Narrativa documental extraordinária, que nos dá a conhecer ou a confirmar a luta de um povo que, inicialmente martirizado pelas atrocidades e prepotência do colonialismo português, aos poucos e por influência das camadas mais jovens, vai ganhando consciência da necessidade da alteração do quadro geopolítico estruturado por séculos de ocupação, mas que não soube aproveitar um momento único de confirmação ou de recuperação dos seus pressupostos sociais, culturais, institucionais ou tradicionais, enquanto nação autónoma.
A ação de “A Geração da Utopia” desenvolve-se por vários períodos da história angolana; começa em 1961, e está concentrada em Lisboa, onde um grupo de jovens intelectuais, bolseiros na universidade portuguesa, revela uma personalidade própria de quem ama, compreende as suas raízes, mas insatisfeita com o rumo dos acontecimentos na colónia, onde o branco manda e desmanda numa sociedade plurirracial, com uma base social com as suas tradições ancestrais mas acorrentada por um “violador” que lhe retira os seus direitos mais básicos: “As notícias de Angola é só de prisões, mesmo de intelectuais. Até de brancos. A qualquer momento, podemos ser apanhados na rede, mesmo se nos limitarmos a conversar sobre coisas”. Essa preocupação com os acontecimentos em Angola, é ponto central e polarizador dos encontros dos estudantes na Casa dos Estudantes do Império, onde se reuniam a juventude africana. A riqueza das personagens, como Aníbal, Vítor, Sara, Malongo (que veio jogar para o Benfica mas as noites de farra impediram-no de progredir na carreira que tanto desejara), Elias, Laurindo, Horácio, apenas para citar alguns, também contribui para que a leitura deste fascinante romance nos enquadre numa ideologia lógica de compreensão de um desejo de autodeterminação que tardava a concretizar-se. A PIDE, sempre atenta aos movimentos da juventude africana, não conseguiu deter a fuga de Portugal de alguns desses intelectuais para Paris de onde, assim o consideravam, iniciar um movimento de libertação que restabeleceria a liberdade angolana. “A Geração da Utopia” foi, na realidade, esta que acreditara na mudança, num país mais justo e igualitário.
A segunda parte, de difícil leitura derivada de uma narrativa compacta e densa sobre a guerra pela independência, onde encontramos Vitor, soldado a serviço da guerrilha, a esconder-se na mata e na chana, fugindo ao inimigo, tentando aproximar-se à fronteira com o Zaire – agora República “Democrática” do Congo (aspas minhas), onde estaria a salvo das milícias portuguesas, na crença de que toda a fome passada, toda a sede sentida, toda a ameaça contornada, contribuiria para um futuro melhor das suas gentes: “O povo esperava tudo de nós, prometemos-lhe o paraíso na terra, a liberdade, a vida tranquila do amanhã. Falamos sempre no amanhã. Ontem era a noite escura do colonialismo, hoje é o sofrimento da guerra, mas amanhã será o paraíso. Um amanhã que nunca vem, um hoje eterno. Tão eterno que o povo esquece o passado e diz ontem era melhor que hoje”. Com essa mentalidade popular, qual o valor do sacrifício de uma guerra?
“O Polvo – Abril de 1992” foi, para mim, o capítulo mais excelente, nas suas contradições, deste livro. Nele, vemos Aníbal, o Sábio, como era conhecido entre os seus contemporâneos, a viver como um eremita, desiludido e defraudado das expectativas que criara, legitimamente, de um futuro melhor, mais igualitário para uma Angola que, nesta altura, enfrenta uma violenta guerra civil. Falta comida, o povo esmorece nas ruas esburacadas, à míngua das condições sociais e de urbanidade que merecia. Lutando contra um polvo que na sua infância o atormentara – e não podemos de deixar de analisar esse seu processo de matar o cefalópode como uma metáfora da situação política que, na altura, o povo angolano vivia -, recebe a visita de Sara de quem sempre sentiu a possibilidade de uma relação romântica … e apesar de a angolana ter-se juntado a Malongo, de quem teve uma filha, Judite, sempre percebeu que este último nunca entenderia os seus pressupostos políticos e sociais na criação de uma Angola mais justa e igualitária, já que, para si, era completamente indiferente o futuro do país pois o seu principal objetivo era fazer parte da equipa principal do Benfica. Consiste num capítulo riquíssimo sobre as ideologias que se esboroavam.
E chegamos ao último episódio desta epopeia, cuja ação se desenvolve em Luanda, em julho de 1991. Aqui vimos Vítor, como ministro de alguma pasta do MPLA, Malongo como um negociador de má índole, ambos colocados nas mais elevadas estâncias políticas e financeiras de uma Angola que em nada mudou, desde o tempo do colonialismo. O povo continua faminto e descrente, procurando algo que lhes possa fazer suportar, não só o dia-a-dia, mas também algo que possa levar ao olvido de séculos de repressão. E é dentro dessa perspetiva que Elias, acolitado por Vítor e Malongo decidem criar uma igreja … A Igreja da Esperança e Alegria do Dominus (Deus, em latim). Tudo o que possa vir a rechear os bolsos da elite é possível, mesmo que seja em nome do sempre omnipresente e omnisciente Altíssimo …
Para concluir, não poderia deixar de transcrever o que considero o resumo desta narrativa: “Nunca se pode falar de negócios sem acabar na política, pensou ele. Por muito que se queira, é inevitável. Até eu mesmo que nunca me quis molhar, acabo por me envolver nestas conversas, se quero fazer negócios. Mas são bem mais interessantes do que aquelas da juventude, em que todos queriam mudar o Mundo e só discutiam coisas abstratas, como liberdade, igualdade, justiça social. Então eta uma chatice, vinham sempre com palavras que ninguém entendia, mais-valia, exploração, luta aqui, revolução ali. Agora é melhor, trata-se sempre de como enganar o outro ou o Estado, para se enriquecer mais depressa. Isso ao menos é claro e positivo, é a única política que me pode interessar!”
Sem comentários … o manifesto delírio da utopia.