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A Prateleira do Amor: Sobre Mulheres, Homens e Relações
Por que a queixa na esfera amorosa é uma constante na vida das mulheres, mesmo entre aquelas que estão solteiras? Por que a "beleza" é ressentida como um capital tão importante? E por que é tão comum mulheres "adotarem" seus parceiros, cuidando deles, por eles e para eles? E quanto aos por que não apenas evitam a experiência amorosa, como também são ridicularizados quando se apaixonam? Por que o trabalho ocupa um lugar tão central em suas vidas, assim como a sexualidade ativa, marcada sobretudo pela ideia de quantidade ("quantas comeu?")?. Para explicar essas questões, relacionadas às hierarquias de gênero, Valeska Zanello propõe a metáfora da prateleira do amor. A imagem da prateleira explicita a profunda diferença qualitativa e de investimento que o amor romântico tem para mulheres e homens. Para elas, trata-se de algo identitário, motivo pelo qual persistem mesmo em relações abusivas. Para eles, trata-se de fonte inesgotável de lucro afetivo.
- GenresNonfictionFeminism
109 pages, Kindle Edition
Published March 29, 2023
Ratings & Reviews
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Community Reviews
Displaying 1 - 30 of 136 reviews
July 9, 2024
É um livro que dá para ler de uma sentada só e que levanta discussões bastante relevantes, mas, infelizmente, não posso dizer que foi um livro que me agregou muita coisa. Talvez tenha sido o propósito dele, que é mesmo ser mais rápido e, consequentemente, com menos aprofundamento; talvez seja por eu já ser uma pessoa com uma leitura de mundo mais atenta às questões dos papéis femininos e das relações, mas o fato é que não é exatamente um livro que eu recomendaria às pessoas dos meus círculos. Um ponto positivo é que o estilo, ao contrário do outro livro da autora ("Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação"), é mais fluido e acessível a um público maior.
September 21, 2025
Como boa parte das mulheres brasileiras, conheci a Valeska Zanello durante a pandemia com seus videos maravilhosos no YouTube e a disponibilização gratuita de Saúde Mental, Gênero e Dispositivos. Mais tarde comprei a edição física que está toda anotada e recomendo como um dos 10 mais fundamentais livros de psicologia para serem lidos.
Dito isso, ainda não tinha lido esse livrinho que a Zanello lançou como um resumão da sua obra-prima, mas é uma ótima opção como leitura rápida para não perdermos de vista o que acontece na vida e na clínica, se não der para ler Saúde Mental, Gênero e Dispositivos uma vez ao ano, pelo menos temos A prateleira do Amor para nos colocarmos de volta aos trilhos. Só leiam Zanello sempre.
Dito isso, ainda não tinha lido esse livrinho que a Zanello lançou como um resumão da sua obra-prima, mas é uma ótima opção como leitura rápida para não perdermos de vista o que acontece na vida e na clínica, se não der para ler Saúde Mental, Gênero e Dispositivos uma vez ao ano, pelo menos temos A prateleira do Amor para nos colocarmos de volta aos trilhos. Só leiam Zanello sempre.
May 6, 2023
Um livro que deveria ser leitura obrigatória no ensino medio, pela relevância do tema e facilidade de le-lo. No entanto, por ja ter lido alguns relevantes livros feministas e por ja ter escutado entrevistas da Valeska, senti que o livro adicionou poucos conceitos novos.
August 4, 2023
É um livreto que se propõe a ser um resumo do trabalho da Profª Drª Valeska. É uma ótima fonte de referências, achei bem legal ter QR codes para videos na internet, por exemplo. Tem muita auto-referencia também, mas eu não sei dizer o quão avant-garde é a pesquisa dela (e, bem, é um resumo do trabalho dela afinal de contas). É um bom ponto de início para uma pessoa minimamente interessada no assunto, mas devo reforçar que esse mínimo de interesse tem que existir: Valeska é uma pesquisadora, e como tal é muito difícil escapar do texto acadêmico em alguns momentos.
