4,5*
A reinterpretação dos mitos gregos está em força na literatura actual e, claro, por cada fã, há um detetractor purista que acha tudo isso um disparate, um aproveitamento, que deviam antes estar a ler Homero e as tragédias originais se querem perceber alguma coisa da telenovela grega, perdão, da mitologia grega. Mas fora de brincadeiras, todas estas histórias são tão empolgantes como a boa ficção televisiva. Pessoalmente, acho que há espaço para Homero e quejandos bem como para todas as autoras que querem agora contar esses mitos da perspectiva feminina.
Quando eu já estiver morto, numa tarde agosto, os meus pais sentar-se-ão na sala da que foi a minha casa a pensar como é que tudo começou e ele culpará a ‘Ilíada’, um livro tão inadequado para uma criança hipersensível.
“Chamem-me Cassandra”, porém, é muito mais do que isso. É uma obra encantatória sobre identidade e disforia de género, em que o pequeno Rauli está convencido de que é a reencarnação da profetisa Cassandra, tendo, tal como ela, capacidades divinatórias, carregando o peso de ver como e quando todos à sua volta morrerão e, pior, o seu próprio fim, que é um facto assente desde o início e que apenas aguardamos pesarosamente para o ver chegar.
Apetece-me dizer-lhe (...) que olhe bem para mim porque é a última vez que me vê na vida, que em breve serei cinzas e nada terá sentido pois voltarei a ser Cassandra e que, se voltássemos a encontrar-nos noutra era, ela não me reconheceria. (...) Levam-me para Angola, sou mais um soldadinho de chumbo, sou carne para canhão.
Tal como os Estados Unidos tiverem o Vietname, uma guerra que não era sua, mas na qual empenharam a vida de milhares de soldados para combater o comunismo, Cuba sacrificou 10 mil homens no processo contrário, o de defesa desse sistema ideológico, para lutarem ao lado do MPLA contra a UNITA e os sul-africanos na guerra civil de Angola.
-Vejo mortos – digo-lhes, e não gostam. É mau ver mortos, é uma loucura, agora somos todos marxistas-leninistas, ateus, e se vês mortos é porque estás louco.
É um país de revolucionários onde o racismo é proibido mas comum, onde a homossexualidade é punida com violência ou a cadeia, onde Raúl cresceu a sentir-se diferente, porque é de facto diferente, gosta de ler e de se vestir com roupas de rapariga.
- Mas o Raúl, não é revolucionário – diz o Ariel, um rapaz quase tão pequeno e magro como eu, mas muito irrequieto – Os maricas não podem ser revolucionários.
Apesar de ser baixinho, de ter um aspecto frágil e efeminado, Raúl é enviado para combate sem se debater face à inevitabilidade do que previu.
E um coronel de traços achinesados, ao ver a minha inapelável feminilidade, me perguntou se era homossexual, neguei firmemente com a cabeça, e não só por medo das consequências, mas por saber que o meu destino era estar aqui em Angola e morrer no Velho Mundo onde tudo começou, meu Zeus, onde pela primeira vez fui Cassandra há tanto tempo.
É necessária uma certa suspensão da descrença para alinhar nesta cosmologia da Antiga Grécia transposta para a Cuba dos anos 80 e entrelaçada com a cultura dos orixás, mas se conseguirem fazê-lo, é uma leitura altamente compensadora.
Vejo Xangô, Iemanjá, Obatalá, mas também vejo Apolo, Ares, Artemísia e Atena. Somos um exército de vivos e de fantasmas que se levanta certa manhã com a alvorada.
A técnica de vaivém temporal que permite a Marcial Gala fundir presente, passado e futuro numa mesma narrativa, por vezes num mesmo parágrafo, é espantosa, e os acontecimentos apenas sugeridos num ponto e explanados mais tarde, com perguntas em suspenso durante capítulos, impressionaram-me.
Cavo sem olhar para eles. As suas palavras escorregam pela minha cabeça abaixo e não me tocam. (...) Estou a cavar o túmulo onde enterrarão o meu corpo (...) Cavo-o com o cuidado de quem esculpe uma casa de portas de carvalho e jardins invisíveis.