A história que a mãe de Lídia Jorge lhe pediu que escrevesse.Misericórdia é um dos livros mais audaciosos da literatura portuguesa dos últimos tempos. Como a autora consegue que ele seja ao mesmo tempo brutal e esperançoso, irónico e amável, misto de choro e riso, é uma verdadeira proeza.Não são necessárias muitas palavras para apresentá-lo – o diário do último ano de vida de uma mulher incorpora no seu relato o fulgor das existências cruzadas num ambiente concentracionário, e transforma-se no testemunho admirável da condição humana.Isso acontece porque o milagre da literatura está presente. Nos tempos que correm, depois do enfrentamento global de provas tão decisivas para a Humanidade, esperávamos por um livro assim. Lídia Jorge escreveu-o.
LÍDIA GUERREIRO JORGE nasceu em Boliqueime, Loulé a 18 de Junho de 1946. Concluído o curso de Filologia Românica, dedicou-se ao ensino liceal (Angola, Moçambique e Lisboa). Publicou os romances O Dia dos Prodígios (1980, Prémio Ricardo Malheiros), O Cais das Merendas (1982, Prémio Literário Município de Lisboa), Notícia da Cidade Silvestre (1984, Prémio Literário Município de Lisboa), A Costa dos Murmúrios (1988), A Última Dona (1992), O Jardim Sem Limites (Prémio Bordalo, 1995), O Vale da Paixão (Prémio D. Dinis, 1998), O Vento Assobiando nas Grutas (2002, Grande Prémio do Romance e Novela da APE/DGLB), Combateremos a Sombra (2005, Prémio Charles Bisset) e A Noite das Mulheres Cantoras (2011); os livros de contos A Instrumentalina (1992), Marido e Outros Contos (1997), O Belo Adormecido (2004) e Praça de Londres (2005); a peça de teatro A Maçon (1993) e o ensaio Contrato Sentimental (2009). Os seus romances são constituídos por vários planos narrativos, onde o fantástico coexiste com o real, e os problemas sociais colectivos são postos em relevo através de figuras humanas com dimensão metafórica e mítica. Foi condecorada, pela Presidência da República, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, em 2005.
Este livro -Misericórdia e a sua autora foram maravilhosamente apresentados pelo Cardeal Tolentino de Mendonça no Palácio Galveias. Seguiu-se uma bonita leitura dum excerto do livro pela Ana Zanati . Assisti a essa apresentação por uma feliz coincidência e tornou-se imperativo que o lesse.
Foi escrito a partir dum diário de pequenas frases feito pela mãe de Lídia Jorge na última etapa da sua vida num Lar da Misericórdia. A autora referiu durante a apresentação que o seu livro não continha reclamações pois a sua mãe tinha sido bem tratada nesse lar . No entanto, assistimos ao seu dia a dia e sentimos na pele a incapacidade de se mexer, a indiferença de algumas empregadas, o horror da animação de uma psicóloga que naquele ambiente batia palmas e tentava animar os residentes. E por fim o covid que transformou num inferno os Lares de Idosos. É um livro amargurante mas é escrito duma forma muito bonita que ao mesmo tempo que nos aflige também nos enternece .
“ ….uma assembleia de setenta pessoas paradas no meio do mundo. Setenta pessoas juntas que formam uma família, a caminhar para o final do seu tempo. Um rebanho tresmalhado, sem pastor nem dono. “
“Antes quando a minha pele era clara e moça, qualquer gota de lágrima que me saltasse dos olhos era visível à distância. Agora, a minha pele criou sinais, curvas e valados, de tal forma que desde que não soluce,ninguém nota que me escorrem lágrimas. Comi-as com o pão.”
Um livro que mexe com as nossas emoções, que nos comove, que nos enfurece, que nos provoca e desafia, mas que também nos mostra a amizade, o amor, o respeito e ainda nos arranca algumas gargalhadas.
Que o respeito pelos idosos seja apenas um reflexo do respeito que temos por nós mesmos, uma consciência de que somos parte de uma teia de conexões, onde o reconhecimento da dignidade de cada indivíduo é a base para uma sociedade mais justa e humana.