April 16, 2025
Excelente como obra introdutória de letramento de gênero (para todos os gêneros, inclusive). Pra mim essa obra tem o mesmo estilo do "Pequeno Manual Antirracista" da Djamila Ribeiro, ambos são livros curtinhos, que trazem conceitos básicos e essenciais sobre o tema proposto pra quem tá começando a ler sobre o assunto, ampliando assim o acesso a esse tipo de informação tão importante.
Pra quem já lê sobre temas como letramento de gênero, feminismo, racismo e saúde mental, esses livros não agregam tanto conhecimento, mas funcionam como um excelente lembrete de dados e argumentos importantes. E além disso, esse livro traz nele a teoria da autora chamada Prateleira do Amor que é super interessante!
O livro é dividido em 4 partes, a primeira é mais técnica e pouco cativante, mas vale a pena seguir, as outras 3 partes são bem mais fluidas e diretas.
Como a própria autora explica numa parte do livro, o intuito dela nessa obra é levar informação mais simples e direta, resumindo um outro livro dela publicado anteriormente que é mais técnico e mais completo. Segundo ela o objetivo é ajudar o movimento de letramento de gênero a se expandir, o que acredito que foi atingido com maestria.
Pra quem já lê sobre temas como letramento de gênero, feminismo, racismo e saúde mental, esses livros não agregam tanto conhecimento, mas funcionam como um excelente lembrete de dados e argumentos importantes. E além disso, esse livro traz nele a teoria da autora chamada Prateleira do Amor que é super interessante!
O livro é dividido em 4 partes, a primeira é mais técnica e pouco cativante, mas vale a pena seguir, as outras 3 partes são bem mais fluidas e diretas.
Como a própria autora explica numa parte do livro, o intuito dela nessa obra é levar informação mais simples e direta, resumindo um outro livro dela publicado anteriormente que é mais técnico e mais completo. Segundo ela o objetivo é ajudar o movimento de letramento de gênero a se expandir, o que acredito que foi atingido com maestria.
March 21, 2023
Livrinho muito bom para quem não está familiarizado com leituras feministas e letramento de gênero, mas bastante superficial para quem está. No entanto, acho que cumpriu bem a proposta de jogar luz no caminho de quem está por fora desses debates com muita didática.
October 14, 2024
Deveria ser leitura obrigatória pra toda mulher.
May 10, 2025
Livro raso. Simplista. Aborda um tema tão caro e importante de forma resumida e com zero aprofundamento e ineditismo.
Pobre das árvores usadas para imprimir isso.
Pobre das árvores usadas para imprimir isso.
July 9, 2025
livrinho que é um LIVRAÇO (nem é esse o aumentativo de livro).
li no caminho do trabalho e terminei em casa, são 150 páginas de muita informação mas que é colocada que maneira tão clara que é extremamente fácil de ler e entender. aliás, todo mundo deveria ler!!!
apesar de toda a tese dela ser essa ideia da prateleira do amor, eu acho que esse livreto (que é um resumo da pesquisa dela) aborda muito mais do que isso e resumir esse livro como essa ideia somente pra miiim é muito pouco. mas quem sou eu pra dizer algo né
amei a recomendação da lelinha 🤲🏼💖
li no caminho do trabalho e terminei em casa, são 150 páginas de muita informação mas que é colocada que maneira tão clara que é extremamente fácil de ler e entender. aliás, todo mundo deveria ler!!!
apesar de toda a tese dela ser essa ideia da prateleira do amor, eu acho que esse livreto (que é um resumo da pesquisa dela) aborda muito mais do que isso e resumir esse livro como essa ideia somente pra miiim é muito pouco. mas quem sou eu pra dizer algo né
amei a recomendação da lelinha 🤲🏼💖
July 30, 2025
Livreto. Não aprofunda em nenhum assunto. Acho que é um bom livro para entender, minimamente, a ideologia de Zanello. É quase um resumão de outros livros dela. Vale a pena, pra quem quer conhecer a autora. Mas talvez não seja tão útil para quem deseja se aprofundar nas temáticas.
March 15, 2025
leitura obrigatória!!!
