Quando ultimamente as prateleiras das livrarias estão recheadas de vampiros sensuais, "perigosos" e um tanto "xoninhas" (sendo o Edward de "Crespúsculo o expoente máximo de "vampiro xoninhas"), é refrescante encontrar criaturas que, apesar de sensuais e inteligentes, são realmente monstruosas e com uma humanidade a rondar a inexistência.
Certo que o género em questão é datado. O Horror Punk esteve em voga nos anos 90, até alguns dos principais autores do género (entre os quais a Nancy A. Collins) decidirem explorar paisagens mais agradáveis. No geral, eram histórias urbanas, violentas e com uma forte componente "gore". Embora esta série tem todas estas características, vai um pouco mais longe.
Sonja Blue é uma protagonista forte, brutal e carismática, que carrega esta série aos ombros, coadjuvada por personagens secundárias cativantes e vilões absolutamente deliciosos. A violência não chega a ser gratuita, mas está bem presente ao longo dos três livros, o que não é de estranhar se tivermos em consideração que a protagonista é uma caçadora de monstros. Mas não é pelo “blood & gore” que não aconselho esta série aos fracos de estômago, mas pelo sentimento de ausência de esperança que se vai, inevitavelmente, formando no espírito do leitor. Sonja Blue é um monstro que caça outros como ela. Ela tenta, a todo o custo, manter a sua humanidade, o que não é uma tarefa fácil quando todas as suas esperanças são destruídas juntamente com aqueles que ela ama ou poderia ter amado. No fim, Sonja está sozinha, entregue a si própria e em conflito consigo mesma (de uma forma bastante literal!).
A protagonista movimenta-se entre a escória da Humanidade, mas também do sobrenatural, nas zonas mais decadentes das cidades. Se estão à espera de glamour, esqueçam. O cenário é escuro, sujo e pesado, onde o humor negro e personagens com um charme muito especial têm espaço para brilhar. O mundo criado pela autora (o The Real World) é povoado por todo o tipo de criaturas: vampiros, lobisomens, vários tipos de demónios, serafins... cada uma delas com as suas tradições e segredos.
O que todas estas criaturas têm em comum é o facto de se esconderem da Humanidade. São “Pretenders”, ou seja, tentam passar por humanos para melhor poderem caçar as suas presas e escaparem aos caçadores. Mesmo hoje, a abordagem que a autora faz dos vampiros, e das outras criaturas sobrenaturais, consegue ser original.
As personagens secundários são muito cativantes, mas a cereja no topo do bolo são os vilões. É raro encontrar vilões consistentes e este são-no, especialmente quando percebemos o que os motiva. A doentia relação de amor-ódio que a Sonja mantém com o seu criador é muito bem explorada, especialmente no terceiro livro. E sim, há romance... Mas não esperem os típicos romances dos vampiros do século XXI, porque também o romance acaba por ser sugado pela espiral de desesperança do mundo criado por Nancy A. Collins.
É uma pena que esta série não seja mais conhecida, mesmo entre os fãs de vampiros. Recomendo a todos aqueles que estão fartos de vampiros “vegetarianos” e anseiam por um reencontro com os verdadeiros monstros.