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Louças de família

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O que resta depois da morte de alguém? E se esse alguém for uma mulher negra?

Forjando-se no terreno avermelhado pelo sangue das vacas, na fronteira entre Brasil e Uruguai, onde num armário de louças se confundem tiranos e subalternizados, negros e brancos, esta história começa com a morte de tia Eluma, empregada doméstica na cidade com nome de Ana.

Quem responde por essa morte? Quem pagará o velório dessa mulher que se cria no batuque e morre na igreja universal do reino de deus? O que a narradora herda da tia e o que abandona?

Tendo a vida (e a morte) de tia Eluma como ponto de partida, a narradora puxa o fio que se estende à sua primeira ancestral conhecida da linha materna, passando por outras parentes suas que, para chegarem até aqui, limparam os pés nas pedras dos arroios lavando a roupa suja dos brancos.

Entre os pontos altos deste Louças de família está a própria linguagem, que amalgama português, espanhol, iorubá e uma dicção literária surpreendente.

257 pages, Kindle Edition

First published April 14, 2023

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About the author

Eliane Marques

7 books2 followers

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Community Reviews

5 stars
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1 star
3 (2%)
Displaying 1 - 23 of 23 reviews
Profile Image for Raquel Bello  Vázquez.
102 reviews1 follower
September 28, 2024
Marques opta por uma prosa densa, simbólica e eu diria que devedora de psicanálise que a autora pratica, para se aprofundar nos traumas e nas feridas do inconsciente que a sua narradora (que se autodenomina ressentida) carrega. Louças de família retrata o ambiente opressor de Santana do Livramento, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, e, embora os topónimos estejam mascarados, a maioria são facilmente reconhecíveis, inclusive para uma pessoa, que, como é o meu caso, não conhece muito a região.


Gostei da escrita de Marques pela profundidade com que elabora as relações de amor e ódio dentro da comunidade e até no interior das famílias. As dependências físicas, econômicas e emocionais, a repetição dos traumas provocados por um racismo secular que envenenam as relações, inclusive, dentro das famílias negras, elas mesmas atravessadas por ideias entranhadas de racismo e colorismo são tratadas com uma complexidade que desacomoda a leitora e a obriga a ter uma função ativa na criação dos sentidos do texto.

Dura na sua análise da sociedade brasileira e no papel das elites brancas, consegue trazer para o seu romance também as contradições e as ambiguidades que uma estrutura social como a brasileira acaba por introjetar na psique das pessoas.

Resenha completa no meu blogue:
https://leiturasaleatorias6.wordpress...
Profile Image for Gabrielle Cunha.
432 reviews118 followers
June 12, 2023
Gostei muito - mesmo com a linguagem que me atrapalhou bastante durante a leitura. São histórias muito potentes e necessárias. Cuandu, a narradora, reflete sobre suas ancestrais e todo o legado que ficou nela. Com muito ressentimento - como ela mesma gosta de reafirmar durante a história - ela vai compondo, através dos cacos, das louças e das vivências dessas mulheres negras, sua vida. É bem duro, triste, fica um gosto amargo na boca.
Profile Image for Nathalia De Rosa.
18 reviews
May 24, 2024
Uma escrita difícil, demorada e reflexiva.
Eu tive o prazer de conhecer a escritora e ouvir a discussão sobre o processo deste livro.
No começo da leitura, eu demorei até conseguir entender a “cabeça” da personagem.
Mas depois, eu criei um afeto, uma necessidade em conhecer mais sobre tudo aquilo…
A riqueza de detalhes desse livro não se explica
É necessário ler mais vezes para compreender em sua essência
Mas fico feliz em ter conseguido adquirir, mesmo que pouco, do que a autora quis passar
Provocativa e intensa, a autora consegue trazer a dor e a necessidade em falarmos sobre colonialismo, mulheres, sociedade e humanidade (ou não)

Enfim
Leiam! Demorem, degustem
Tentem engolir a verdade que ela trás
Não desistam e se entreguem a profundidade das palavras da Eliane Marques
Profile Image for Mariana Botter.
30 reviews6 followers
May 22, 2024
Muitos elementos impressionam no livro de Eliane Marques: a linguagem, a história, a honestidade. A partir da morte de uma de suas tias, a protagonista narra a história de sua família, escravizada por séculos. Vidas marcadas por uma sina que ela pretende e, em grande medida, consegue interromper. A narradora não quer seguir, como aconteceu com suas ancestras (termo que ela cunha), pelo caminho da servidão: não casa, não tem filhos, luta para não se submeter a uma família branca.

