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#lerosclássicos
Aquela mulher tão erudita mergulhara nas recordações da sua mocidade, qual, como se diz nas nossas canções, não se alcança nem com os gritos lançados da montanha mais alta. Sem tirar os olhos dos álamos, pareceu ir dizer qualquer coisa, mas desistiu e encavalitou no nariz os óculos que tinha na mão.
Tal como em “Djamila”, Chingiz Aitmatov retrata paisagens e cenas quotidianas do seu Quirguistão com uma enorme doçura e singeleza, ainda que se perceba a dureza da vida nas estepes e nos kolkhozes. Também em “O Primeiro Mestre” seguimos uma rapariga que não quis cumprir o destino que lhe estava reservado, o de ser a segunda mulher de um membro de uma tribo nómada, encontrando um verdadeiro aliado num ambiente hostil. Numa longa carta, a professora catedrática Altinai Sulaimanovna, conta ao narrador como só aprendeu a ler e a escrever aos 14 anos, graças aos esforços de Diuichen, um jovem que, apesar de não ter praticamente instrução, imbuído do espírito do novo homem soviético, decide abrir uma escola num barracão sem condições, onde as crianças tinham de se sentar na palha e atravessar uma ribeira a vau, no pino do Inverno, para lá chegarem. É uma das histórias mais esperançosas e inspiradoras que já li.
Bem vistas as coisas, não teria custado aos habitantes da aldeia reunir-se e lançar dois ou três troncos por cima da corrente. (...) De crassa ignorância, àquela gente pouco importavam as letras, encarando Diuichen como um ser esquisito, meio desaparafusado, que trazia os catraios nas palmas das mãos só porque não imaginou melhor meio para matar o tempo. Que não, diziam, se os queres ensinar, ensina-os até te fartares; quando não, paciência, é só escorraçá-los para casa dos pais. Andavam a cavalo, não precisavam de ponte coisíssima nenhuma.