Um romance sinfónico sobre a Marquesa de Alorna, Leonor de Almeida Portugal, neta dos Marqueses de Távora, uma figura feminina ímpar na história literária e política de Portugal. A grande escritora Maria Teresa Horta, persegue-a e vigia-a nos momentos mais íntimos, atraída pela desmesura de Leonor, no seu permanente conflito entre a razão e a emoção. Acompanha-a no voo de uma paixão, que seduz os espíritos mais cultos da época, o chamado "século das luzes", e abre as portas ao romantismo em Portugal. Um maravilhoso e apaixonante romance sobre a extraordinária e aventurosa vida da Marquesa de Alorna.
Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros was a Portuguese feminist poet, journalist and activist. She is one of the authors of the book Novas Cartas Portuguesas (New Portuguese Letters), together with Maria Isabel Barreno and Maria Velho da Costa. The authors, known as the "Three Marias," were arrested, jailed and prosecuted under Portuguese censorship laws in 1972, during the last years of the Estado Novo dictatorship. The book and their trial inspired protests in Portugal and attracted international attention from European and American women's liberation groups in the years leading up to the Carnation Revolution.
As Luzes de Leonor é um dos livros da minha vida. Eu sou uma fã acérrima da Maria Teresa Horta e tentei ler a versão da Maria João Lopo de Carvalho e desisti. Porque depois de se ler uma MTH é impossível ler a mesma história de uma forma tão fraca a nível de literatura. Pelo que leio nos comentários, as pessoas que não gostam referem-se à falta de mais "factos", pois o que pode faltar em factos (que não conhecendo a história, não posso opinar muito) transcende em poesia. Acho que sinto que a MTH dedicou tantos anos a esta Leonor porque é quase como se ele fosse um alter-ego da escritora, uma das mulheres que foi processada por publicar um livro!!! Esta Leonor é um espelho da poetisa que a retrata com tanto amor e com tanta poesia, é uma homenagem. A mim, sinceramente, atrai-me muito mais a poesia do que a busca pelo retrato de todos os factos, por isso, se realmente é atrás disso que vêm ler esta Marquesa de Alorna, escolhem o livro errado (pelo que vejo nos comentários, reitero que não conheço a história ao ponto de opinar sobre isso). Mas, é uma viagem ao âmago de uma mulher como, infelizmente, ainda há poucas em Portugal, mas felizmente, o nosso país tem uma Maria Teresa Horta, que não deixa esquecer os mais incautos, de que temos ainda muito caminho a percorrer!
(…) Maria Teresa Horta apodera-se desta figura estonteante e não será por acaso que começa a obra com uma citação de Virgínia Woolf, excerto de uma carta que a britânica escreveu à sua musa Vita Sackville-West, a propósito do romance "Orlando. Uma Biografia". Tal como o herói/heroína da tonitruante e encantatória saga de Woolf, também Leonor, pela mão da autora, atravessa o tempo, o espaço, os géneros e as ideias, os sentimentos e as razões, as tendências e as modas, para nos arrastar na vertigem da sua existência, fresca e audaz, sábia e veemente. A Ciência ensinou-nos que a fita caprichosa do nosso ADN se desenrola, geração após geração, numa alucinante viagem que continua "ad infinitum" e Leonor de Almeida está bem viva nestas páginas, resgatada do esquecimento pela sua descendente, a autora, que não se limita a descrever factos mas parece, isso sim, ter ocupado o espaço físico e mental da sua ilustre parente. Acompanhamo-la, e a todos que em torno dela gravitam, desde a infância até à idade avançada, seguimo-la nos estudos, nas múltiplas leitura, nas viagens atribuladas, no êxtase dos prazeres carnais, nos esforços diplomáticos, nos dramas familiares, no fulgor dos salões e das cortes (Viena, Paris, Londres, Lisboa). Ouvimos os cascos dos cavalos, o roçagar dos vestidos, os suspiros apaixonados, os