«Eu era uma pessoa simples urbana, uma planta que insistiu em crescer entre os paralelepípedos do passeio, na rua mais concorrida da metrópole, cujo destino é conhecer a sola dos sapatos de milhares de turistas e transeuntes e respirar violentas concentrações de dióxido de carbono. Eu sabia chamar um táxi, mas não o rebanho; sabia levar uma muda de roupa à lavandaria self-service e trazê-la limpa, mas não sabia levar um cântaro à teta da vaca e trazê-lo cheio. Não sabia atear fogo, construir um abrigo, nem situar-me olhando as estrelas. Não conhecia o significado dos ventos nem descodificava as nuvens, quando antecipam temporal. Os elementos do mundo em meu redor que eu considerava naturais eram indecifráveis.»
Nasceu em Lisboa em 1982. É licenciada em Design de Comunicação pelas Belas-Artes de Lisboa e doutorada em Estudos Culturais pela European University Viadrina, na Alemanha. Em paralelo à criação literária, escreve para teatro, faz apoio dramatúrgico e dá aulas. Na editorial Caminho tem publicados três romances, dois livros de contos e um livro infanto-juvenil. O primeiro romance «Diálogos Para o Fim do Mundo» ganhou o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho 2009. «O Museu do Pensamento» foi considerado pela Sociedade Portuguesa de Autores o melhor livro Infanto-Juvenil de 2018; e o romance «Ecologia» foi finalista do prémio APE, PEN, DST, Casino da Póvoa e semifinalista do Prémio Oceanos 2019. Em teatro, começou por escrever para o Festival Teatro das Compras. A primeira peça longa, «Quarto Minguante», foi encenada por Álvaro Correia no Teatro Nacional D. Maria II em 2018. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Bolsa da DGLAB, com a qual escreveu «Corpo/Arena», que iria estrear em Itália, não tivesse a Covid19 cancelado tudo.
Ainda que reconheça a sensibilidade e o carácter subversivo de “Natureza Urbana”, a escolha da imagem um pouco batida do mito de Pigmalião não me permitiu render-me incondicionalmente a este conto. Contado da perspectiva de uma mulher de 36 anos com dislexia, algumas dificuldades cognitivas e poucas competências sociais, que viveu dominada e enxovalhada pela mãe até à hora da sua morte, e um pouco para além dela até, num efeito de Pigmalião invertido, encontro aqui reminiscências de “A Educação de Eleanor”.
Guardei a nostalgia pela mãe que ela nunca soube ser, e habituei-me à companhia dos meus sentimentos mais soturnos como de um gatinho que aquece o colo e não exige demasiado. Uma tristeza que ronrona.
Quando é despedida do salão onde lava cabeças, com todo o dia por sua conta, define a sua meta.
Naquela altura, se bem me lembro, a minha única ambição era aprender a andar devagar. Queria poder olhar as coisas e pensar nelas de forma completa e sem interrupções.
Sozinha, passeia muito pela cidade, deparando-se com cantos e recantos em que nunca reparara e vislumbrando vestígios da natureza no meio urbano, num percurso de autodescoberta.
Eu era uma pessoa simples urbana, uma planta que insistiu em crescer entre os paralelepípedos do passeio, na rua mais concorrida da metrópole.
Porém, como tem de reduzir as despesas, ao procurar um local onde tenha Internet gratuita, faz a descoberta mais importante da sua vida: a biblioteca pública. Entre as várias epifanias desta protagonista, aquela que mais sela o seu destino prende-se com os animais.
Ali percebi que, afinal, há três categorias de animais. Além daqueles que convidamos para as nossas casas e que amamos, e dos que erradicamos porque nos causam medo ou nojo, existem aqueles que entram em nossa casa em pedaços, estropiados, para nos alimentar.
É, pois, natural que haja em “Natureza Urbana” um piscar de olho a outro excelente livro sobre a defesa dos animais.
De facto, só terminei um entre os muitos romances que me ofereceu, com algum esforço, mas não sem proveito. Tinha sido escrito por uma senhora que ganhou o Prémio Nobel. (...) O nome impronunciável tornou-se logo para mim sinal de força e possibilidade.
Conduzindo-nos, assim, a um desfecho inquietante que leva a protagonista a uma derradeira conclusão.
Percebi que a melhor forma de aprender a andar devagar é não ter para onde ir.
Depois de "A História de Roma" fiquei com vontade de ler outros livros de Joana Bértholo. Já tinha visto este pequeno livro por aqui e, quando me cruzei com ele numa livraria, tive que o trazer comigo.
É um pequeno conto, com um desfecho surpreendente e que fala de muitas coisas importantes e tão actuais. Um texto sobre a vida urbana contemporânea, a solidão, a auto-descoberta, a desigualdade social, a importância do conhecimento e a angústia que este pode trazer. É ainda, uma reflexão sobre a forma como os animais e a natureza são tratados pelos homens.
