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O Sangue da Buganvília

Cada um dos textos do livro traz a força da metáfora da árvore a que se refere o tí «forte na sua estrutura retorcida, de metal, e [que] resiste, podendo mesmo transformar-se em tecido fino aéreo se a isso o tempo a obrigar». Assim, o fino tecido aéreo da poesia e a sabedoria dos provérbios tradicionais angolanos recobre, sem ocultar ou edulcorar, por exemplo, os acontecimentos, em um difícil, mas bem conseguido equilíbrio entre cotidiano e a subjetividade poética. Vários são os momentos em que somos convidados a lançar um outro olhar sobre a realidade, como por exemplo em «Viver nas cidades» em que o flagrar dos sobreviventes das guerras e fomes angolanas, faz-nos alargar a visão, pois nos levam a fugitivos de outras geografias e «sobreviver transformou-se na exclusiva hipótese diária de subsistir, animais-humanos de presentes envenenados e dias de descidas aos infernos».Tania Macêdo

Perfect Paperback

Published January 1, 2023

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Ana Paula Tavares

15 books6 followers

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Profile Image for Graciosa Reis.
577 reviews55 followers
September 20, 2026

𝑶 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒂 𝑩𝒖𝒈𝒂𝒏𝒗í𝒍𝒊𝒂, de Ana Paula Tavares, é um livro que exige vagar. Cada crónica nasce da terra e devolve ao leitor a memória de um país marcado por perdas profundas. A escrita da autora angolana é depurada, sensorial e feita de silêncios que revelam muito mais do que qualquer discurso directo. Aqui, a crítica social e histórica surge nos detalhes, nos objectos e nas vozes que atravessam o quotidiano.

A buganvília, bela metáfora, é o fio condutor deste livro. Esta árvore que cresce junto às casas e resiste ao calor e ao tempo, funciona como uma memória viva; guarda histórias, revela palavras e sonhos, protege rituais ancestrais e acompanha a vida das mulheres que sustentam o mundo através de um trabalho silencioso. Em cada crónica, há como um ramo que se estende para o passado e outro que procura o futuro. A árvore torna-se, assim, símbolo de continuidade, de força discreta, de permanência.

Grande parte das crónicas regressa a uma Angola ferida pela destruição, pela guerra, pela colonização e por políticas que teimam em não conseguir erguer o que foi destruído. As imagens criadas pela autora são simples, mas carregam uma verdade profunda. A dor aparece como uma sombra constante, a esperança surge num gesto e a memória funciona como a raiz que insiste em não morrer.

No centro desta resistência estão as vozes femininas, que atravessam o livro com uma firmeza impressionante. Estas mulheres são as verdadeiras guardiãs de saberes antigos e de práticas que mantêm a comunidade unida. Ana Paula Tavares escreve sobre elas com precisão e delicadeza, oferecendo-nos imagens que permanecem connosco muito depois de fecharmos o livro. A sua crítica surge de forma subtil, uma marca deixada por quem viveu demasiado para acreditar em soluções fáceis.

Ler 𝑶 𝑺𝒂𝒏𝒈𝒖𝒆 𝒅𝒂 𝑩𝒖𝒈𝒂𝒏𝒗í𝒍𝒊𝒂 é entrar num território onde as recordações se entranham na própria terra. As crónicas avançam como ramos que procuram a luz, e penetram “na linguagem secreta das coisas da alma” como escreve a autora e destacou, também, Tania Macêdo no prefácio. O “sangue” do título evoca inevitavelmente o sangue derramado na história de Angola, um traço profundo que atravessa gerações e permanece vivo na identidade do seu povo.
Profile Image for Eduricardo.
51 reviews1 follower
January 20, 2026
Umas dezenas de crónicas interessantes, sobre diversos aspectos da cultura africana, tocando artesanato, memória, política, urbanismo, língua...
Testemunho pessoal de uma geração órfã de Amílcar Cabral, mas que, como as buganvílias, continua a "florir em sangue no meio da tempestade".
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