gritos nos partos, os murmúrios conspiratórios; chegam-nos com intensidade os odores dos corpos, dos cozinhados, das ruas, das estradas, dos perfumes, das velas, das alcovas. E observamos a evolução e construção de uma personalidade única, livre, independente de espírito, resistente à adversidade, filha, mãe, mulher, amante, poeta, intelectual. Maria Teresa Horta vai desenrolando a narrativa em elipses, sem particular rigor cronológico, voltando sempre a Leonor (o íman), recriando com abandono e franqueza os arroubos das "coisas da carne", desse "invólucro mortal" de que fala Shakespeare, que englobam as delícias do erotismo e os incómodos muito humanos dos fluidos e excreções. (…)
Artigo “Leonor atravessa o Tempo” de Helena Vasconcelos, IN Público (15/06/2011)
Comecei este livro com um grande entusiasmo: Leonor de Almeida, a Marquesa de Alorna é uma figura mítica do conturbado período da Revolução Francesa, uma mulher culta e decidida que não tinha medo de ninguém e se cultivava como um homem, lendo tudo o que podia. Poetisa, pintora, mãe de oito filhos, viajou pela Europa e em toda a parte onde estava fazia sucesso com a sua personalidade cativante e os seus poemas. Um romance baseado na vida dela, escrito por Maria Teresa Horta, só podia ser uma festa para a cabeça e o coração. Além disso a escritora pesquisou durante dez anos, portanto teria de certeza muitos pormenores históricos intelessantes, até mesmo revelações. Ataquei as mil e cinquenta páginas com afinco, à espera de uma versão romanceada mais muito pormenorizada da mulher e dos ambientes entre o Marquês de Pombal e o Portugal Liberal, passando pelas invasões napoleónicas. MTH escreve como uma poetisa. A prosa lê-se como poesia, interecalada com poesias da Marquesa, e ao princípio é uma viajem entrar naqueles salões de intelectuais que já pensavam à frente do seu tempo, misturados com a nobreza mais reacionária. Mas depois começa a repetir-se, e os poemas em prosa são muito bonitos mas dão mais uma perspectiva do que a autora sente do que dos acontecimentos. Apesar da vida da Alorna ser uma sucessão de aventuras, MTH consegue transformá-la num poema bastante repetitivo, em que as situações se parecem, ou pelo menos são sempre descritas da mesma maneira, com as mesmas palavras. Mas o mais frustrante é que as mil e tal páginas, que poderiam ser cortadas pela metade sem prejuízo do conteúdo ou do clima, não chegam! O livro acaba de repente em 1803, quando Leonor é expulsa para Espanha, sem mais nada dizer das décadas seguintes em que tanta coisa aconteceu e tanto ela viveu. Não dá uma nota sequer, por exemplo, de como o seu arqui-inimigo Pina Manique foi afastado da corte. Não relata, nem menciona, o que a terá levado a participar no assassinato do seu amante Forrestier em Inglaterra. Como se MTH se tivesse cansado de escrever e desistisse de continuar a contar - ou a versar sobre a marquesa. Muita coisa da biografia fica por se saber, e muito menos explicar. A frustração é enorme... É verdade que o livro é um romance e não uma biografia, mas uma vez que se trata de uma figura histórica, bastante bem documentada, é estranho que a narrativa acabe de repente quando a sua vida ainda prosseguirá mais trinta anos. Isabel ainda viveria até 1839, e continou a ter um papel importante nas letras durante o liberalismo, sempre recebida por reis e príncipes. Como terá conseguido passar de aia da infame Carlota Joaquina para a querida dos liberais? Tal como as outras pessoas informadas da sua época, há-de ter tido bastante trabalho a conciliar o reacionarismo da sua educação e a parolice da corte portuguesa com as novas ideias de igualdade dos homes e mulheres, num fundo de conflito violento. Tudo isso fica de fora. Talvez MTH estefa a preparar outro volume de mil pátinas para contar o resto e, quiçá, chegar a uma conclusão sobre a Marquesa.