A escrita é poética, simples, intimista e cheia de significados. A Joana Bértholo é uma das novas escritoras portuguesas que vale a pena conhecer. Se ainda não a leram, não deixem de o fazer.
Não resisto a um bom conto ou novela. Pequenos e tão ricos que me encantam. Uma pequena história ou episódio que leio em qualquer momento e em qualquer sítio. Personagens diferentes mas extraordinárias. E que persistem na memória e nos acompanham no quotidiano sem ser preciso falar alto mas em diálogo na nossa cabeça. Alguém que mais ninguém vê mas que não nos deixa sós. Um outro olhar porque se procura ver a natureza urbana quando se anda devagar. E repensar como nos alimentamos. Simples assim mas que bom.
Neste senti as palavras da Joana ativista. É um conto que aborda tantas questões sociais atuais e tremendamente importantes. Senti a urgência. Acima de tudo, o propósito nas suas palavras. Tendo lido o livro do Jorge Pinto recentemente, tudo faz mais sentido. Não virá um messias salvar-nos da crise climática. Há que abraçar a nossa quota-parte de responsabilidade. Embora tenhamos esta questão no plano de fundo, tudo é feito sem imposição. O maravilhoso deste livro é que dá espaço para refletir, permite que possam surgir diferentes interpretações.
São 60 páginas sobre a desigualdade social, a natureza e como nos relacionamos com a mesma, os animais e os seus direitos. E aqui vi Olga Tokarczuk. Tenho como hábito pedir a escritores recomendações de livros, e a primeira da Joana foi o Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos. Foi bonito ver a ligação entre as duas. E como se não bastasse, a escrita da Joana é para mim sublime. Neste temos uma escrita muito poética, singela, que de todo não nos prepara para o desfecho do livro.
Foi um livro que me inquietou. Convidou-me a olhar e a apreciar as coisas pequenas e belas; a dar atenção àquilo que verdadeiramente importa. Convidou-me a abrandar e a descomplicar o pensamento.
A protagonista desse livro perde a mãe e o emprego no mesmo dia. Esse é o ponto de partida de uma revolução na sua vida, que a fará enxergar a vida de outra forma através dos livros e do conhecimento que vai adquirindo. Ela deseja aprender a "andar devagar" e a enxergar a natureza na cidade.
Achei bonito e conversou com questões que me interesso, mas não achei forte o suficiente.
Depois de A História de Roma - que detestei - tinha dito que não leria mais nenhum livro da Joana Bértholo, mas uma amiga convenceu-me e passou-me este para as mãos.
Uma coisa é inegável: a escrita da Joana é maravilhosa e até podemos não gostar ou perceber bem a história, mas lá que ela escreve muito bem, escreve. Parece tudo muito natural, na verdade.
Gostei do livro. Gostei de como vemos a evolução(se é que podemos chamar-lhe assim) desta personagem que foi subjugada pela mãe, que tinha problemas de socialização, que era pouco culta, a tornar-se mais interessada pelo mundo que a rodeia ainda que o seu interesse estivesse muito ligado aos animais. O final foi surpreendente para mim, mas gostava que estivesse mais explorado.
Apesar de tudo isto, não tenho qualquer vontade de ler mais livros da Joana Bértholo. Reconheço-lhe o mérito e gosto de como escreve, mas as histórias em si não me dizem grande coisa (ou nada).
estava extremamente curiosa para conhecer a escrita de Joana Bértholo e penso que este pequeno livro de contos que escolhi, foi a melhor maneira.
este tipo de escrita é sempre aquele que tenho mais “receio” de encontrar nos autores portugueses. é preciso atenção, cuidado, uma observação mais profunda, porque muito é dito nas entrelinhas.
posto isto, posso confirmar que gostei muito. com uma capa linda e com uma mensagem forte.
é incrível quando livros tão pequenos conseguem deixar uma marca, levar o leitor a refletir, sair do modo automático, parar e realmente pensar nas decisões que tomamos diariamente.
nestas 60 páginas +-, seguimos a personagem principal que se vai deparar com muitas questões: direitos dos animais, uma ligação muito forte à natureza, ao abrandamento.. mas nada me preparava para o final, muito bem conseguido. apanhou-me totalmente desprevenida e fez-me até voltar às primeiras páginas para depois fazer tudo muito mais sentido!
foi uma boa surpresa e vou querer seguir para outros livros da autora.
"Alguma árvore sobreviverá ao dia em que se extingam as nomenclaturas. Quando eu, sem fronteira com o que me rodeia, nunca mais me sentir só."