Em Louças de Família, Eliane Marques, com toda sua potência, traz à tona, sem nenhum disfarce, a exploração e a humilhação a que as pessoas enegrecidas foram, e são, submetidas. E o faz sem romantizar qualquer sofrimento. A beleza que destaca nas mulheres de sua família não é jamais a da sobrevivência ao sofrimento, mas a de sua força.

A linguagem traz marcas que contribuem muito para a narrativa. Exemplo disso é a mistura do espanhol com o português, típico da fronteira sul do Brasil, onde nasceu a narradora. Ainda mais interessantes são os neologismos, que dizem muito da visão da protagonista sobre os acontecimentos: pessoas enegrecidas, expaimeu. O diálogo constante conosco, leitoras, e as observações sobre os supostos erros ao narrar nos tiram do afastamento que traz a ficção, e relembram que estamos em terreno de muita realidade.

Um livro que carrega em si a força de sua autora e que vale muito a pena ser lido!
Profile Image for Laiz.
75 reviews
June 17, 2025
o livro tem um início e um fim promissores, mas perde força ao longo do desenvolvimento. A inserção de muitos personagens não contribuem para a narrativa e torna a leitura dispersa e pouco envolvente. Além disso, a escrita excessivamente informal confunde e enfraquece a história. Apesar de alguns momentos sensíveis, a obra não sustenta o potencial apresentado nas primeiras e últimas páginas.
Profile Image for Julia Landgraf.
156 reviews83 followers
September 12, 2025
a experimentação linguística e narrativa não funciona pra mim (que anseio por mais concretude)
Profile Image for Mateus Pacheco.
8 reviews
April 19, 2025
Uma história e tantas, mas tantas identificações… Eu sempre acreditei que o bom da leitura é que você também possa se sentir parte daquele enredo contado. Acho que esse foi o livro que eu mais fiz marcações e teci comentários em notas porque sempre surgia uma situação que me fazia dizer “CARACA, EU SEI MUITO BEM COMO É ISSO”. Eliane merece todos os prêmios com essa obra!

Contando a história de várias mulheres, “Louças de Família” me fez conectar com a vivência da gente preta e subserviente. Dentro do coletivo racial, nos encontramos e conectamos com as situações apresentadas. Não consigo dimensionar a dor triplicada que impacta na vida de mulheres e, principalmente, de mulheres pretas. Pelo título, já me remetia que seriam questões de memórias a serem apresentadas, mas não imaginei o quão impactante essas louças poderiam se tornar. Esses cacos são juntados no mais profundo sentimento de angústia da autora.

No início, a leitura me arrastou um pouco, principalmente por uma dificuldade que senti com a linguagem usada pela autora - mas que depois fez todo o sentido com o contexto que ela mesma apresenta - a história foi me envolvendo pelas narrativas que cada personagem se envolvia e como os núcleos iam se desenvolvendo a cada parte. Confesso que até me senti culpado de não ter sacado o lance da linguagem

O choque da morte, evidentemente, foi o ponto de partida para lembrar das minhas que já se foram e a partir dali é como se eu tivesse me desenvolvendo em uma longa sessão de terapia. Não é fácil se aprofundar em traumas e sensibilidades que, no fundo, sabemos que não pararam de sangrar. Eliane, nós sentimos juntos com você todo esse ressentimento que você mesmo ressalva no livro.

Ainda mais que a dor individual, é enxergar como o coletivo sofre, no social, nas divisões raciais impostas por uma sociedade brasileira elitista e que coloca a dura realidade do racismo, em todas as estruturas, e senti doer tanto quanto, sabe? Entender esse contexto da sociedade é duro, mas necessário para que possamos entender aquilo que está tão intrínseco e, muitas vezes, pode parecer confuso dentro de nós.

A recomendação é mais que necessária! Por mais difícil que possa ser, precisamos passar por essa leitura para entender, significar e ressignificar o nosso espaço enquanto indivíduo dentro de um coletivo social.
Profile Image for luisa woidaleski.
257 reviews12 followers
January 12, 2024
pode ser até que estivesse encoberto pelo cansaço da viagem de mais de dez horas dentro de um ônibus vindo num trote da cidade com nome de santa até a cidade dos ajuntados, mas tia olma parecia não guardar ressentimento, exceto quando diz que era a negrinha da casa. quem sabe o ressentimento agora fosse menos importante, advindas tantas dores divididas comigo. a ressentida sou eu.

