradouro.
O problema em O poder das mulheres surge posteriormente, quando a autora recupera a cronologia do paradigma (paradoxal) grego — capacidade intelectual e inapetência das mulheres — que, resolvido negativamente pela formulação de género judaico-cristã, apenas vem a ser ultrapassado já adentrados no século XVIII. Ora, abordar a Idade Média en passant, mencionado apenas Tomás de Aquino, Pizan e Boccacio é não só redutor como programático, e resulta num salto quântico que deixa por equacionar um período de cerca de 1000 anos que são fundamentais para a teorização feminista. Este corte enfraquece a proposta — sobretudo porque, apesar de a guerra deixar de definir directamente a cidadania nesta altura, é precisamente quando as mulheres (governantes) passam a fazer parte dela.
Assim, esta opção mais não faz do que denunciar uma mudança de agenda: defensora de Condorcet e Poulain de la Barre (dois nomes profundamente associados ao proto-feminismo), Sissa parece percorrer cada um dos capítulos seguintes com apenas este intuito — defender o posicionamento democrático das Luzes:

Diz-se que nenhuma mulher fez descobertas importantes nas ciências, não deu provas de Coginio nas artes, nas letras, etc. Acrescenta-se que nenhuma mulher tem a mesma extensão de conhecimentos, a mesma força de razão de certos homens. A isto há que responder, segundo Condorcet, que a mediocridade abunda entre os homens, mas essa não é uma razão para conceder o direito de cidadania apenas aos homens de génios.

Fazendo um arco entre a democracia antiga e a sua herdeira Iluminista, Sissa insiste na necessária reformulação do ideal de género através de uma apropriação de valores antigos, (embora os associe não à democracia, mas à monarquia). A (nova) democracia deve assim desfazer a homogeneidade masculina, a qual não é um pouco menos democrática do que deveria: é contrária à inclusão igualitária, princípio que define a qualidade democrática moderna.
Onde Sissa não torna a pegar é na proposta inicial de avaliar o peso da democracia antiga. A meio do caminho, depois de truncar mais de um milénio de história, algures entre Rousseau (como porta-voz dos limites da democracia) e Condorcet (como bastião da superação da democracia), a sua tese recua para uma defesa dos teóricos feministas e abandona o plano avaliativo da génese da desigualdade de género. Neste preciso sítio, onde ganhava verdadeiro alcance para abordar a problemática dos discursos limítrofes, Sissa insiste no recorte.
Afirmei antes que a leitura de O poder das mulheres começou por me sugerir uma problematização alternativa: a ideia de que capitalismo e patriarcado podem ser encarados como expressões de uma mesma fórmula. A fórmula (i.e. estrutura de exclusão), neste caso, seria a democracia. Teríamos assim como "fórmula” comum: guerra (critério de pertença à polis) — define cidadania; cidadania (reconhecimento político dessa pertença) — define legitimidade; legitimidade (direito a participar no poder) — exclui mulheres. Logo, a exclusão dá-se enquanto consequência estrutural. Todavia, essa premissa nunca chega a ser totalmente fechada, sendo antes monopolizada em favor de um gesto político: Não existe modernidade sem as mulheres.
Esse desfecho deixa este volume algures entre uma história da democratização ocidental (não mundial, como a autora afirma) e uma história da censura das mulheres no seio da democracia. A autora abre a possibilidade trans-histórica (aptidão — direito), mas não a sustenta nem questiona outros contextos democráticos nos quais essa cadeia possa não se aplicar. Não estará a cidadania, na atualidade, muito mais dependente da produtividade/valor do que da aptidão? A estrutura de subordinação do direito à aptidão não desaparece, mas transforma-se. E a resolução desse eixo interpretativo não chega a acontecer aqui. A par da dificuldade técnica de acompanhar este volume (Sissa não amenizou a dureza académica) acresce a incompletude da premissa. Ainda assim, O poder das mulheres não pode deixar de suscitar o nosso questionamento sobre o que implica viver numa democracia historicamente excludente. Será a democracia realmente o melhor de todos os sistemas?

a igualdade deve tornar-se um direito por princípio. Enquanto ficar presa a uma identidade qualitativa subjacente, seja ela corporal, moral ou social, a igualdade não pode ser a mesma para todos.
877 reviews
August 20, 2024
A democracia inventada pelos atenienses era só para homens atenienses capazes de fazer a guerra para defender a sua cidade-estado e ter agência para participar na vida política da sua comunidade. A partir daí a exclusão das mulheres foi justificada pela filosofia, pela lei e pela religião. Só no teatro havia alguma oportunidade de fuga. Os cristãos alimentaram e adicionaram camadas a esta ideia que ainda hoje nos assombra e que só alguns iluministas, como Condorcet, desafiaram o status quo. Mesmo assim, a democracia liberal, bem diferente da grega, demorou a reconhecer as capacidades, e assim aceitar a sua participação na pólis.
É um ensaio um pouco repetitivo, mas muito estimulante, ao mesmo tempo história das ideias, das mentalidades, da filosofia. Leitura obrigatória para todos, especialmente para aqueles que perguntam para que serve o Dia da Mulher.
Profile Image for Elena.
773 reviews8 followers
April 17, 2023
Non ho compreso la traduzione italiana del titolo (L'errore di Aristotele - donne potenti, donne possibili, dai greci a noi) anche se, in effetti, fa capire che il focus del libro è sul concetto di democrazia greco e sul perché all'epoca le donne fossero escluse dal governo (e non solo). I temi sono interessanti, come il filo conduttore che da Aristotele ci porta a Tommaso d'Aquino e a Rousseau per poi arrivare a Condorcet. Tuttavia in molte parti (specie i primi tre capitoli) è eccessivamente ripetitivo per poter essere davvero gradevole.
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