Uma boa introdução à filosofia da ciencia. Oferece um panorama dos problemas e teorias principais que um leitor leigo precisa conhecer. Eu certamente o recomendaria a qualquer pessoa interessada no assunto, e provavelmente o consultarei muitas vezes futuramente.
Pontos positivos:
- Os capitulos são separados por problemas da área e as principais tentativas de resposta a eles. Assim se evita fazer uma introdução historica focada nos grandes nomes da filosofia da ciencia, mas se conserva a sequencia historica das teorias em torno de cada tema, bem como as relações entre cada problema/capitulo.
- Por ser uma edição recente, o livro cobre desde os problemas mais clássicos (como os da confirmação e progresso de teorias cientificas) até os mais recentes, pós Kuhn, como o tópico dos modelos; as abordagens semantica e pragmatica, que se opõe à abordagem sintatica da filosofia da ciencia da primeira metade do século passado; e, por fim, questões de metaepistemologia.
- Cada capitulo termina com várias questões para o leitor responder, além de sugestões de temas para desenvolvimento de pesquisa e escrita sobre, bem como de leitura para aprofundamento nos tópicos apresentados.
- Apesar do Dutra ter seus interesses e posicionamentos, o livro não é tendencioso no sentido de passar uma imagem negativa de alguns filosofos ou abordagens/teorias. Ao contrário de outras introduções, eu não me senti impelido a ver o empirismo lógico ou Kuhn, por exemplo, como ingenuos, datados ou coisa do tipo.
Pontos negativos:
- Apesar da boa apresentação dos problemas e as principais tentativas de resolve-los, os argumentos são deixados em segundo plano. O leitor sabe, por exemplo, o que Carnap e Popper tinham em comum e em que divergiam a respeito do problema da confirmação, mas não sabe muito sobre os argumentos a favor e contra cada teoria. Alguns problemas e objeções principais são abordados bem por alto. Contudo, essa limitação do livro é compreensivel, dado que o foco do livro é tematico, e que não se pressupõe que o publico alvo tenha conhecimento prévio sobre a área. Acho que, idealmente, cada capitulo deste livro deve ser usado em conjunto com a leitura de artigos e trechos de livros dos autores abordados (a sugestão de leitura para aprofundamento parece indicar isso), e também trechos de outras introduções, com diferentes enfases, que podem complementar a leitura deste livro (Ex.: O que é ciencia afinal?, do Alan Chalmers; Representar e intervir, do Ian Hacking; O desenvolvimento moderno da filosofia da ciência, do Carlos Moulines; Theory and Reality, do Godfrey-Smith; e, Understanding Philosophy of Science, do Ladyman).
- O problema da demarcação é abordado tangencialmente ao longo do livro, geralmente com referência a outros problemas, como um adendo. Isso é ruim porque se trata de um problema clássico e bastante popular.
- A quantidade de filosofos da ciencia abordados com mais detalhe ao longo do livro é pequena, e muitos filosofos importantes mal chegam a ser mencionados. Mesmo assim, os poucos que são abordados ilustram bem os problemas discutidos e cumprem a função de passar uma visão geral dos temas. E é legal que caras como van Fraassen, Boyd e a Cartwright sejam mais explorados, em acrescimo ao roteiro tipico Carnap-Popper-Kuhn-Lakatos (este ultimo é praticamente ignorado no livro, tho).