em uma narrativa que vai e vem e conversa com a leitora — sim, leitora, cuandu se dirige particularmente às mulheres — até mesmo sobre escolhas de palavras e, por que não, rimas, somos apresentadas não apenas à tia eluma, cuja morte abre o livro, mas a todas as mulheres da família da narradora que de certa forma foram passando para a geração seguinte a servidão em casas de uma família branca, sendo passadas de mães para filhas como se fossem objetos, louças de família.

passando-se na fronteira entre o brasil e o uruguai, temos termos e até trechos inteiros em espanhol, o que pode causar não apenas estranhamento, mas também certa dificuldade na leitura, mas é onde a autora, eliane marques, nasceu e isso fica aparente pela forma como ela se refere a ruas e cidades no entorno com facilidade.

é uma escrita diferente, embora muito bonita e poética, que traz uma análise do impacto psicológico que o cansaço da subserviência e a escravidão traz sobre mulheres negras até os dias de hoje, das mulheres que foram criadas para servir e passaram a vida toda em função de "praticamente da família" às mulheres que cresceram vendo suas mães ou avós servindo a casa da família branca em detrimento da sua própria casa, da sua própria família. eliane não mede esforços em passar para sua protagonista, cuandu, todo o ressentimento que fica engarrafado na solidão de quem não tem com quem se expressar sinceramente.

recomendo fortemente.
Profile Image for Kalany Ballardin.
53 reviews22 followers
June 28, 2023
o fluxo narrativo foi agradável pra mim, mas senti que nunca chegava num ponto. são vários personagens que a protagonista revisita, montando um panorama da vida na cidade com nome de santa e arredores.

exploração de trabalho, racismo, desigualdades profundas aparecem explicitamente.

a linguagem criada pela autora, entre o pretonhol e o pretoguês foi difícil de entender e cansou a leitura em vários momentos.

o livro também é cheio de referências a outras autores e autores, anotados no rodapé.
21 reviews
January 21, 2025
Um livro que permaneceu comigo e aos poucos fui processando as referências, as experiências e a história. Nunca entenderei a angústia e a dor da protagonista-narradora, que não era protagonista da própria história, à sombra das louças-memórias de família. Esse passado negro do sul do país que é tão bem tentadamente escondido na narrativa da imigração branca-europeia. Tive dificuldade com a leitura, não engatava e parecia engasgar. Na verdade, acho que é isso mesmo: um viver engasgado que transparece na escrita. Lindo, lindo! E horrível.
Profile Image for Samuel Martins.
64 reviews
October 11, 2024
que escrita maravilhosaaaaa!! muito me encantou a forma em que marques escreve, embora bastante reflexiva e que precisa ser lida aos poucos, para reflexão e.. não sei - talvez não tenha terminado de refletir
31 reviews
July 8, 2023
O casarão colonial mid-century, a ancestralidade e a escravidão no novo livro de Eliane Marques

“Louças de Família”, o romance de função crítico-social e racial de Eliane Marques traz uma narrativa de peso à literatura contemporânea de quem escreve sobre racismo, ancestralidade e as feridas da escravidão. São negros subalternizados que lavam estas “louças de família” portuguesas e polidas no casarão colonial.

A morte da tia Eluma representa uma linha cronológica familiar e ancestral marcada pelo labor de lavar a roupa sujas de suas sinhás e senhores nos séculos XVIII e XIX.

Quem lava a roupa da sua casa diz muito sobre você e sua prática anti-racista. O seu vocabulário, os lugares que frequenta, te dizem se você é anti-racista ou carrega o elitismo e segregação racial do casarão colonial que reverberam até hoje. Nossa elite pratica injúria racial, paga fiança e com um bom advogado, saem da prisão.

Cuandu é a narradora de linguagem de gente simples, aquela que molha o biscoito no café, que lava uma rede, que faz uma faxina, mulher-narradora corajosa, transparente em simplicidade:
nada cerimoniosa, toda cristalina e bela pela sua coragem ancestral.

Sem proselitismos. A morte da tia Eluma, aquela que fazia “a azáfama doméstica sob o mando delicado das louças” mexe com sua mente, memória, corpo e emoções.

Ler Eliane Marques é revisitar memórias como fogão a lenha. Mas quem cozinha para todos desta casa?

Eliane também traz referências da cultura afro-brasileira, que no séc XXI chamamos de diáspora religiosa dos escravos em meio ao catolicismo/igreja/padre dos brancos. Evocar os orixás em orações era a forma que os escravos encontravam de serem abençoados e protegidos.

