Shakespeare inspirou a tantos. O rei Lear foi a fonte do enorme, belo e profundo Ran, dirigido por Akira Kurosawa. Do mesmo mesmo, pelo visto parece que os russos do século XIX beberam muito no autor inglês. Lembro, por exemplo, do Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, do Leskov, além de um conto do próprio Turgueniev - Hamlet do Distrito de Schigrí -, e seu famoso ensaio Hamlet e Dom Quixote, que pode ser encontrado sem maiores dificuldades na internet.
O narrador - já um adulto em idade avançada - talvez tenha algo que se assemelha à vida do próprio Turgueniev: lembra de fatos de quando era um adolescente, que passava os dias a caçar sem maiores preocupações na propriedade da mãe, uma personalidade forte e dominadora. Mas não é isso o que é verdadeiramente importante, mas a relação entre pais e filhos, outra questão mais ou menos frequente em suas obras. Aqui um mujique bastante abastado resolve, em um certo momento da vida, (possivelmente assustado com a perspectiva da morte) doar os seus bens para as suas duas filhas. É um mujique que acumulou uma razoável riqueza material, mas que só vai alcançar a sabedoria tarde demais.
Como no Lear original, as coisas não vão bem, e mais ou menos se repete a frustração pelo que fez. O narrador, filho de uma rica proprietária, é um observador do que acontece,
Há tragédia, mas, como em Shakespeare, temperada pelo patético, Diferentemente, porém, a mais resignação aqui.