May 10, 2023
Minha opinião: Livro-resumo de um trabalho maior, mas com redação pouco cativante até quase a página 100. Depois o texto toma um rumo melhor, com informações importantes e abordagem mais atraente. Agreguei conhecimentos bons na leitura, mas com prazer deficitário.
OBS: Sempre me questiono se autores de teses ou artigos não necessariamente podem não vir a ser autores de livros interessantes, alguns poucos conseguem essa boa flexibilidade.
OBS: Sempre me questiono se autores de teses ou artigos não necessariamente podem não vir a ser autores de livros interessantes, alguns poucos conseguem essa boa flexibilidade.
October 19, 2023
Livro que escolhi pra iniciar um novo momento profissional.
A capacidade da Valeska Zanello de articular conceitos e categorias de forma acessível é muito admirável, assim como o cuidado dela em reconhecer os marcadores sociais.
A discussão sobre dispositivo amoroso é particulmanete interessante e, certamente, vai ser uma lente pra enxergar produções cultorais a partir de agora.
A capacidade da Valeska Zanello de articular conceitos e categorias de forma acessível é muito admirável, assim como o cuidado dela em reconhecer os marcadores sociais.
A discussão sobre dispositivo amoroso é particulmanete interessante e, certamente, vai ser uma lente pra enxergar produções cultorais a partir de agora.
December 10, 2024
muito bom, didático e simples de entender. recomendo!
January 27, 2026
Como outras resenhas dizem, é um sumário bem básico do «Saúde mental, gênero e dispositivos». A autora é bem directa ao ponto e quem tenha lido seu livro maior não tira muito de novo desse. De todo modo, é um material eficaz quer de introducção, quer de revisão (li-o com esse último fim). A secção de referências é decerto um dos pontos altos do livro, assim como no outro da autora. Para quem não tem muito estudo formal nessa área, dá para encontrar uns materiais interessantes de que ir atrás (tem sido meu caso).
Um ponto que me chamou atenção foi o seu uso inicial da hipótese Sapir-Whörf para argumentar que a linguagem medeia nosso acesso aos objectos. Pareceu-me um comprometimento epistemológico não tão necessário com uma hipótese de aporte empírico duvidoso como base de uma afirmação que, no fim, nem precisa dela tanto assim (no caso, a de que a linguagem participa da nossa interpretação/percepção dos objectos). Mas nem vou ficar enchendo-me com isso, também. É um detalhe. E é compreensível por que a autora utilizaria dessa hipótese, mesmo que pouco corroborada, como início da sua argumentação de que as supostas «diferenças inerentes de sexo», se são realmente diferenças por um lado, também são ressaltadas e utilizadas de modo bem delimitado culturalmente, por outro (ex.: salientar diferenças em vez de semelhanças, em primeiro lugar; ou demarcar quais diferenças são relevantes, quando, e como).
February 15, 2025
O livro contempla diversas teorias para a construção do pensamento feminista moderno e discorre sobre a teoria da “prateleira do amor” desenvolvida pela autora.
É um livro introdutório que busca apresentar o feminismo de forma tangível para pessoas não familiarizadas com o movimento.
Por isso, é natural que um dos pontos negativos do livro seja a sua superficialidade sobre a discussão de alguns temas, como o racismo, classismo, etc.
Outra questão de incômodo, é a redutibilidade de alguns tipos de violência ao machismo; não necessariamente abordando a interseccionalidade de comportamentos que desencadeiam uma violência de gênero.
Sobre a prateleira do amor, é uma análise interessante sobre o sistema de objetificação das mulheres, mas a autora se restringe a abordar somente um capítulo sobre o tema. Então por que intitular o livro desta forma?
De todo modo é um convite ao leitor que se aprofunde no tema posteriormente.
É um livro introdutório que busca apresentar o feminismo de forma tangível para pessoas não familiarizadas com o movimento.
Por isso, é natural que um dos pontos negativos do livro seja a sua superficialidade sobre a discussão de alguns temas, como o racismo, classismo, etc.
