ainda estou para encontrar um livro sobre pop — mais analítico-estético do que sociológico — que seja sustentável por mais de 70 páginas. isso tem a ver com as minhas expectativas e com os meus péssimos hábitos de literatura, ya... mas também é efeito daquela estase pró-rock dos anos 60 e 70, que condicionou a forma como se começou a escrever sobre música. ninguém foi realmente pela igualdade de oportunidades; tiveram fôlego suficiente para dizer que afinal as guitarradas não eram um disparate adolescente, mas ficaram hipóxicos pouco depois, e aí se definiram os critérios para lidar com todas as comodidades musicais do futuro. é aqui que se começa a lascar o meu argumento "é tudo pop ao fim e ao cabo": é que as intenções artísticas, e as formas de as comunicar, são muito diferentes.
isto para dizer que um álbum dos ABBA era avaliado pelo mesmo barómetro com que se media um álbum dos Who, e não sei para quê nem para quem. Falham Todos Os Critérios que Definem um Álbum Digno. os critérios de quem? naturalizados por estes ignorantes que, recebendo qualquer disco da Chaka Khan, premiam o botão "três estrelas". caralho! qualquer coisa para legitimar o enxovalhanço desejado para quem gastava mais tempo com melodias do que com letras.
o muito necessário contraataque vem em livros como o You're History da Leslie Chow, ou este Abba Gold, que glosam uma ideia original e até engraçada; neste caso, reivindicar numa série de ensaios sobre Álbuns Clássicos um lugar para uma compilação de melhores êxitos (que foi muito mais do que isso: uma coleção praticamente responsável pela possibilidade de olharmos com reverência para os Abba, sem sermos insultados a pronto). bastou isso para eu querer ler, e é muito fixe e provocador todo o confronto conceptual entre noções de pop e normas para Álbuns Clássicos.
no coração da narrativa, está o papel deste CD como motor de dignificação dos Abba — o que passa pelo design. e há um certo lamento, dedicado à opulência kitsch que também os tornou ícones, e que percorre o livro todo, que não contamina a escrita. é um olhar de alguém que é parcial ao bom açúcar da música pop, sim, mas é rigoroso, como se conseguisse conciliar um gosto genuíno com altas pretensões de seriedade (sou culpado disto também). reparo numa certa distância, e percebo que talvez isso seja de ordem material: este, como todos os volumes 33 1/3, ronda uma centena de páginas, e todas as 19 faixas são tratadas.
entre rockismo e poptimismo, sobrepõe-se a alguma sensação de vitória ("uau, Dua Lipa no top de álbuns do ano!") o amargo de boca que vem de perceber que... falta formular uma "escrítica pop", como diria o outro, que realmente dê as flores adequadas à música pop, e não vá só roubá-las a outro jardim mais cultivado e experimentado há décadas. tipo sim, Dua Lipa no top de álbuns do ano, brutal, mas as grandes instituições do jornalismo musical souberam escrever sobre esse álbum? não creio. estes livros dão-me mais esperança, tendo mais liberdade e tempo do que peças de jornal/revista, mas acabam por padecer um bocado do mesmo mal: crescemos demasiado presos, nós, escribas parciais à pop, a bases que nos impingiram. falta-nos desenvolver a nossa própria teoria.
seguindo esta lógica, o You're History estaria mais próximo do que eu quero, mas depois também não consigo aderir completamente à abordagem defensiva para dizer coisas que são essencialmente especulativas a partir do som (e a Vincentelli tem um ponto interessante sobre as biografias de artistas pouco controversos, que se tornam parte legível da música pop/rock). mas são originais, dá aquela impressão de "porque é que mais pessoas não escrevem sobre o poder orgásmico das onomatopeias da Sade?" — mas também se põe em bicos dos pés, chamando a um conjunto que inclui Rihanna, Taylor Swift, Janet Jackson e as TLC "as 12 mulheres mais estranhas na música"??? continuamos a querer agradar aos suspeitos do costume, e eles não nos passam cartucho nenhum.