Maravilhosa esta obra da Maria Teresa Horta. Confesso que tenho muita pouca paciência para romances históricos, na sua maior parte mal escritos, desinteressantes e sem qualidade nenhuma. Mas estas"Luzes de Leonor" são de uma qualidade extraordinária, desde a recriação do interior de Leonor de Almeida, condessa de Oeynhausen, passando pelo rigor da sua biografia ligeiramente romanceada e pelas fabulosas descrições dos ambientes políticos, culturais, sociais e religiosos do Portugal do Séc XVIII. Aconselho vivamente este livro.
É preciso ter fôlego para escrever uma coisa destas. treze anos de investigação... mais que uma tese de doutoramento. é uma verdadeira paixão, obcessão. Foi isso que me chamou a atenção, logo pela espessura da lombada. É preciso ter fôlego para ler uma coisa destas. Após a leitura da sua Poesia Reunida, achei que estava pronta para esta empreitada. Não é uma leitura difícil, muito pelo contrário, flui rapidamente apesar da letra miudinha e das longas páginas. Os capítulos dividem-se ao ritmo de aproximadamente um por ano, sempre precedidos de um poema, a história do julgamento dos Távora e uma parte de memórias. Eu dispensava alguns pormenores descritivos e intrigas desinteressantes, mas a verdade é que a autora consegue ambientar-me no tempo, através dos cheiros, das cores, das texturas, dos sons e dos sabores, criando um festival de sentidos. Senti alguma falta de poesia e cartas autênticas da personagem, sendo um livro baseado em acontecimentos reais, esperava encontrar mais documentos, gostava de ver a caligrafia reproduzida, bem como imagens daquele tempo. Creio que uma obra destas merecia ser divida em vários volumes de modo a ser mais facilmente transportável. Não é fácil andar com um calhamaço destes atrás, mas deu-me imenso jeito para as minhas sessões de yoga. Agora estou a usar um dicionário, mas não é a mesma coisa. O melhor deste trabalho para mim é mesmo a poesia da autora, que escorre entre a prosa e se revela em cada frase. Não partilho da mesma paixão da autora pela personagem, acho que era uma mulher bastante interessante e ousada para o seu tempo, mas não lhe admiro a insensatez e egoismo. Claro que é muito fácil para mim estar aqui a criticá-la, mais de dois séculos depois, apenas por o que li. Mas foi a ideia com que fiquei. Hoje em dia ela seria talvez uma tia de esquerda, feminista radical, assumidamente bissexual e sem filhos, com uma brilhante carreira na política. Ou então não. Fiquei com vontade de ler mais romances históricos desta época e mais prosa da autora. Gostei da viagem, da profundidade.
Este livro é uma obra de arte. Um daqueles livros que sabemos, quando o terminamos, que leremos muito poucos que se equiparem a este. A autora levou treze anos para produzir este livro. Conseguem imaginar?
Não costumo ler romances históricos, no entanto, este livro sempre me despertou curiosidade. Precisei de alguma coragem para o começar a ler, as suas mais de mil páginas com letras pequenas são sem dúvida intimidantes... mas valem totalmente a pena. A escrita da Maria Teresa Horta é muito rica e lindíssima. Dá vontade de marcar passagens em quase todas as páginas. Dificilmente se sai desta leitura sem se ficar "apaixonada" pela Leonor de Almeida, sem querer saber mais sobre ela e todos os que a rodeiam. Este livro fez-me adicionar mais uns quantos à lista de livros que quero ler e, sem dúvida, abriu a porta para que leia mais romances históricos e/ou livros que envolvam temáticas semelhantes mas sei que será difícil encontrar algum semelhante a este. Este livro acompanhou-me por mais de um mês, onde nunca me senti cansada, pelo contrário, sempre curiosa.