Outra questão de incômodo, é a redutibilidade de alguns tipos de violência ao machismo; não necessariamente abordando a interseccionalidade de comportamentos que desencadeiam uma violência de gênero.
Sobre a prateleira do amor, é uma análise interessante sobre o sistema de objetificação das mulheres, mas a autora se restringe a abordar somente um capítulo sobre o tema. Então por que intitular o livro desta forma?
De todo modo é um convite ao leitor que se aprofunde no tema posteriormente.
September 23, 2023
Leitura obrigatória! Já acompanhava fazia um tempo o trabalho da Valeska pelas redes sociais e estava louca pra ler esse livro! Finalmente li e posso dizer que valeu muito a pena. Letramento de gênero acessível e de fácil entendimento.
June 13, 2025
um livro muito simples mas muito importante para entender os dispositivos de gênero, principalmente no momento tenebroso que estamos vivendo com a onda de conservadorismo, café com teu pai, redpills, incéis e afins
May 11, 2025
É um livro bom para quem está iniciando os estudos sobre feminismo. É bem didático, com indicações de vídeos e usa exemplos simples, desenhos, filmes e metáforas fáceis de entender. Parece o resumo de uma palestra da autora, para iniciar o tema
May 17, 2025
ótimo livro, só é bem resumido mesmo. mas ótimos apontamentos, um dia quero ler o mais aprofundado.
September 8, 2025
Li porque minha psicóloga me recomendou e amei
January 3, 2026
Acredito que homens e mulheres devam ler esse livro para serem letrados em gênero e entender todos os mecanismos aos quais todos nós somos manipulados a exercer
October 27, 2025
Acho que esse livro precisa ser encarado como o que ele é: uma leitura curta de entrada para introdução de conceitos de letramento de gênero. Para quem já teve contato com literatura feminista, não creio que as ideias apresentada sejam inéditas, mas para quem nunca teve contato e começou a se interessar pelo tema acho uma leitura muitíssimo válida.
February 18, 2026
Essencial !!!
August 18, 2024
leitura bem interessante que resume outra obra da professora Valeska Zanello (Saúde Mental, Gênero e Dispositivos. Cultura e Processos de Subjetivação). ainda quero ler essa outra publicação dela por parecer mais aprofundada, mas no geral acho que esse livro-resumo das ideias já trás muitas questões interessantes! senti só que a discussão acaba sendo muito "heterocentrada"... não houve quase nenhuma menção as possibilidades dessas estruturas que a autora discute serem observadas ou não dentro de casais lésbicos, por exemplo. apesar disso, no geral é uma leitura interessante...
O capitalismo se firmou em cima da divisão sexuada do trabalho e “naturalizou”, invisibilizando, o trabalho de cuidar que atribuiu às mulheres (FEDERICI, 2019a, 2019b). Foi nesse momento histórico que surgiu o discurso do “instinto materno” (BADINTER, 1985). Além disso, o capitalismo também conformou uma separação entre o homem branco (caucasiano europeu), cristão, e outros povos, considerados menos ou não humanos. Essa última diferenciação, baseada em crenças religiosas e, posteriormente, evolucionistas, serviu de base para os processos de exploração e escravização no colonialismo, mundo afora da Europa. O racismo se estabeleceu assim, primeiramente, em bases religiosas e, em um segundo momento, em fundamentos supostamente “científicos” (o “racismo científico”). Esse aspecto é importante, pois racismo e sexismo têm em comum tanto o sistema econômico que os criou, quanto o modus operandis. Em ambos, certas características físicas e fenotípicas serviram de base para justificar as desigualdades de oportunidades, tratamento e direitos (pg. 22)
Firmou- se a ideia de haver qualidades consideradas femininas, tais como doçura, passividade, disponibilidade e prontidão para cuidar e pensar nos outros, maternidade, relacionadas às mulheres; e outras, tais como ambição, força, virilidade, sexualidade, capacidade para o trabalho e para a política, relacionadas aos homens. Fazer uma leitura interseccional dessas qualidades é fundamental. Por exemplo, enquanto se espera servidão, subserviência e disponibilidade em ajudar os outros de mulheres em geral, essa expectativa é ainda maior em relação às mulheres negras. (pg. 23)