(...) estou vencida, ó noite, diria eu. Então ela levantar-me-ia da cama, envolvida nos meus cobertores, subiria comigo para além do tecto, para além do terraço, subiria com o meu corpo ao colo até às nuvens e depois deixar-me-ia cair no vazio, e eu diria muito obrigada.
Da velhice. Dos tempos fugazes da velhice. Dos espaços fechados da velhice. De tudo isso nos fala Lídia Jorge no seu último romance "Misericórdia".
Usando um registo memorial, e quase diarístico, a autora reflecte sobre os tempos da velhice a partir dos últimos meses de vida de mulher idosa num lar de terceira idade.
A crueza do retrato deste espaço e dos seus quotidianos é um elementos particularmente interessante deste livro. A autora faz um retrato cru mas não cruel. Faz um retrato em que a idosa narradora adoça, como forma de tornar mais possível a vivência no mesmo, as descrições desse tempo diário. Num registo algo diferente de outras obras de Lídia Jorge, gostei de acompanhar este contar do tempo, da vida e, tanta vezes, da morte.
"No conjunto, os teus livros são um vale escavado num deserto repleto de gente pobre. Rotos, descalços, abandonados, loucos, emigrados sem eira nem beira, imigrantes sem lugar onde cair mortos, raparigas feias que todos enjeitam, pelintras de todo o jeito, gente assassinada, gente que se atira à água para morrer, para o destino, em troca, lhes salvar os filhos, gente sem religião, sem abrigo, sem pátria, sem casa, sem modos nem figura. E eu só me pergunto porque te sentes atraída por esse tipo de criaturas. Figuras que não se levantam do chão. Miseráveis entre os miseráveis. Ora diz-me, quem gosta de lidar com a vida dos miseráveis? Os teus personagens parecem os esfarrapados que São Francisco de Assis visitava. Se ao menos escrevesses sobre São Francisco, mas não, tu escreves sobre os pobres de quem ninguém conhece o nome. Como tua mãe, pergunto-me porque escreves sobre esse tipo de figuras e não sobre as outras, as que vencem, as que ficam, as que toda a gente já conhece, os fortes, os bons, os heróis, os santos, os válidos ..."
Comecei contrariada porque nunca tinha lido nada de Lídia Jorge e o tema é daqueles que mexe comigo e me incomoda. Achei que ia ser triste e que me ia deixar triste. Li-o num fôlego. Ao fim da segunda página já sabia que tinha sido apanhada e que estava perante o milagre da literatura. Não é de tristeza que fala este livro, não é da velhice - também é, mas não dá forma como estamos habituados a pensar a velhice. É sobre a vida que continua independentemente da idade. É sobre a amizade e o amor e a vontade de viver. É sobre o outro e a forma como olhamos para ele. De uma delicadeza e sensibilidade. Um colosso. Estamos em fevereiro e acho que já li o melhor livro do ano.
Es bellísimo Es de lo más humano y tierno Me trae recuerdos de mi tía Tere en el asilo También a ella le robaban También la hacían enojar También anhelaba nuestras visitas
Las cinco estrellas son porque el libro es maravilloso Pero las otras cinco que están pero no se ven porque no se permiten son por esos momentos en donde sentí literalmente mariposas en el alma (se pueden sentir mariposas en el alma?) cada vez que habla de su hija, con su hija, sobre su hija Uffffff
Aunque puede llegar a sentirse un poco largo, creo que vale mucho la pena Si, es sobre ancianos, pero no hay que temerle a la lectura (ni a la vejez), es simpática y poética y bella
Finalmente li este livro e finalmente estreei-me nas letras de Lídia Jorge. Com capítulos curtos, letra gorda e um estilo bem menos denso do que aquele que associo à autora, valeu a pena percorreu o dia-a-dia do Hotel Paraíso "escarrapachada" na charrete da D. Alberti. Gostei muito.
"Misericórdia" apresenta-se como um relato sobre os últimos dias da mãe da autora passados num lar de idosos português. O livro terá sido escrito a pedido da mãe, e isso é algo que acaba ficando claro à medida que vamos conhecendo a personagem principal do livro, e o modo como ela concebe a profissão da filha.
