"Todos pobres, pardos e paisanos"
Todas as vezes que discuto política com alguém que se coloca prenhe de frases, expressões, conceitos e argumentos engessados por modelos explicativos filosóficos, econômicos e sociais eu pego e falo "Amigo(a), você tá lendo muito Lênin (quando o caso) e pouco Jorge Amado".
Curiosamente me rebatem o conselho questionando se eu estou jogando fora as contribuições não só do antigo camarada mas de toda a corrente de pensamento do materialismo histórico dialético quando, na verdade, estou justamente apontando que as explicações e soluções para o Brasil devem passar necessariamente pela profunda análise de nossa trajetória histórica, compreendendo os efeitos disso nas esferas de nossa cultura.
Eu fiz essas observações porque a leitura de 'Tenda dos Milagres' me fez perceber (e não sou nem pretendo dar opinião de especialista em literatura brasileira, quanto mais um estudioso da obra completa do autor) o amadurecimento político de Jorge Amado que, se nos primeiros romances - que não li todos, mas gosto de tomar como exemplo 'Capitães da Areia' - os personagens ganhavam emancipação por meio do trabalho e da ação política convencional (Pedro Bala se tornando protagonista de greve quando adulto), a liberdade, aqui, se encontra para além desse aspecto social, alocando-se - AO MEU VER - no fazer da vida cotidiana e no exercício da cultura popular: O protagonista de 'Tenda dos Milagres', o mulato Pedro Archanjo, está pouco preocupado com o seu trabalho "oficial" como bedel em uma faculdade de medicina, se preocupa em viver sua vida, lidar com o SEU povo e sobretudo defendê-lo. Não se trata contudo de uma exaltação besta de um lumpemproletariado, entretanto. A defesa de Archanjo e se sua atuação política como processo legítimo de transformação social ocorre de diversas maneiras: ensinando crianças a ler e escrever; protegendo mulheres abandonadas; protegendo mães de santo e terreiros da repressão policial; enaltecendo a história negra em carnaval de rua; etc.
Também o faz ao defender que a solução para os problemas do Brasil seria a miscigenação. Essa temática é o eixo central do livro (que já aparecia de maneira mais modesta em 'Gabriela, Cravo & Canela', talvez?) não só pelo fato do protagonista defender esse tema até academicamente - confrontando um personagem, professor de medicina legal inspirado em Nina Rodrigues (o Lombroso dos Trópicos, rs) - mas porque a problemática da mestiçagem reverbera em outro "núcleo" da trama que está em temporalidade distinta (o que narra como Pedro Archanjo e seus escritos foram redescobertos anos após sua morte por um gringo Prêmio Nobel e como a intelectualidade brasileira só passou a dar credibilidade nos escritos do mulato baiano após um estrangeiro estadunidense valorizar). Leio 'Tenda dos Milagres' como um testamento politico de Jorge Amado a sua ideia do que é ser brasileiro.
O livro, como á dito, aborda duas temporalidades: A vida de Pedro Archanjo e quando ele é redescoberto pouco mais de 20 anos depois de sua morte. E por mais que a narrativa do "pós-morte" seja às vezes sem graça (mais devido ao fato de que eu, como leitor, fiquei mais interessado em saber da vida do protagonista por ter diversas histórias heroicas, conflitos e algumas saborosas pitadas de Realismo Mágico), é, ao meu ver, fundamental para perceber com Jorge Amado, ainda que defenda a tese de que a mestiçagem vai civilizar o Brasil, o racismo e o arcaísmo herdado do nosso processo colonizador ainda é muito vivo. Esse "núcleo" também e interessante, particularmente, pelo fato de que das diversas homagens que fazem a Archanjo (estátuas, nomes de ruas, eventos pomposos...), nenhuma é mais fidedigna a sua maneira de pensar o mundo que quando sua história de vida vira samba-enredo e desfile de Carnaval.
Corro o perigo de, como leitor, "botar palavras na boca do autor" mas na minha modesta leitura, Amado não desconhece que a mestiçagem foi e ainda é um processo violento de apagamento físico da população negra e de sua identidade e cultura (Archanjo, quando é revalorizado 20 anos após sua morte, recebe homenagens e leituras de sua obra que o afastam, se não completamente, em boa parte de sua origem negra e de homem pobre e comum). Mas a tese de Amado e de seu protagonista, a de que a miscigenação é a redenção do povo brasileiro, me parece que é exatamente o reconhecimento do espaço e da importância da cultura negra no nosso cotidiano e como é impossível pensar Brasil sem pensar, necessariamente, raça.
Amado, apesar de á afastado do PCB a essa altura, não deixa de ter presente em sua narrativa o debate de classe. Não tenho profundo conhecimento da obra e da vida do autor pra dizer categoricamente que ele deixou de ser comunista, mas que produziu uma grande reflexão sobre a aplicabilidade da teoria de maneira engessada na realidade do Brasil, percebendo as particularidades dos problemas sociais e culturais da nossa sociedade sem abrir mão do materialismo dialético, pra mim fica claro em diversos momentos do livro, mas fica escancarado no diálogo de Archanjo com um professor marxista nos capítulos finais do livro. Archanjo se vê como materialista e se a miscigenação é a solução para questão racial do país, o protagonista deixa claro que o problema viraria outro: o de classe. Vide a história de Tadeu, seu afilhado, que ascende socialmente virando engenheiro mas esquece suas origens.
De qualquer jeito, se minhas observações não tiverem nem pé nem cabeça, gosto de pensar que a obra nunca é do autor. A obra é do público. E por mais que o escritor tenha certamente impregnado o romance com sua visão de mundo, etc., é a apropriação dos leitores e a forma pela qual o público faz uso da obra que importa. Vide a valorização da obra amadiana por escritores moçambicanos na descolonização para a criação de uma utopia, de uma Moçambique possível.