Para Butler (1990), gênero é, portanto, uma repetição estilizada de performances, que de tanto serem repetidas criam uma sensação de identidade e estabilidade para o sujeito. Porém, além de performance, gênero também aponta para uma configuração de emocionalidades (ZANELLO, 2018). Com isso, queremos apontar que as emoções, assim como os comportamentos, são aprendidas, mediadas pela cultura. (pg. 27)
E para os meninos/ homens? A principal tecnologia de gênero hoje presente nos processos de hombrificação (tornar- se homem de uma determinada forma) é a pornografia. Se antes ela se restringia a revistas compradas em bancas, hoje ela permeia a vida cotidiana, pela internet, facilmente acessada por meninos de tenra idade. O problema da pornografia não é moral, mas sobretudo o tipo de emocionalidade que ela incita como “prova de masculinidade”. O que se aprende é a objetificação sexual, como modo de ser e estar no mundo. (pg. 32)
O “binarismo estratégico” aponta para a adoção do binarismo como ferramenta para compreender e interpretar os fenômenos psíquicos e sociais em uma sociedade que ainda funciona no binarismo homem- mulher, porém reconhecendo, de forma crítica, que esse par não representa essências e, sim, criações culturais. Em outras palavras: é preciso nomear e compreender o binarismo e seus desdobramentos nas pessoas e na sociedade, para que ele, de fato, possa ser transformado! (pg. 35)
Dizer que as mulheres se subjetivam hoje, em nossa cultura, pelo dispositivo amoroso, implica em dizer que as mulheres se subjetivam em uma relação consigo mesmas mediadas pelo olhar de um homem que as escolha. A metáfora para compreendermos essa ideia é a da “prateleira do amor” (ZANELLO, 2018). (pg. 41)
Sua autoestima é construída e validada pela possibilidade de “ser escolhida” por um homem. Essa prateleira é regida por um ideal estético, o qual vem se construindo desde o começo do século passado e possui a característica de ser branco, louro, jovem e magro. Quanto mais distante desses ideais, maior o impacto sobre a autoestima da mulher e maiores são as chances de se sentir “encalhada” na prateleira, ficando em posições mais desfavoráveis nela. (pg. 42)
Por isso, são tão comuns “piadas” agressivas e bullying usando características físicas das meninas, sobretudo em relação àquelas que se encontram distante desse ideal, principalmente as meninas negras, gordas, com deficiência ou indígenas. Isso faz com que a autoestima das meninas e mulheres acabe sendo construída de forma relacionada à sua aparência, tanto facial, quanto corporal, sendo este um dos aspectos da vulnerabilização marcada pelo gênero. (pg. 42)
De certa forma, os homens em nossa cultura já nascem com a certeza de que serão “amados”, independentemente de qualquer característica física, mental e socioeconômica do homem22. O que pode ocorrer é uma restrição no acesso à variedade de mulheres (na prateleira), quanto mais esse homem se afastar dos ideais do dispositivo da eficácia (como veremos adiante). No entanto, ele estará, de qualquer maneira, em uma posição avantajada em relação às mulheres na prateleira do amor. (pg. 43)
O que faz com que mulheres aceitem qualquer coisa em uma relação não é o amor dedicado a esse ou àquele homem, mas a necessidade de serem escolhidas e validadas como “mulher”. Mulheres que “deram certo”. O dispositivo amoroso é, assim, o fator de maior desempoderamento das mulheres e o maior fator de empoderamento dos homens e de proteção à sua autoestima e ao bem- estar emocional. (pg. 45)
Um exemplo no qual se manifesta esse impacto: na escola, sempre há as meninas que são mais cortejadas pelos meninos, convidadas para sair, ir ao cinema; ou seja, meninas que facilmente têm pretendentes que as “escolhem”, o que pode promover o sentimento de se sentirem “preferidas” e “escolhidas”. Porém, outras meninas sofrem o reverso, ou seja, nunca recebem nenhum convite por parte dos rapazes e vivenciam o sentimento de serem sempre “preteridas”. (pg. 45)
