O meu décimo sétimo aniversário. Resolvi manter um registo dos meus pensamentos íntimos. Talvez isso me ajude a descobrir como sou realmente: horrível, eu sei: egoísta, convencida e materialista. Por exemplo, ultimamente sempre que tento concentrar-me em algo sério ou belo, começo mas é a pensar no baile dos Spencers na próxima semana. Tenho vergonha da minha mesquinhez. Vou tentar fazer melhor este ano - desenvolver mais o meu carácter e não estar sempre a pensar em me divertir. Tenho sido sempre tão feliz que receio muitíssimo o desapontamento e a infelicidade, mas eles far-me-iam bem. Mas eu não os quero.
Se Rosamond Lehmann mantém o estilo etéreo e melancólico deste livro em todas as obras (e as primeiras páginas do segundo volume da série Olivia Curtis assim o indicam), estas são características muito especiais a associar a uma autora que caminha algures entre a técnica mais tradicionalista do romance britânico e o bildungsroman psicológico e moral. E a novela Convite para a valsa é um exemplo perfeito dessa conjugação de correntes, oferecendo um misto de vinhetas, recortes e narrativa longa de pendor introspetivo e humanizado sempre a resvalar entre a tradição romântica e a germânica.
No centro da história está Olivia, o seu décimo sétimo aniversário e o primeiro baile como debutante numa sociedade elitista e fechada que ainda obedece a preceitos morais rígidos:
Apagaram as luzes e foram para cima. A porta do seu quarto, Mrs. Curtis beijou Olivia e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
- Boa noite, minha filhinha grande.
E assim o moribundo dia do aniversário foi gentilmente sugerido, flutuou por um momento e expirou.
E se isto é demasiado simples, tal qual a vida, aquilo que é simples rapidamente se complexifica. Deste dia, e apesar das condicionantes impostas pelo meio, nasce a consciência de finitude (um marco simbólico da idade adulta)...
Sentiu-se assustada, vendo vistas sombrias abrirem-se diante dela. Vinte e sete, trinta. Céus, a juventude teria passado. Era inimaginável. Que queria ele dizer? Apesar das voltas obscuras e ambíguas do seu discurso, ela sentiu o significado que se ocultava nele: uma profecia de mudança, de erros, de estar sozinha e não feliz, demasiado para aguentar.
...e nascem pequenas rivalidades inconsequentes alimentadas por um meio leviano e frívolo para o qual o sentido da vida não sobrevive fora de portas dos salões (um elemento que prende a protagonista à juventude):
Encostaram-se à parede e ficaram lado a lado, observando os pares a revolutear com animadas expressões de interesse forçado. Não se podiam separar até alguém vir separá-las, mas sentiam que se odiavam uma à outra.
Nos dias que seguem, nasce também o primeiro desgosto e a primeira deceção com a crueza da realidade - a marcar o colorido de uma adolescência que se aproxima do fim:
A [dança] número 19 tinha acabado. Archie continuava de pé no corredor, logo à saída da sala, olhando lá para dentro. (...) Primeiro parecera que ele estava à espera, com uma pontualidade gratificante. Mas estavam a bater palmas para o primeiro encore e ele continuava ali de pé. Com certeza que ele a tinha visto. O seu olhar, vago e apressado, pousara nela um instante e passara adiante. Parecera não a reconhecer. Ela deslocou-se para uma posição onde pudesse ser mais notada. Primeiro sentou-se, depois levantou-se e encostou-se à parede. Observou-o, em pânico, sem parecer observá-lo. As batidas do seu coração tornaram-se tão sonoras e tão rápidas que pensou que ia sufocar. Depois do segundo encore saiu do salão para o corredor, passando mesmo junto a ele. Archie deitou-lhe um relance inexpressivo. Ele tinha de ter trocado o número, tinha de ser. E era impossível ir ter com ele por causa de todos os outros. Isto não pode ser verdade. É demasiado para se conseguir suportar. Como posso eu viver se me vão acontecer coisas como esta? Nunca pensei que ele se enganasse...ou esquecesse... ou ignorasse. Tal nunca me ocorreu. O que devo fazer?
Enquanto o 17° aniversário marca o despertar intelectual de Olivia, as poucas horas vividas no baile marcam o seu amadurecimento emocional, o aceitar da vida como ela se oferece - com um glamour superficial, com um verniz tão fino que lasca. De súbito, uma realidade que parece cor de rosa...
Afinal era assim que as pessoas reais eram, tal como ela sempre imaginara; não sinistras, inexplicáveis, mas simpáticas e simples, aceitando uma pessoa agradavelmente, com humor mas sem malicia, sem condescendência, crítica ou carícias. Como era extraordinário estar ali com eles. Passar da posição de marginalizada, arremessada para lá da borda mais afastada, a penetrar de repente no mais profundo âmago da casa, a estar no lar deles. O baile, as pessoas do outro lado não eram nada, uma espuma à superficie que o vento logo varreria, Isto, o que ela sentia enquanto se encontrava de pé entre eles, era a realidade da casa: amabilidade, tolerância, cortesia, orgulho de família e afecto.
...revela-se de matizes muito escuros, com vários aspectos ocultos debaixo da polidez superficial:
Que coisa chocante... Que tremenda má peça ele devia ser apesar do seu fascínio completamente arruinado. E pensar que fui até lá falar com ele, sem me aperceber... Sentiu-se invadida pela vergonha ao pensar nisso. Então é assim que as pessoas ficam quando estão embriagadas. (Seria possível que Peter também...?) Que sorte a Tia Blanche, a sua pobre mãe, ter ido deitar-se e ser assim poupada àquela visão vergonhosa.
Recheado de reflexões doces e de vários elementos de introspecção, fazendo uso da corrente de consciência e de um/a narrador/a omnisciente, Convite para a valsa é uma janela que se abre para a vida interior, para a juventude e o crescimento, e um mimo cheio de luz e leveza que termina numa muito perspicaz interpretação da expressão simbólica da vida, da transição para a idade adulta e do discernimento que forçosamente acompanha uma jornada de crescimento:
Olivia saiu para o jardim. Desceu apressadamente o relvado, passou a nogueira sem parar para se baloiçar(...). Quando chegou à horta começou a correr.(...) Está tudo a mudar, está tudo diferente. Correu o mais depressa que podia pelo caminho abaixo e saiu o portão entrando nos campos. Um faisão irrompeu das árvores e estremeceu no ar, fazendo soar o seu rouco mecanismo de alarme. Ela correu pela turfa irregular e húmida. Sou deixada para trás, mas não me importo. Eu também tenho muito em que pensar. (...)
Lá vinha ele, através de campos lavrados e terras incultas. As gralhas-calvas cintilaram vivamente, a lebre e a sua sombra desviaram-se à súbita luz do sol. Dentro de um instante estaria em toda a parte. Ei-lo. Olivia precipitou-se para ele.