Um extensíssimo poema sobre uma mulher nascida no Século das Luzes que dedicou a sua vida à busca da sabedoria e do conhecimento. Sempre muito à frente dos seus, bateu-se por um país que não fosse minado de intrigas e jogos políticos, lutou contra o despotismo que lhe marcou a infância e a juventude, questionou as proibições impostas ao sexo feminino e nunca se deixou vergar pelo que queriam impor-lhe. Uma mulher culta e inteligente que foi presença notada em todas as cortes que frequentou, que tinha tantos admiradores quantos inimigos, que à imposição de casar e ter filhos respondeu com a necessidade de saber sempre mais. Enfurecia-se com a banalidade da sociedade portuguesa, o que fez com que, contrariando o pai severo, ousasse sair do país. Quis viajar, correr mundo à procura dos Grandes com os quais acabou por privar. Uma mulher com carácter e detentora de uma coragem invulgar que D. Maria, Carlota Joaquina e até Maria Antonieta fizeram questão de ter a seu lado. Maria Teresa Horta revive a história de Leonor de Almeida, uma filha das Luzes que procurou sempre mais do que encontrou, que deu à poesia o que não soube ou não quis dar aos filhos. Para contá-la, recorre a uma linguagem poética utilizando um vastíssimo vocabulário que se enovela em metáforas e aliterações. Uma fórmula de sucesso, talvez a única capaz de espelhar todo o esplendor do século XVIII, de invadir a imaginação do leitor convidando-o a sentar-se a mesas fartas e a passear pelas ruas de uma Europa que a custo se iluminava.
Este livro premiado de Teresa Horta, é um poema deslumbrante. É difícil descrever como Leonor se apoderou de mim, como senti seus pés de menina calçada em sapatinho de cetim e com eles atravessei toda a história desta mulher maravilhosa.
As luzes de Leonor são um hino de comovente e um grito de liberdade desta poetiza das luzes.
Leonor de Almeida era uma mulher arrebatada, adiantada para a sua época, um espírito de luz.
1054 páginas de um discurso narrativo poético, que se cola na nossa pele.
Acerca deste prémio transcrevo as palavras de Teresa Horta, Poetisa do Mundo, minha amiga adorada...
“Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país.
Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência.
Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores.
O primeiro-ministro está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural.
O país está a entrar em níveis de pobreza quase idênticos aos das décadas de 1940 e 1950 e, na realidade, é ele [Passos Coelho], e o seu Governo, os grandes mentores e executores de tudo isto.
Não recuso o prémio que me enche de orgulho e satisfação, recuso recebê-lo das mãos do primeiro-ministro.”
Romance cheio de vozes, desde a da protagonista à dos seus algozes, perpassando nele sempre o sopro da sensualidade (dos sentidos), em todas as passagens, que é também o sopro da liberdade. Foi a partir desde romance que descobri a vontade de participação política de Leonor de Almeida, frustrada, mas lúcida, que merecia mais investigação e divulgação. Fiquei com vontade de ler mais, apesar das 1065 páginas, especialmente das suas últimas décadas de vida.
Que livro INCRÍVEL. Embora o volume, lê-se muito bem. Escrito de forma assombrosamente boa, só dá vontade de ler mais e mais. Pena que não tenha descrito a vida da marquesa até a sua morte.
Ler este livro depois de ter lido a biografia de Maria Teresa Horta faz ainda mais sentido.
"Dividido em vinte e cinco partes, que por sua vez seguem uma narrativa fragmentada, onde tanto o vocabulário quanto o formato textual geram uma prosa poética, a obra apresenta ao leitor o percurso, umas vezes histórico, outras vezes fictício, de Leonor de Almeida Portugal, falecida como Marquesa de Alorna. Cada uma das vinte e cinco partes é iniciada por um poema da autoria de Leonor de Almeida, um “Raízes”, onde se afloram os Távoras em geral e Leonor Távora (avó da protagonista) em particular, e “Memórias”, onde Leonor partilha considerações sobre os eventos que irão ocorrer naquela parte. Seguem-se pequenos trechos que se complementam, indo desde a narrativa descritiva à epistolar, desde o diário às recordações ou às considerações íntimas. Os narradores divergem, havendo variação entre a terceira e a primeira pessoa, e, dentro desta, uma alternância de personagens-narrador. Entre os narradores inclui-se uma entidade sobrenatural, um anjo apaixonado, que acompanha a protagonista toda a vida enquanto espectador, do qual não gostei considerando a sua criação desnecessária e como uma ferramenta de endeusamento de uma personagem que a própria narrativa, no seu conjunto, não endeusa, mostrando-a tanto com virtudes como com falhas. (...)"