O dispositivo amoroso aponta para o fato de que o amor não é um sentimento espontâneo e apenas individual, e sim uma emocionalidade aprendida e mediada pela cultura. Na nossa cultura, homens aprendem a amar muitas coisas e mulheres aprendem a amar os homens. Por meio do processo de socialização, de várias tecnologias de gênero e pedagogias afetivas, mulheres se tornam amor- centradas e aprendem que seu sucesso como mulher depende de fazer- se ser escolhida por um parceiro/ a e se manter escolhida por ele/ a. (pg. 47)
Mulheres aprendem que o corpo e a beleza são um capital simbólico e matrimonial. No dispositivo amoroso, há uma terceirização da autoestima das meninas e mulheres, as quais aprendem que elas só são desejáveis se tiverem alguém as desejando. (pg. 48)
Um ponto importante a destacar é que, se essa construção social e histórica trouxe um acúmulo de responsabilidades às mulheres, trouxe, por outro lado, uma espécie de “empoderamento colonizado” (ZANELLO, 2018). Até um século atrás, mulheres não tinham acesso a nenhum direito político e nem eram vistas como “pessoa”, tal como os homens. A maternidade foi um dos primeiros lugares de reconhecimento social, visto que aos Estados interessava o crescimento da população. As mulheres seriam assim as mães das novas gerações, as “educadoras do futuro da nação”. (pg. 53)
É importante destacar que a base do dispositivo materno é o “heterocentramento” (ZANELLO, 2018), ou seja, a forte pedagogia afetiva que meninas atravessam em seu processo de mulherificação: elas aprendem que devem sempre priorizar desejos, necessidades e anseios dos outros, em detrimento dos próprios. O tornar- se homem, no processo de hombrificação, ensina aos meninos, por seu turno, o “egocentramento”, isto é, a priorizarem seus próprios desejos, necessidades e anseios e, somente depois, pensarem nas necessidades dos demais. (pg. 53)
Ser homem, nesse sentindo, é não ser doce, não ser afeminado, não ser submisso... não ser um “viado”, não ser uma “mulherzinha”. A homofobia é central na masculinidade hegemônica e, em seu centro, temos a misoginia, que é o repúdio às mulheres e às qualidades consideradas como femininas (BOURDIEU, 2019; KIMMEL, 2016; ZANELLO, 2018). (pg. 59)
No imaginário popular, o homem gay é entendido como aquele que performa qualidades “femininas” ou que se coloca em um lugar de passividade, supostamente adequado para mulheres. Óbvio que essa leitura é preconceituosa, pois existe uma diversidade de homens gays, com modos de ser bem diferentes. (pg. 60)
O capitalismo se firmou em cima da divisão sexuada do trabalho e “naturalizou”, invisibilizando, o trabalho de cuidar que atribuiu às mulheres (FEDERICI, 2019a, 2019b). Foi nesse momento histórico que surgiu o discurso do “instinto materno” (BADINTER, 1985). Além disso, o capitalismo também conformou uma separação entre o homem branco (caucasiano europeu), cristão, e outros povos, considerados menos ou não humanos. Essa última diferenciação, baseada em crenças religiosas e, posteriormente, evolucionistas, serviu de base para os processos de exploração e escravização no colonialismo, mundo afora da Europa. O racismo se estabeleceu assim, primeiramente, em bases religiosas e, em um segundo momento, em fundamentos supostamente “científicos” (o “racismo científico”). Esse aspecto é importante, pois racismo e sexismo têm em comum tanto o sistema econômico que os criou, quanto o modus operandis. Em ambos, certas características físicas e fenotípicas serviram de base para justificar as desigualdades de oportunidades, tratamento e direitos (pg. 22)