A riqueza da narrativa com a oralidade da cultura popular, os saberes e fazeres populares, Eliane faz um movimento de simplicidade com as palavras onde a narradora nos encanta pela sua candura, modéstia, parcimônia e qualidade literária de impressões e descrições.

Cuandu nos encanta arrumada a contar histórias. O cuidado das “belas peças que eram coleção real de altíssima qualidade feita em porcelana de pasta dura confeccionada no país do imperador” que hoje ainda cultivamos: porcelanas de família. louças de família. Te convido junto a Cuandu explorar histórias reais de um mundo dividido até hoje da mesma forma. Ainda guardamos louças de família. Mas pouco se fala de quem cuida, preserva e as deixam polidas para a cristaleira.




Profile Image for Carlos.
Author 13 books43 followers
December 31, 2024
Louças de Família aborda o legado de uma família de mulheres negras do Interior, vulnerabilizadas historicamente cada geração a seu modo, e passeia aos saltos da memória da protagonista, Cuandu, para as vidas de sua avó, de sua tia Eluma, de sua madrinha Lilite, de sua mãe e outras mulheres negras submetidas a um ciclo de repetição de explorações mesmo quando tentam ensaiar fugas malfadadas. Eluma, a tia, morre após uma vida trabalhando como doméstica na casa de uma das famílias da elite local, mas não há dinheiro nem para pagar seu enterro. Lilite busca a redenção na Igreja, para onde leva o restante da família sem que isso mude os elementos mais problemáticos das vidas de todas as envolvidas. A mãe da protagonista desaparece aos poucos em um casamento abusivo. Mesmo a narradora, após buscar na educação a liberdade do ciclo, se vê assolada pela responsabilidade de narrar as vidas das gerações de mulheres aviltadas antes dela.

Situado na região da fronteira com o Uruguai, é um romance que também se orquestra ele próprio na fronteira da linguagem, com uma prosa que mescla português, espanhol e iorubá e com uma dicção na qual a poesia contamina a prosa, palavras se mesclam e se engavetam, e onde, num toque metaficcional, a própria narradora por vezes reclama das exigências dos revisores.
Profile Image for Gira Trinco.
8 reviews
Read
December 23, 2025
Esse livro foi refrescante, não esperava que ele fosse propor algo tão interessante em termos de linguagem. É desafiador? Com certeza, mas não é difícil enxergar o trabalho por trás e o propósito do que é apresentado. A história do povo negro brasileiro é complexa, envolve muitas violências e traumas, e, pensando bem, me surpreende que não tenhamos mais obras semelhantes a essa, que se permitem mais ao elaborar tanta dor. Adoraria que isso fosse obrigatório nas escolas, que não deixássemos para a vida adulta certas conversas; a realidade não nos espera completar 18 anos para nos confrontar com certos temas. Fiz uma resenha maior sobre o livro lá no meu canal do Youtube, Gira Trinco; deixo aqui este convite para você ir lá conhecer: https://www.youtube.com/watch?v=tCyOp...
Profile Image for Amanda Antunes .
39 reviews
January 28, 2025
Um romance atemporal que desenha, através de uma linguagem experimental, a estrutura ancestral mais predominante das famílias afrobrasileiras. A escrita de Eliane Marques neste romance não tem compromisso com a linearidade do tempo, entretanto, ela tece uma narrativa sofisticada e primorosa através de adjetivos conectados a geografia, ao parentesco e a história. Não foi uma leitura confortável porém creio que Marques atinge o objetivo de incomodar. Se você espera um livro professoral, este não é para você.
Profile Image for Lucille.
1,364 reviews21 followers
July 15, 2024
uma obra bastante fluída e que aborda o racismo de maneira bem crua, embora, de algum modo seja uma leitura difícil( q é o objetivo) com uma narrativa que foge bastante do habitual e causa algum estranhamento, uma leitura necessária
23 reviews1 follower
June 21, 2023
Um livro desconcertante, que não cansa de mostrar porque o racismo é uma questão estrutural e não apenas individual. De uma poesia que poucas vezes vi igual. Delicado, mas não sutil. Bonito e genial.
Profile Image for Manoela Veras.
43 reviews5 followers
March 23, 2025
Um livro que, utilizando uma linguagem poética e referências à cultura negra, demonstra que as cicatrizes da escravidão seguem abertas e sangrando no povo brasileiro, principalmente nas mulheres negras.
Apesar do desenvolvimento lento na primeira metade do livro, a história nos envolve e escancara o caráter racial da desigualdade no Brasil hoje.
Displaying 1 - 23 of 23 reviews

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