Esta obra foi publicada em Dezembro de 1979, pela Moraes Editores, ilustrada com pinturas de Júlio Pomar e capa de Sebastião Rodrigues. Mais tarde, em 1999, foi publicada pelas Publicações Dom Quixote. Fazem parte do livro os contos seguintes: «Os reis-mandados»; «O conto dos chineses»; «Nós, aqui por entre o fumo»; «Dinossauro Excelentíssimo» (versão revista pelo Autor após o 25 de Abril); e «Celeste & Làlinha: por cima de toda a folha».
JOSÉ CARDOSO PIRES nasceu na em São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, a 2 de Outubro de 1925. Estudante na Faculdade de Ciências de Lisboa, trocou as matemáticas superiores pela marinha mercante. Entre 1969 e 1971, foi docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College, em Londres. Foi director literário de editoras lisboetas e director-adjunto do Diário de Lisboa (1974-75). Estreou-se com Os Caminheiros e Outros Contos (1949) e obteve o Prémio Camilo Castelo Branco com o romance O Hóspede de Job (1964). Dentro do neo-realismo, retoma a tradição satírica setecentista. Entre outros, escreveu os romances O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores), Alexandre Alpha (1987), República dos Corvos (1988). Escreveu para o teatro O Render dos Heróis (1960) e Corpo Delito na Sala de Espelhos (1979). Deu ainda a lume a colectânea de ensaios Cartilha do Marialva (1960) e o volume de crónicas E agora, José? (1978) e A Cavalo no Diabo (1994). Em 1997 publicou De Profundis - Valsa Lenta e Lisboa, Diário de Bordo que lhe valeram o Prémio Pessoa desse ano. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem da Liberdade, em 1985. Faleceu a 26 de Outubro de 1998, em Lisboa.
É com uma “conversa a várias vozes numa casa de pasto do Poço do Bispo”, que José Cardoso Pires começa a erguer este seu “O Burro-em-Pé”, conjunto de cinco contos escritos entre Janeiro de 1960 e Novembro de 1978. O diálogo, à guisa de apresentação, realça um dos pressupostos da colectânea, aproximando-a de “Jogos de Azar” pela sua forte componente social e política, mas afastando-se dele na abordagem, o sonho a comandar a vida, como se tudo não passasse de uma brincadeira de crianças que nem é jogo nem é nada. Destinado a colmatar uma prolongada ausência do mercado (“O Delfim”, último romance de José Cardoso Pires, datava já de 1968), “O Burro-em-Pé” chegou às livrarias nos inícios de 1979 numa edição luxuosa, com ilustrações de Júlio Pomar, sendo composto por três contos anteriormente publicados na imprensa (“Os Reis-Mandados”, “O Conto dos Chineses” e “Nós, Aqui por Entre o Fumo”), uma “noveleta” inédita (“Celeste & Làlinha: Por Cima de Toda a Folha”) e uma versão revista de “Dinossauro Excelentíssimo”, fábula publicada seis anos anos, “uma ideia infeliz” no meio dos outros contos, conforme referiu o crítico Alexandre Pinheiro Torres, que escreveu o prefácio à edição alemã.
Lê-se “O Burro-em-Pé” como uma espécie de continuação de “Jogos de Azar”, ainda que apenas no que aos três primeiros contos diga respeito. Estão lá os mesmos ambientes, as mesmas sombras, os cheiros da comida aquecida, o suor e as lágrimas de quem vive um amargo presente sem descortinar futuros que não seja em sonhos. No pequeno “João Janico, Perninhas de Lebre, Orelhas em Bico”, os pés em labareda dentro das suas botifarras enormes (“de bom cabedal, de macia capa de vaca, solas de pneu de automóvel e valentes costuras”), a oferecer-se para “voltas e recados” aos senhores ricos dos “estoris”, há todo um futuro carregado de promessas e ilusões que, sabemo-lo de antemão, não passarão disso mesmo. O mesmo se passa com “um certo tipógrafo” que tem a mania dos números - “2-X-2; 1-1-1; 1-2-X” - e que vai fazendo contas ao carro que comprará no dia em que a sorte cair para o seu lado. Ou do camponês que, após o encontro com dois chineses, “adormeceu a sonhar com passarinhos fritos, escorrendo sobre o pão”. Neles, o leitor reencontra a escrita directa e ácida de José Cardoso Pires nesse olhar desencantado e sem esperança sobre o Portugal salazarento e fascista.
Os restantes dois contos são uma história à parte. “Dinossauro Excelentíssimo” é aqui enxertado fora do contexto e sobre ele me debruçarei em particular, com uma recensão à primeira versão publicada em 1972. Finalmente, “Celeste & Làlinha: Por Cima de Toda a Folha” é um dos mais comoventes e bem escritos contos que me foram dados ler até hoje. Inédito destinado a completar “O Burro-em-Pé”, o conto é escrito no pós-25 de Abril e parte ao encontro desses pobres que nunca deixaram de o ser, retornados das antigas colónias portuguesas e abrigados em colmeias precárias de onde se avista lá ao longe, “num esplendor de luz e de nuvens sangrentas”, a cidade capital dos impérios. É preciosa a forma como, pelo olhar de uma criança, José Cardoso Pires nos faz um retrato desses tempos de tamanha raiva e amargura no “bater a asa, rumo ao velho ninho, Portugal”. O amor que une Celeste à sua boneca, “uma negrinha só ternura e ainda por cima indefesa porque tinha um braço estropiado” tem na desonestidade intelectual e na imoralidade do pensamento e comportamentos racistas e xenófobos um contraponto brutal. Quase meio século depois, este é um conto que se mantém actual e que diz muito do que fomos e somos.