🌿 Ontem, na conversa entre @os_livros_da_lena e a escritora @joanabertholo, surgiu uma ideia que já me acossou já várias vezes. Se todos os seres humanos se extinguissem, o Planeta continuaria a existir. Simples.
🌿 Este é um pequeno grande livro, o que já foi aqui dito inúmeras vezes, que nos coloca no nosso devido lugar.
🌿 Como se costuma dizer agora: impactante. Ou seja, fica a reverberar cá dentro.
Um livro tão pequeno mas que consegue dizer-nos tanta coisa. Não se pode falar dele sem se dizer tudo o que nele se passa, portanto o melhor é não dizer nada. Mas deixo-vos aqui algumas dicas: re-descoberta pessoal, ligação com a natureza, ligação connosco próprios e com os outros…empatia! Acho que esta última palavra foi das que mais me ficou com este pequeno, grande livro. E que falta que faz, cada vez mais na nossa sociedade, este sentimento que é a empatia pelo próximo.
Sendo que foi a minha estreia com a autora, após ter ouvido falar tanto dela aqui pelo bookstagram, comecei com o pé direito e tenho a dizer que quero ler tudo dela.
Foi a minha estreia com a Joana Bértholo. Já tive vontade de ler o Ecologia, mas nunca lhe cheguei a pegar. Depois de ler este conto, o Ecologia vai mesmo para a minha lista de livro que tenho de ler. Adorei mesmo este conto!! Uma escrita que cativa e uma história que surpreende.
Um conto pequeno, mas bonito. Uma perspectiva interessante e diferente sobre a dicotomia natureza/cidade, apresentada por uma narradora num processo de (re)descoberta de si própria através da leitura e da observação do mundo que a rodeia.
A escrita de Joana Bértholo é sublime! Li o Ecologia, que se tornou dos meus livros preferidos, e queria muito ler mais dela. Surgiu o Natureza Urbana e fiquei novamente fascinada pela forma como ela se expressa. No bom sentido, parece que brinca com as palavras, sabendo exatamente quais e de que forma as usar para nos tocar e, de repente, deixa-nos com frases lindas e cheias de significado. Tem também uma facilidade surpreendente em partir do simples para o mais complexo e este conto é um excelente exemplo disso mesmo.
A história, contada na primeira pessoa, tem um ritmo cativante e traz-nos reflexões que achei muito interessantes. Gostei sobretudo da forma como nos convida a prestar atenção ao que nos rodeia, olhando para a Natureza Urbana com outras lentes, mas não fica por aqui, transmitindo outras mensagens importantes. Vale a pena ler!
Não resisto em deixar aqui dois excertos:
— Não encontrava diferença substancial entre a matéria de que era composta a minha ideia de campo, de natureza, e as diferentes matérias que compunham a cidade. Não era difícil encontrar em meu redor madeira, pedra, palha, diferentes materiais. Os materiais que elevam os edifícios são também eles compostos de argila, calcário, água. O tapete por onde rolam os veiculos é tecido com diferentes minerais e petróleo. A cidade, no fundo, era apenas o campo reordenado de uma maneira que nos parecia humana, ou artificial, mas não deixava de ser essencialmente natural.
— Queria ter-lhe dito que o amor ao não-humano não é sintoma de misantropia, é apenas uma extensão da função humana de amar, um reconhecimento de que somos uma pequena parte na escala maior das coisas. (...) Queria ter-lhe dito isto: "os nossos companheiros de outras espécies".
Nas primeiras 20 páginas desse livro já soube que ele se tornaria um favorito. A vida da protagonista sem nome sofre mudanças drásticas quando ela perde, ao mesmo tempo, a mãe e o emprego. Vai percebendo que mesmo morta, as palavras de sua mãe continuam vivas e falam através dela. Joana Bértholo nos traz uma perspectiva de desnaturalização da vida contemporânea e questiona temas como a temporalidade, o saber, as relações, o trabalho, a liberdade, a relação dos humanos com a natureza e sobretudo com os animais. Terminei o livro já querendo relê-lo e ler tudo o que Joana já escreveu.
"A verdade é que gosto de falar. Gosto de frases em goiva que abrem sulcos no silêncio para a passagem de palavras imprevistas, que atrás trazem outras, num alinhavar de espanto. [...]. Havia sempre um momento em que da minha boca saía uma formulação absolutamente nova - era quase como ter um amigo."
há uns tempos sonhei que lia um livro da Joana Bértholo e adorava a experiência; acho que foi uma maneira de o meu subconsciente me dizer que deveria passar dos sonhos à realidade. ler este conto era tudo o que eu precisava e não sabia! uma excelente leitura. um conto onde se vislumbra claramente a beleza da escrita da autora.