Adorei ler este livro pela brilhante maneira como está escrito, em que parece que mergulhamos num pensador e é-nos permitido observar o passado em toda a sua intimidade. A voz da autora é linda e poética, mas em termos de romance fiquei um bocado desiludida.
Uma das coisas que menos gostei foi a interrupção de cartas autenticas por palavras da autora, o que de certa forma corrompeu as personagens para mim, roubando-lhes a sua realidade. Compreendo que é um romance e que isso dá à autora uma certa liberdade mas mesmo assim...
E o volume do livro! No fim fiquei a duvidar se seriam realmente necessárias as mais de 1000 páginas especialmente porque o fim deixou-me um pouco desiludida. Se fosse de um romance com uma personagem fictícia e não houvesse aquela sombra de desgraça nas últimas linhas seria perfeito, mas sabendo que a vida de Leonor tinha tantas mais aventuras para serem contadas a sensação que fica é que o interesse acabou e o livro foi largado na editora.
Há também alguma repetição de ideias, que no princípio são interessantes mas a meio tornam-se cansativas.
Mas apesar das falhas, e porque nada é perfeito, o livro é para mim, facilmente, das melhores obras contemporâneas portuguesas que eu já li e apesar de parecer uma odisseia incompleta, o cuidado com que foi escrito transborda das suas páginas. Nota-se que foi feito com calma e perfeccionismo, duas coisas que para mim faltam em muitos escritores das novas gerações.
Para quem, como eu tinha tantas expectativas para este livro, senti-me defraudada com 2 factos:o 1º com a complexidade e verborreia que por vezes povoavam as páginas e depois pelo facto da historia delater terminado com o seu exilio em Madrid, quando a vida dela ainda continuou durante alguns (bons) anos.
As partes boas: a altura em que a autora efectivamente deixava a historia avançar e dava espaço ás personagens para agirem e não para estarem sempre preocupadas com as transcendências da vida.
Primeiro tenho a dizer: afinal o “delírio” final de Leonor de Almeida estava certo, mas como era mulher foi tratada como desvairada.
Nesta história, MTH demonstra a complexidade destas personagens femininas. Elas também estão providas de erros e de defeitos e de momentos de fraqueza. Acima de tudo, estas mulheres não eram perfeitas e faziam o melhor que podiam para lidar com as limitações impostas. Podemos pensar que Leonor foi má mãe ao escolher sair de Portugal e deixar a filha para trás, ela é frequentemente culpada disso pela filha, mas isso só aconteceu porque os avós forçaram Leonor a fazer uma escolha. Aqui as mulheres não são anjos nem demónios, são pessoas.
É um livro desafiador não só pelo seu tamanho, como pela narrativa lenta.
As críticas gerais apontam frequentemente a exaustão e a falta de concisão. Para mim, apenas o senti com uma das personagens, Angelus, cujo ponto de vista foi aparecendo ao longo de todo o livro e que pura e simplesmente me aborrecia. Contive-me para não passar essas partes à frente. De resto, foi uma leitura lenta, mas prazerosa. A capacidade de descrição de MTH levou-me a imaginar cada detalhe e a sentir os cheiros dos jardins onde os destinos foram decididos. Se com outros livros e outros autores estas descrições constantes aborreceriam-me, MTH conseguiu-me levar pela mão ao longo da história por Portugal, Viena, Espanha, França! Através da Revolução Francesa, ouvindo as conversas das grandes Mulheres e Homens. Foi como se estivesse a ver a história desenrolar à minha frente.
Não conhecia Leonor de Almeida, agora busco freneticamente por mais livros e material sobre esta mulher na qual me revejo tanto e cuja vida não foi toda coberta neste livro. Não lhe chego aos calcanhares em termos de sabedoria nem de aventuras, mas revejo-me na frustração perante um país estagnado, constantemente atrasado e com elites que se consideram intelectuais mas que na verdade são de uma mediocridade imensa. As opiniões de Leonor encaixariam-se perfeitamente neste Portugal atual. E o que dizer do machismo? Apesar de, na atualidade, o machismo não ser tão gritante com aquilo que Leonor de Almeida teve de aturar, nomeadamente no que toca a proibições, este esconde-se nas pequenas atitudes, nas formas paternalistas de tratamento que MTH também descreveu tão bem. Aquele machismo difícil de apontar, difícil de provar, que se dissimula nos carácteres fracos.