Firmou- se a ideia de haver qualidades consideradas femininas, tais como doçura, passividade, disponibilidade e prontidão para cuidar e pensar nos outros, maternidade, relacionadas às mulheres; e outras, tais como ambição, força, virilidade, sexualidade, capacidade para o trabalho e para a política, relacionadas aos homens. Fazer uma leitura interseccional dessas qualidades é fundamental. Por exemplo, enquanto se espera servidão, subserviência e disponibilidade em ajudar os outros de mulheres em geral, essa expectativa é ainda maior em relação às mulheres negras. (pg. 23)
Para Butler (1990), gênero é, portanto, uma repetição estilizada de performances, que de tanto serem repetidas criam uma sensação de identidade e estabilidade para o sujeito. Porém, além de performance, gênero também aponta para uma configuração de emocionalidades (ZANELLO, 2018). Com isso, queremos apontar que as emoções, assim como os comportamentos, são aprendidas, mediadas pela cultura. (pg. 27)
E para os meninos/ homens? A principal tecnologia de gênero hoje presente nos processos de hombrificação (tornar- se homem de uma determinada forma) é a pornografia. Se antes ela se restringia a revistas compradas em bancas, hoje ela permeia a vida cotidiana, pela internet, facilmente acessada por meninos de tenra idade. O problema da pornografia não é moral, mas sobretudo o tipo de emocionalidade que ela incita como “prova de masculinidade”. O que se aprende é a objetificação sexual, como modo de ser e estar no mundo. (pg. 32)
O “binarismo estratégico” aponta para a adoção do binarismo como ferramenta para compreender e interpretar os fenômenos psíquicos e sociais em uma sociedade que ainda funciona no binarismo homem- mulher, porém reconhecendo, de forma crítica, que esse par não representa essências e, sim, criações culturais. Em outras palavras: é preciso nomear e compreender o binarismo e seus desdobramentos nas pessoas e na sociedade, para que ele, de fato, possa ser transformado! (pg. 35)
Dizer que as mulheres se subjetivam hoje, em nossa cultura, pelo dispositivo amoroso, implica em dizer que as mulheres se subjetivam em uma relação consigo mesmas mediadas pelo olhar de um homem que as escolha. A metáfora para compreendermos essa ideia é a da “prateleira do amor” (ZANELLO, 2018). (pg. 41)
Sua autoestima é construída e validada pela possibilidade de “ser escolhida” por um homem. Essa prateleira é regida por um ideal estético, o qual vem se construindo desde o começo do século passado e possui a característica de ser branco, louro, jovem e magro. Quanto mais distante desses ideais, maior o impacto sobre a autoestima da mulher e maiores são as chances de se sentir “encalhada” na prateleira, ficando em posições mais desfavoráveis nela. (pg. 42)
Por isso, são tão comuns “piadas” agressivas e bullying usando características físicas das meninas, sobretudo em relação àquelas que se encontram distante desse ideal, principalmente as meninas negras, gordas, com deficiência ou indígenas. Isso faz com que a autoestima das meninas e mulheres acabe sendo construída de forma relacionada à sua aparência, tanto facial, quanto corporal, sendo este um dos aspectos da vulnerabilização marcada pelo gênero. (pg. 42)
De certa forma, os homens em nossa cultura já nascem com a certeza de que serão “amados”, independentemente de qualquer característica física, mental e socioeconômica do homem22. O que pode ocorrer é uma restrição no acesso à variedade de mulheres (na prateleira), quanto mais esse homem se afastar dos ideais do dispositivo da eficácia (como veremos adiante). No entanto, ele estará, de qualquer maneira, em uma posição avantajada em relação às mulheres na prateleira do amor. (pg. 43)
O que faz com que mulheres aceitem qualquer coisa em uma relação não é o amor dedicado a esse ou àquele homem, mas a necessidade de serem escolhidas e validadas como “mulher”. Mulheres que “deram certo”. O dispositivo amoroso é, assim, o fator de maior desempoderamento das mulheres e o maior fator de empoderamento dos homens e de proteção à sua autoestima e ao bem- estar emocional. (pg. 45)
