"A vida não é apenas aleatoriamente cruel. É também absurda."
É incrivelmente curioso como este título não faz justiça ao seu conteúdo. Normalmente, um título enganoso pinta de tons mais vistosos uma história um pouco cinzenta. Porém, eis que me deparo com um título que faz parecer pequena, uma história grande. "O Charme Discreto da Vida Conjugal" não se foca numa relação entre duas pessoas casadas, foca-se em várias relações, de diferentes naturezas: entre marido e mulher, pais e filhos, amigos e amantes, conhecidos e pessoas de passagem.
"Não há provas de que a verdade quando e se alguma vez for revelada, seja muito interessante."
Conhecemos Hannah em 1966 e é com paixão, dúvida, tristeza, confiança, euforia e desapontamento que acompanhamos a sua vida até 2004. Os seus sentimentos são os nossos e a viagem não podia ser mais atribulada.
"A culpa é para as freiras."
Douglas Kennedy cria um conjunto de personagens que não podiam ser mais susceptível às fraquezas e tentações humanas. E para o acompanhar descreve um contexto onde as convenções sociais são questionadas, enquanto os conservadores e os liberais se confrontam numa eterna luta de ideias opostas.
"A mente é o seu próprio lugar e, em si mesma, pode construiu um céu infernal, um inferno celestial."
Todas as vidas são aborrecidas e previsíveis para quem as vive, mas na verdade o fascínio existe para quem as observa com atenção. O gesto mais comum e a palavras mais repetida têm sempre impacto em alguém. A vida de Hannah não é maravilhosa ou de invejar, mas prendeu a minha atenção até à última página.
"Não podemos escapar às nossas acções, mais do que escapamos a nós próprios. Há um preço a pagar por tudo."
Uma mulher não se resume às sua atitudes certas e erradas, nem às duas relações mais intensas e superficiais. Uma mulher é a soma de todos os pequenos detalhes de si própria, da sua vida e daqueles com quem se relacionada. Deduzo que o mesmo se aplique para os homens, mas nesta história o sexo masculino está em segundo plano. O herói não tem de ser, necessariamente, um homem. Douglas Kennedy escolheu uma mulher, com tantas fraquezas como virtudes, com tantas vitórias como fracassos. Uma mulher que podia ser qualquer uma de nós, leitoras.
"Por mais que desejemos manter as coisas simples e sem sobressaltos, não podemos evitar colidir com a confusão. É o nosso destino, porque a confusão, o drama que criamos para nós próprios é uma parte intrínseca de estarmos vivos."