O lugar e os personagens são pouco propícios a criação de grandes enredos, assim como grandes emoções, e talvez por isso mesmo seja de louvar ainda mais o trabalho de Lídia Jorge, que consegue no meio de tão pouco, fazer acontecer tanto, enquanto nos embala no interior psicológico da sua mãe.
Talvez o mais interessante seja mesmo ficarmos a conhecer o dia-a-dia destas instituições, mas também de quem chega a estas idades e se vê confinado à convivência reclusa, nestes espaços, com acesso apenas a funcionários e amigas/colegas que todas as semanas vão desaparecendo para dar lugar a outros.
Lídia Jorge dá-nos momentos de alegria e profunda tristeza, faz-nos viver e refletir junto de quem por ali passa. É um livro que fala de muito próximo a todos aqueles que já tiverem familiares nestas casas.
Este é o livro que Lídia Jorge escreveu a pedido da sua mãe: "Maria Alberta, que é a personagem que atravessa este livro, é inspirada numa figura real, concreta e que foi a minha mãe. Foi ela que me pediu que escrevesse um livro chamado Misericórdia, foi falando disso ao longo do tempo em que esteve no lar, mas fê-lo, em particular, no último dia em que eu a vi e que nós não sabíamos que ia ser a última vez. Creio que não tomei a sério esse pedido até ela ter desaparecido e eu sentir que esta era uma encomenda irrecusável."
Maria Alberta Amado (Alberti), é uma das 70 redidentes do lar Hotel Paraíso e neste livro fala-nos através de uma espécie de diário, sobre o medo que tem da noite, sobre as fragilidades do seu corpo, sobre a velhice, sobre a amizade, sobre o dia-a-dia de um lar de idosos mas também sobre os seus sonhos, esperanças e curiosidades.
Tal como Lídia Jorge nos diz o facto da história se passar numa residência e se "tratar de um espaço fechado, com pessoas de idade que têm um tempo limitado de vida, cria uma intensidade de sentimentos e relações que muitas vezes as pessoas não imaginam que possa existir. É uma viagem por dentro das almas, quer dos cuidadores, quer das pessoas cuidadas, mostrando que os sentimentos podem ser comuns." As situações são muitas vezes dramatizadas porque as pessoas sentem que é agora ou nunca que vivem aquela experiência.
"Mas eu preciso de alguma coisa que a Noronha não me pode dar. Um lugar seguro, inalcançável, inviolável, onde possa guardar o papel com a mensagem. Só que não há gaveta, não há bolso, não há bolsa, não há travesseiro, nem colchão, nem fundo de bainha nem sola de sapato a que só eu, sozinha, tenha acesso. E essa é a dificuldade de me encontrar a viver no Hotel Paraíso. Não há mais nada que seja só meu, nem o meu corpo, nem o meu espírito."
"Mas eu tenho este feitio, quero demais, mando demais, amo demais alguma coisa que não alcanço, e quando não a atinjo, procuro desesperadamente transformar o que existe de modo a aproximar o objecto defeituoso da realidade inalcançável. Não sei onde colocar os meus pensamentos que são demasiado amplos para o vaso da minha cabeça e para o volume do meu coração."
"Eu sei que a felicidade é um bem muito escasso. Devemos guardá-la no peito quando nos toca por perto, encher com ela todas as algibeiras da alma, para servir de escudo quando o seu oposto acontece."
Desta vez apanhou - me Lídia Jorge e à história e às suas metáforas de vida fiquei rendida, que linda homenagem que fez à sua mãe. Parabéns pela criatividade. Gostei muito do papel que foi atribuído à Noite neste livro!
Mais do que um livro, “Misericórdia”, é um acto de coragem. Uma dádiva de amor. E uma lição de vida. Emociona-nos pela verdade e bondade que dele emanam, pela sua visão clara e lúcida, pela espontaneidade e autenticidade do seu falar. Lê-lo é olharmo-nos nos olhos em frente ao espelho, despojados do fingimento e artificialismo com que nos mascaramos, certos das nossas limitações, fragilidades e indecisões, aceitando com naturalidade a nossa finitude. Pela universalidade dos seus fundamentos e pela riqueza dos valores humanos que convoca, “Misericórdia” prende o leitor desde as primeiras linhas, cola-se a ele, mistura-se, liquefaz-se no seu interior. Nessa tão grande proximidade, nessa intimidade mais funda, mostra-nos a vida no que tem de mais belo: os passos que lhe dão sentido, a riqueza dos seus ciclos, a sua enorme imponderabilidade.