Um exemplo no qual se manifesta esse impacto: na escola, sempre há as meninas que são mais cortejadas pelos meninos, convidadas para sair, ir ao cinema; ou seja, meninas que facilmente têm pretendentes que as “escolhem”, o que pode promover o sentimento de se sentirem “preferidas” e “escolhidas”. Porém, outras meninas sofrem o reverso, ou seja, nunca recebem nenhum convite por parte dos rapazes e vivenciam o sentimento de serem sempre “preteridas”. (pg. 45)
O dispositivo amoroso aponta para o fato de que o amor não é um sentimento espontâneo e apenas individual, e sim uma emocionalidade aprendida e mediada pela cultura. Na nossa cultura, homens aprendem a amar muitas coisas e mulheres aprendem a amar os homens. Por meio do processo de socialização, de várias tecnologias de gênero e pedagogias afetivas, mulheres se tornam amor- centradas e aprendem que seu sucesso como mulher depende de fazer- se ser escolhida por um parceiro/ a e se manter escolhida por ele/ a. (pg. 47)
Mulheres aprendem que o corpo e a beleza são um capital simbólico e matrimonial. No dispositivo amoroso, há uma terceirização da autoestima das meninas e mulheres, as quais aprendem que elas só são desejáveis se tiverem alguém as desejando. (pg. 48)
Um ponto importante a destacar é que, se essa construção social e histórica trouxe um acúmulo de responsabilidades às mulheres, trouxe, por outro lado, uma espécie de “empoderamento colonizado” (ZANELLO, 2018). Até um século atrás, mulheres não tinham acesso a nenhum direito político e nem eram vistas como “pessoa”, tal como os homens. A maternidade foi um dos primeiros lugares de reconhecimento social, visto que aos Estados interessava o crescimento da população. As mulheres seriam assim as mães das novas gerações, as “educadoras do futuro da nação”. (pg. 53)
É importante destacar que a base do dispositivo materno é o “heterocentramento” (ZANELLO, 2018), ou seja, a forte pedagogia afetiva que meninas atravessam em seu processo de mulherificação: elas aprendem que devem sempre priorizar desejos, necessidades e anseios dos outros, em detrimento dos próprios. O tornar- se homem, no processo de hombrificação, ensina aos meninos, por seu turno, o “egocentramento”, isto é, a priorizarem seus próprios desejos, necessidades e anseios e, somente depois, pensarem nas necessidades dos demais. (pg. 53)
Ser homem, nesse sentindo, é não ser doce, não ser afeminado, não ser submisso... não ser um “viado”, não ser uma “mulherzinha”. A homofobia é central na masculinidade hegemônica e, em seu centro, temos a misoginia, que é o repúdio às mulheres e às qualidades consideradas como femininas (BOURDIEU, 2019; KIMMEL, 2016; ZANELLO, 2018). (pg. 59)
No imaginário popular, o homem gay é entendido como aquele que performa qualidades “femininas” ou que se coloca em um lugar de passividade, supostamente adequado para mulheres. Óbvio que essa leitura é preconceituosa, pois existe uma diversidade de homens gays, com modos de ser bem diferentes. (pg. 60)
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August 18, 2026
é um livro muito bom pra quem quer se introduzir no assunto
December 7, 2024
Para quem já tem algum letramento de gênero, não é um livro para aprender nada de novo. Ainda assim, Valeska encanta pela simplicidade com a qual explica alguns dos mecanismos do machismo, é a isso que ela se propõe nesta obra. Recomendo a leitura em especial para quem precisa se educar sobre o tema, e vou passar a indicá-lo neste contexto!
August 8, 2025
curtinho, didático e acessível! cumpre muito bem um papel de guia introdutório sobre gênero e feminismo para pessoas que não estão em contato com essas temáticas o tempo inteiro. queria muito ter lido isso na adolescência!
e adorei os qr codes
e adorei os qr codes
December 20, 2023
Livro introdutório para quem quer entender melhor os papéis de gênero dentro da sociedade. Gostei que fala tanto da repressão da mulher quanto do homem. O livro tem algumas ilustrações e links para materiais extra. Vale muito a pena.
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