«se é verdade que aprendi a sentir o tempo livre como uma benção, também é certo que um sentimento de estranheza me invadiu. havia um obstáculo: eu desconhecia-me profundamente. não saberia o que fazer de mim, nem o que queria.»
Livro pequeno com 60 páginas mas com uma imensidão de vocabulário rico e uma escrita inteligente e envolvente. Trata-se de um conto intenso e de personagem. A narradora responde a pergunta como vim aqui parar ? E leva-nos numa jornada intensa pelo que sente e passou . Amei a forma incisiva e directa como a autora escreve. Quero ler tudo desta autora! Bravo 👏
Este livro fala sobre perda, o luto, descoberta, o ganho e a satisfação. Incrível como um livro pequeno ao qual em seu 30% eu não dei nada por ele, mas que ao ler as páginas seguintes consegui me colocar profundamente na personagem, ela sou eu! Estou exatamente no mesmo processo, estou de luto. Mas como poderia eu estar de luto, continuo sorrindo, meus amigos, minha família continua viva e bem, mas eu perdi algo, o que será que foi? Bom, para a personagem foram seus anos de vida cuidando da própria mãe que estava com uma doença crônica grave. Mas concomitantemente a personagem eu me vi pensando sobre as minhas perdas, algumas delas sobre minha total influencia e outras apenas pelo tempo que levou, me entristece muito com o que eu perdi, mas ao me ver assim me faz querer chorar e seguir em frente. Eu amo o que eu perdi, mas entendo as necessidades e o próprio desmanche pelo vento do tempo. Só espero que o vento cruzem os caminhos de novo. Enquanto isso não ocorrer, descobrirei mais sobre mim, e viverei os meus próprios sonhos. Antes que eu os perca da mesma forma que perdi as outras coisas de mim.
Joana Bértholo, é indubitavelmente uma das melhores escritoras portuguesas da actualidade. Das obras de maior fôlego, aos contos mais singelos é garantia de uma companhia e tempo bem passado, com apontamentos que são impossíveis de não louvar… É uma pequena Eneida (no sentido de um percurso, de uma tentativa de aprendizagem e superação), não clássica, mas urbana… Haveria muito que poderia aqui dizer, mas é melhor ler…
Tão pequeno mas ao mesmo tempo grandioso, poético e essencial.
“De todas as formas de pobreza, era a ignorância a que mais me pesava. Até das coisas que sabia duvidava que estivessem certas. Em que ponto da aprendizagem já não se dúvida do que se sabe ?
(…)
Porque motivo decidimos amar cães, gatos e periquitos; aniquilar baratas e mosquitos; comer porcos e coelhos; vestir-nos com vacas e ovelhas, era produto de uma lógica que cessou de ser questionada em mim”
Joana Bértholo faz parte, no meu imaginário, de um grupo de “autores que devem ser mesmo, mesmo bons, mas que nunca li, por isso não tenho a certeza”. E porque nunca li nada desta autora? Ora, porque acho que tem uma cara muito simpática, e tinha medo de me desapontar e ver-me forçada de a destituir desse grupo de gente que acarinho sem saber muito bem porquê. Sim, sou complicada.
Então, depois de no Book 2.o ter ouvido a @filipafonsecasilva mandar a malta sacar uma autora nacional nunca lida da pilha de leituras, achei que só me ficava bem obedecer. Como estava em Lisboa e não tinha a minha pilha à mão, aproveitei a feira do livro de Belém e este pequenino “Natureza Urbana” veio para casa comigo (este e mais um monte deles, que comprar livros é terapêutico).
Terminada a leitura (é um conto relativamente pequeno), pergunto-me como é que Bértholo conseguiu. Como é possível escavar tamanha profundidade de espírito, tamanha variedade de tópicos, em tão poucas páginas. Li o livro com mais calma do que antecipei. Ao contrário de uma leitura compulsiva, estiquei a história desta mulher que poderia ser eu ao longo de semanas e, a cada meia dúzia de páginas, deixei-me saborear o que li, contemplar o estranho que me suscitou, ou o reconhecimento que ali encontrei.
Este texto ramificou pelo meu imaginário, espalho raízes tortuosas por contextos inesperados e passou a habitar-me. Sei que incorporei ideias, imagens e teses que nasceram aqui, nestas poucas palavras.
Como temia, Bértholo abandonou o grupo de “autores que devem ser mesmo, mesmo bons, mas que nunca li, por isso não tenho a certeza. Está agora refém do conjunto de “autores que posso ler em qualquer altura porque não vão desapontar e comprar livros dos mesmos nunca será mau investimento”. Felizmente, tenho mais duas obras da autora nas estantes. Dias felizes.
“ A cidade, no fundo, era apenas o campo reordenadode uma maneira que nos parecia humana, ou artificial ,mas não deixava de ser essencialmente natural” in Natureza Urbana