Maria Alberta Nunes Amado é a protagonista desta história. No livro é Dona Alberti, assim a tratam no lar para onde se mudou por vontade própria quase há dois anos, o Hotel Paraíso, em Valmares, a linha do Atlântico lá ao fundo. É aí que vamos encontrá-la, sentada na sua charrete a caminho do Salão Rosa, no quarto escutando as cuidadoras ou os outros hóspedes, na cama à espera da noite que espreita no seu lugar de sombra, pronta para abrir o leque negro das suas asas e a provocá-la com a impertinência das suas questões. São dela as respostas mais assertivas, os conselhos mais sábios, os silêncios mais eloquentes, os segredos mais bem guardados. No toque de umas mãos há graça e delicadeza, o perfume que emana de um corpo inebria, uma música a quatro vozes é paz e concórdia, o fogo de artifício em noite de passagem de ano é festa e alegria. Só a filha, com os seus livros de final indigente, a catar as migalhas que caem da mesa da História e a fazer amor com o Universo, destoa num mundo que aspira ao harmonioso e ao belo.
Li “Misericórdia” num ápice. Tenso, inquieto, em sobressalto, vivi cada dia deste arco entre a Primavera e a chegada do Inverno como se dos meus próprios dias se tratasse. Os dias a seguir às noites a seguir aos dias. Levantar, lavar, vestir, comer, despir, deitar, levantar. As vozes sem rosto e os rostos sem voz. A violência numa televisão sem som como uma banda desenhada de mau gosto. A humildade de uns e a soberba de outros. O intenso rodopio dos que partem e dos que chegam. As intrigas e as pequenas confidências, a desconfiança e o enxovalho, a ameaça e as “vias de facto”. Um microcosmos onde “se albergam todo o tipo de pessoas, e como na vida lá fora, os malignos passam por cima dos outros”. Em crescente sobressalto, assim o li. Em estado de alerta e, contudo, impreparado para os “sete parágrafos em seu nome” que fecham o livro. Sete momentos arrancados ao génio, sete diamantes em forma de prosa, sete céus de um firmamento chamado literatura. “Misericórdia” não é um livro. É um milagre!
Maria Alberta, ou dona Alberti, mora no Hotel Paraíso, um lar de terceira idade, para onde foi por sua vontade, depois de se despedir da sua casa, do seu quintal e das suas coisas.
Em jeito de diário, dona Alberti relata o seu último ano de vida nesta residência. Conta-nos o seu quotidiano, os rituais diários, necessários num local onde vivem cerca de setenta idosos, as relações com os outros moradores e com os cuidadores, mas também os seus pensamentos, os seus medos, as fragilidades do seu corpo já com muitos anos. A sua vontade de viver e até, por vezes, a vontade de desistir.
Um livro muito terno mas também muito duro, que mexe com as emoções. Ao ler este livro, lembrei-me várias vezes do livro de Carmen Garcia, "A última solidão". O respeito pelos mais velhos, por aqueles que estão no final da sua vida, muitas vezes dependentes da ajuda de outros, diz muito sobre uma sociedade.
Uma bonita homenagem da autora à sua mãe, que lhe pediu, pouco antes de morrer, que escrevesse um livro com este título.
Demorei a entrar na história e no ambiente em que se passa: um lar, o Hotel Paraíso.
A relação mãe-filha é o mais interessante neste livro, além do retrato do que é um lar durante a pandemia de covid-19. É humilhante, desumano e solitário.
Apesar de ter demorado a dar-me com as personagens, cada vez que pousava o livro, anseava pelo próximo momento em que voltava ao lar, à senhora Alberti e as suas peripécias.
Este é um livro que merece toda a boa publicidade que tem vindo a receber e vejo-o a ser traduzido noutros países com muita facilidade - e a ser um sucesso.
Recomendo a leitura deste romance da mestre Lídia Jorge. É um livro para pensar na maneira como levamos a vida, como encaramos a morte (a noite de asas negras) e de como tratamos os mais velhos.
