A fundação de uma civilização exige a aprovação de uma legislação que reja as conductas dos seus cidadãos. No entanto, para que ninguém se escandalize e a convivência não caia em saco roto, exige-se uma contenção do animal interno,escondido pela derme. De difícil amestração, a sua jaula é construída com base no pudor - o censo que evita a obscenidade.
As várias facetas que Rubem Fonseca assumiu na sua vertente laboral garantiram-lhe vislumbres constante de várias camadas da podridão humana - mas a de comissário da polícia e a de estudante de direito destacam-se entre elas. Esses contactos com as artes criminais serviram de inspiração para estes 18 contos infames. Sem conversão possível (quer pelo linguajar brasileiro quer pelas referências culturais), neles espelham-se o lado oculto da mente humana, assente num fascínio doentio quase incompreensível que leva a cometer actos pouco ortodoxos mas praticados com um rigor científico, de fazer inveja. Acções, sem premeditação, norteadas por traição e cumplicidade, adição e confabulação, sordidez e beleza, taras e manias, bem e mal, sonhos e desejos, confabulações e ânsias, poder e submissão, surpresas e previsibilidade, paciência e sensatez.
Com um humor negro - que não entristece mas anima - apresenta as mulheres como objectos de posse, sem mentes pensantes. Se a etiqueta pode incomodar, o pecado surge mais com a previsibilidade da leitura a jacto - assuntos diferentes mas observados por um caleidoscópio que lhe conferem a mesma cor. Mas a escrita garante a fluência - até porque, quando nada mais der certo, há sempre a gramática... ou a cova de uma axila.
"O médico disse que eu sofria de uma espécie de misantropia. «Pode explicar melhor?» «Misantropia é a antipatia, eu diria mesmo repugnância aos seres humanos, ou seja, o misantropo é alguém que odeia a humanidade de uma forma generalizada.» «Isso sempre existiu», eu disse. «É verdade, a palavra vem do grego, essa síndrome sempre existiu.»"