Este livro também trouxe à tona personagens, cujos julgamentos ainda hoje nos chegam. Como sobre Carlota Joaquina de quem sempre tive má imagem e nunca aprofundei, mas afinal, segundo este livro, todo o mal dizer contra ela que ainda perdura (e muito graças também à incompetência do marido), é mais nem menos do que as más línguas caluniando uma mulher que se queria envolver politicamente. O mesmo quanto a Maria I, condenada a ser louca, quando na verdade padecia daquilo que qualquer ser humano pode sofrer.
É muito o que une as mulheres portuguesas da atualidade, a estas que acabei aqui de descrever. Continuamos a ser as emotivas, como se isso não fosse a condição humana de todos (que também MTH descreve nos homens, através de D. João), continuamos a ser as histéricas quando defendemos com excitação aquilo que dá sentido à vida, como qualquer ser humano que procure algo que faça toda esta triste vivência valer a pena.
Hoje, no século XXI, Portugal continua a injustiçar as suas grandes mentes. Maria Teresa Horta decidiu que iria fazer a sua parte para contrariar.
Há quase dez anos, devia a mim próprio a leitura deste romance que foi ficando pelo caminho sem que eu tenha para isso qualquer explicação razoável. A verdade é que, concluída a leitura, o mínimo que posso escrever é que o romance não merecia tão loooooonga espera: trata-se de um calhamaço formidável e luminoso, absolutamente empolgante, escrito com uma paixão desmedida. Ao abalançar-se a um projecto deste fôlego, num “território estranhamente mágico em que a ficção e a história mutuamente se seduzem” (Vanda Anastácio nas Palavras de Apresentação), para nos contar a corajosa vida de Leonor de Almeida, muito bem se entende a recusa da Mulher e Cidadã Maria Teresa Horta receber o Prémio da Fundação Casa de Mateus das mãos de Pedro Passos Coelho, então primeiro-ministro de Portugal: seria uma traição a ela própria, mais até do que a Leonor. Obrigado.
A escritora Maria Teresa Horta ─ quinta neta da Marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida Portugal, também conhecida por Alcipe ─ revisita os factos históricos, acrescentando o que o olhar dos historiadores, geralmente tende a omitir. No seu romance "As Luzes de Leonor", a escritora escreve sobre os momentos mais íntimos da marquesa, vividos entre a razão e a emoção. Um espírito culto da época do "Século das Luzes".
Um livro que relata uma injustiça muito conhecida da nossa história e pinta, página a página o retrato de uma mulher (D. Leonor) que cresce enclausurada e com uma força destemivel. Destaca-se das mulheres da sua época, pela irreverência e confronto dos "bons costumes" preferindo a cultura aos bordados e lutando pelos seus ideais Enfrentando qualquer tipo de autoridade.
A leitura deste livro não é nada fácil devido ao estilo extremamente rebuscado da escritora. As descrições imparáveis e em excesso deixam-nos perdidos sem saber por onde andam os acontecimentos da história. Por fim, a opção da editora de fazer a história num único volume também dificultou enormemente a leitura por causa do tamanho mínimo da letra. Enfim, acho que não recomendo.
Um dos (senão mesmo o) livros da minha vida. O trabalho de pesquisa de 10 anos transformado numa obra-prima da literatura portuguesa. Não lhe é dado o devido reconhecimento. A MTH transporta-nos integralmente para a época, as cores, os cheiros, tudo!
What a pity the fabulous life of Leonor de Almeida, a remarkable woman, couldn't find a better writer! Maria Teresa Horta lingers on the perfumes and the fabric of the dresses too much, often the characters wear different coloured dresses in the same scene. Also they all speak with the same voice. Anyway, I enjoyed reading it, like a novella.