Pontuação de 2 estrelas, mas na verdade não devia ter pontuado, porque não acabei o livro (ficou cerca de 60% lido). Abandonar um livro antes do fim sempre foi contra os meus princípios, mas agora inaugurei uma nova era. Talvez porque sinta que cada vez tenho menos tempo para ler todos os bons livros que me restam (e são centenas!). Deve ser isto a maturidade que vem com a idade. O livro estava a aborrecer-me de morte e por isso desisti. Admito que a falha seja mim, dada a tão boa aceitação que tem tido. Paciência, com a idade aceita-se também que provavelmente estamos cheios de falhas. E livros melhores virão.
Misterioso é o sentimento da misericórdia, não tem hora marcada para entrar ou sair do ser humano.
Fabuloso!
Maria Alberta, ou D. Alberti, foi a minha companhia nas últimas 3 semanas e tenho a certeza que nos vamos encontrar daqui a uns anos. Misericórdia é um livro irónico, crítico e comovente que não sabemos que precisamos de o ler até o lermos.
Uma leitura agradável. Gostei especialmente do relato da pandemia no contexto institucional. Acredito que o que se sentiu e viveu esteja muito próximo da experiência da Alberti. Penso que é uma leitura importante para os profissionais que trabalham em instituições ou com pessoas mais velhas por mostrar como se pode tão facilmente desrespeitar a individualidade de uma pessoa e isso ser aceite como algo normal ou algo bem intencionado. Uma boa lição sobre como os lares, apesar de parecerem um lugar isolado e feito só de velhice, têm em si vidas inteiras, de todas as idades.
Não tenho muito a dizer, a não ser que acho que teria gostado (ainda) mais deste livro se não estivesse num reading slump gigantesco 🫠
Escrita maravilhosa e impactante.
“Mas há dois dias, quando vi pela primeira vez o sargento João Almeida a caminhar com elegância recinto afora, manejando tão bem a bengala das quatro ganchorras, o cabelo branco e cinza tão bem aparado, compreendi por que motivo o salão se agita quando ele aparece. Porque ele vem contrariar, com a sua bela figura, forte e desempenada, os nossos pensamentos tristes. Inimiga morte, detém-te aí, na porta de entrada, já que a imagem do sargento vem acenar...”
“Só os meus pensamentos me pertencem, só esses não são vigiados, e ainda assim, há quem tente adivinhar os motivos por que falo ou por que estou calada.”
“Ao menos é bela, e a beleza, venha de onde vier, quando não cura e não salva, ao menos ilude an alma.”
“Não sei como encarar de novo as perguntas que me irão ser feitas, quando daqui a pouco me levarem para o Salão Rosa e todos quiserem saloer o que se passou neste quarto, prisão do corpo com que me deito.”
“Afinal porque querem os homens dormir com as mulheres? O que ganhamos nós com isso? Se são da mesma espécie, que durmam uns com os outros.” Alberto ate with this one…
“Para lhe dizer a verdade, não lhes quero mal, mas detesto todos eles.”
“Desde há algum tempo que enfrento os desafios da noite com outro alento, e se não posso dizer que a venço, pelo menos não saio vencida.”
“Se aumentar a feiura é arte, então uma parte do Mundo ja é uma obra de arte e não precisamos de mais artistas.”
“Quando chega a noite, não sei onde pôr os meus pensamentos.”
“Eu conheço-me, sei que não aguento a ideia de que aquilo que se aproxima da perfeição possa ser passageiro, e deito tudo a perder porque no fundo não aguento nada que fique a meio, desejo a totalidade.”
Misericórdia apresenta um olhar sobre a solidão inerente à idade idosa e sobre a alienação em relação à sociedade, resultante tanto da dificuldade na perceção do mundo como da vivência numa residência.
A protagonista, Maria Alberta, é uma mulher de idade avançada que reside no Hotel Paraíso, onde o quotidiano é preenchido por pequenos acontecimentos: a convivência com outros residentes e as suas personalidades, a presença das cuidadoras, as visitas da filha e do genro.
