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JANELA SOBRE A UTOPIA
Ela está no horizonte – diz Fernando Birri. – Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte recua dez passos. Por mais que eu caminhe, nunca a alcançarei. Pra que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar.
Publicado em 1993 e embelezado com as xilogravuras naïves do brasileiro Jorge Francisco Borges, “Palavras Andantes” acabou por não me encantar tanto como as obras de Eduardo Galeano que li anteriormente em que era mais flagrante “a sua manifesta tendência para o panfleto”, como comenta um dos seus interlocutores num destes contos.
JANELA SOBRE A NUCA
As coisas são donas dos donos das coisas e eu não encontro a minha cara no espelho. Falo o que não digo. Estou, mas não sou. E entro num comboio que me leva onde não vou, num país exilado de mim.
Além das “Janelas”, os aforismos que são a imagem de marca do autor, esta obra é formada por lendas, contos de folclore e pequenos relatos impregnados de realismo mágico, um tipo de leitura oralizante e mística que tende a aborrecer-me. Há esqueletos que falam, arcanjos que descem à terra, golfinhos que se deitam com mulheres, órfãos que nascem de ovos ou se transformam em espigas de milho, bruxos e bandoleiros, animais antropomorfizados e pessoas zoomorfizadas que ilustram a veia pan-americana de Galeano, com ênfase na América Latina. Entre esses textos destacam-se “História do homem que no alto céu amou uma estrela e foi por ela abandonado”, “História da intrusa”, “História do sapateiro que fugiu dos credores” e “História do homem que queria parir”, que leva a misoginia que Galeano sempre denunciou a um outro nível.
As mulheres? Uma raça inferior, como os negros, os pobres e os loucos. Inaptas para serem livres, como as crianças. Destinadas a chorar e a gritar, a dizer mal umas das outras e a mudar diariamente de opinião e de penteado. Na cama e na cozinha, às vezes dão prazer. Fora disso, só desgostos.
Dom Seráfico sempre fora um homem de ideias claras. Mas agora, no crepúsculo dos seus anos, o diacho de uma sombra toldava-lhe a razão. Uma coisa nas evas não lhe inspirava desprezo nem pena. Por mais que lhe custasse reconhecê-lo, invejava-as: elas podiam, ser habitadas e ele não; elas podiam ser dois, e ele não. Dom Seráfico não se queixava da vida, que muito gozo e fortuna lhe oferecera; mas ele nunca parira e indignavam-no os privilégios alheios.