"A minha determinação no sentido de não aceitar as ordens de meu Pai, que me queria casar com quem eu não gostava, salvou-me de ser uma mulher infeliz para o resto da vida como aconteceu com Maria. Firmeza mantida por mim com especial afinco, e que desde sempre causou raiva e surpresa a quem pretendeu controlar-me o passo, conduzir-me as ideias, dominar-me a vontade, submeter-me o pensamento. Na tentativa de me governarem tanto os sentimentos como a razão." (extracto retirado da pág. 170)
(LIKE) A escrita. Ao longo de mais de um milhar de páginas, Maria Teresa Horta, usando de uma escrita poética, leva os leitores a conhecer a vida de Leonor, num percurso que começa quando é presa com a mãe e a irmã Maria no convento de Chelas, passando pelos dias de rebeldias durante a juventude, pelas aventuras pela Europa, o casamento e os filhos, o regresso a Portugal e os seus dias de viúvez. A personalidade, a forma de pensar, o modo de vida e os trejeitos de Leonor são esmiúçados ao longo do livro, em descrições que não deixam esconder a admiração/paixão avassaladora da autora pela Marqueza de Alorna.
(DISLIKE)As repetições. A meu ver, são a principal razão do exagerado número de páginas. Nas primeiras páginas o leitor já tem o perfil de Leonor traçado. No entanto, ao longo do livro, a autora não perde uma oportunidade de voltar a dedicar parágrafos realçando este ou aquele aspecto da vida de Leonor, tornando a leitura repetitiva, maçadora e com pouco conteúdo. Fica-se com a sensação de releitura.
Um passeio pela História portuguesa.
Sugerida pela sogra, esta leitura deixou-me com curiosidade de experimentar outro livro da Maria Teresa Horta e assim poder para tirar as dúvidas criadas pela presente obra.
Li este livro já há mais de um ano mas ainda me lembro dele com frequência e da personagem que é a Marquesa de Alorna.
Tantos anos de pesquisa aproximaram a autora a esta personagem e isso é bem mostrado na sua descrição e de como nos leva a conhecê-la de uma forma tão intima e tão profunda, até ao mais ínfimo pensamento. De uma forma muito poética, e com uma escrita maravilhosa, somos levados através da vida apaixonante de uma mulher que tinha as suas próprias regras num tempo onde não devia.
E é assim, embalados, que chegamos à altura em que Leonor é expulsa para Espanha. E é também assim que acaba. Acabou quando ainda havia tanto para contar sobre grande parte da sua vida. Foi um momento muito frustrante e que não fez sentido nenhum. É como se estivesse profundamente concentrada a ler e de repente alguém me tira o livro das mãos e não mo devolve nunca mais e fico sem saber como acaba. Preferia talvez que tivesse sido menos descritivo mas que conseguisse ter chegado ao fim.
Ainda assim, é um livro que me ficou gravado com grande carinho, tal como ele é, e recomendo, a quem estiver disposto a andar com tantas páginas atrás. Mas, sem dúvida, vale a pena!
Em setembro de 2012...recusou receber o Prémio D.Dinis das mãos do primeiro-ministro,Passos Coelho:
"Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos - pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país".
"Sempre fui uma mulher coerente; as minhas ideias e aquilo que eu faço têm uma coerência", salientou a escritora que acrescentou: "Sou uma mulher de esquerda, sempre fui, sempre lutei pela liberdade e pelos direitos dos trabalhadores".
"o primeiro-ministro está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril [de 1974] e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural".
"o país está a entrar em níveis de pobreza quase idênticos aos das décadas de 1940 e 1950 e, na realidade, é ele [Passos Coelho], e o seu Governo, os grandes mentores e executores de tudo isto".
Lêr este romance de mais de 1000 páginas sobre a surpreendente marquesa de Alorna é obra! Relata a sua vida até aos 53 anos com muito sentir e poesia. A marquesa viveu no século das luzes, sobreviveu ao terramoto de 1755, viveu enclausurada num convento 19 anos, viveu em Vienna, esteve em Paris na revolução Francesa, muito requisitada por D. Maria e Carlota Joaquina pelos seus poemas à desgarrada, foi expulsa de Portugal por Pina Manique que a via como agente jacobina.