Lídia Jorge escreve na primeira pessoa, revelando memórias fragmentadas, pensamentos que se dispersam e pequenas revoltas quotidianas. Trata-se de uma obra dura e tocante, que expõe uma realidade tantas vezes ignorada.
Gostei muito deste livro, escrito da perspetiva de uma idosa num lar. Contrariando a ideia de que os residentes nos lares são seres amorfos à espera da morte, Maria Alberta relata-nos durante um ano todas as peripécias que se passam lá dentro, com um forte sentido crítico. Adorei a descrição das sessões fotográficas.
“Eu sei que a felicidade é um bem muito escasso. Devemos guardá-la sobre o peito quando nos toca por perto, encher com ela todas as algibeiras da alma, para servir de escudo quando o seu oposto acontece, por isso não me incomodavam por aí além, estava preparada.”
Trata-se da minha primeira incursão pela escrita de Lídia Jorge e não sei asseverar a minha posição em relação a este romance, creio até que demorarei algum tempo mais a definir uma opinião. Mas existem aspectos que me agradaram na escrita desta autora, adorei a forma como algumas personagens e sensações são percebidos pela personagem principal, Dona Alberti - adorei a forma como o perfume de bergamota anuncia a presença de Lilimunde (uma escrita quase fragrante), por exemplo - e algumas descrições estão especialmente bem conseguidas: ainda que comportem dor e desassossego, os inúmeros episódios de crueldade e de indiferença perpetrados por funcionárias do lar transmitiram-me uma verdadeira sensação de claustrofobia, pavor e até de raiva. Em suma, há beleza e equilíbrio e, em simultâneo, há um peso incomensurável de desalento... e talvez seja precisamente isso que torna difícil dizer que simplesmente gostei ou não gostei. Há algo de demasiado próximo do mundo real que todos conhecemos, belo e feio em proporções idênticas e identificáveis; ainda assim posso dizer que me deu prazer discutir o romance com outras pessoas que o leram.
Uma obra prima. Lídia Jorge escreve sobre o último ano da vida da sua mãe cuja ação se passa num lar chamado Hotel Paraíso. A partir de fragmentos do diário da sua mãe, Lídia Jorge dá-lhe vida e coloca-se na sua pele , descrevendo episódios passados no lar chamado Hotel Paraíso. Escrito de uma forma algo sóbria e até por vezes coloquial nunca sedendo a fáceis comoções ou lamúrias mas sabendo acrescentar uma emotividade consciente. Excelente.
De volta a Lídia Jorge encontro a linguagem de sempre. A história é muito pessoal, sentem-se as dores da autora. É um relato doloroso que nos impressiona e nos magoa até ao fim. Nota-se a maestria de Lídia Jorge em todas as palavras. Sublinhei o livro do princípio ao fim. Não me vou esquecer dele tão cedo.
Acompanhamos o último ano da vida de uma mulher, o discurso é na primeira pessoa, um relato duro, e às vezes divertido, onde acedemos às fragilidades inerentes a uma dependência crescente. A higiene, a alimentação, a locomoção. A zanga que emerge contra um sistema que infantiliza, que desconsidera, que objectaliza (esta palavra existe?) pessoas cuja vida foi tão preenchida e rica. Traz-nos a rigidez de quem já não tem a flexibilidade de se adaptar ao outro, e que quer continuar a controlar um mundo que lhe escapa por entre os dedos. Fala-nos também do amor, de como essa chama continua a ser um carburante que faz com que a vida aconteça. Amores que revisitam outros, antigos, passados, que são reinventados.
A relação com os cuidadores está também muito bem explorada. Desde a desumanidade de alguns, a verdadeiras amizades. Confidências trocadas com uns, vis roubos por outros. E o encanto da voz de um leitor que transforma a percepção - de um homem feio, descrito como quase repulsivo, passa a ser belo depois uma leitura de um conto. Também são os contos deste jovem que permitem à protagonista fazer as pazes com a escrita da sua própria filha, que escreve sobre gente comum (e não sobre figuras realmente importantes da história!).
Mas o que achei mais interessante foi a forma como a angústia de morte é retratada. Como pela calada chega “a noite” plena de angústia, num jogo de forças, um desafio constante na tentativa de agarrar a vida. São diálogos cheios de garra e desespero. Valeu as 464 páginas!