Aviso: alguns erros gramaticais são culpa minha, outros do corretor automatico (acentuação principalmente). Não vou corrigir. Acho que ta legivel.
Supostamente é uma introdução à física com boa reputação. Não sei, não tenho com o que comparar.
Eu diria que é bom sim, do ponto de vista de um leigo em fisica e estudante de filosofia, ao menos. O Reichenbach escreve com clareza, usa uma infinidade de exemplos e experimentos mentais, varios deles hoje consagrados na divulgação cientifica, e vez ou outra é até poético. Certamente passa uma visão da fisica (e de sua história) como algo dinamico, conflituoso e passional, sem negligenciar o rigor matematico e experimental da fisica moderna, que são suas principais caracteristicas. Esta ultima parte sendo a que Reichenbach realmente domina, enquanto fisico e filosofo da ciencia. O conhecimento dele de história da fisica não deixa a desejar, porém. Apesar da má fama dos empiristas lógicos, Reichenbach tem uma visão da história da fisica ainda atual, e em parte alguma me soou como um ideólogo defendendo a ciencia (nada é dito sobre progresso cumulativo, por exemplo, na verdade, ele sugere o oposto disso).
Ele chega a mencionar o fato de que há revoluções na ciencia, conflitos entre escolas de pensamento e entre gerações de pesquisadores, admite que há fanatismo e dogmatismo envolvidos no desenrolar da ciencia e por ai vai (o livro é de 1942, anterior à Kuhn e à popularização da história e da sociologia da ciencia). Nada disso implica em relativismo e afins.
O livro provavelmente está bastante desatualizado, o que não tira o valor enquanto obra introdutória, historica e filosofica.
Ele não inclui nada de matematica e se esforça para apresentar o desenvolvimento da problemática em torno de espaço, tempo, eletromagnetismo e gravitação de forma argumentativa, comparando as visões de mundo, desde a ptolomaica até a einsteniana, e destacando tanto o que permanece do antigo no novo, quanto o estranhamento que as novas teorias causam, pelo menos a principio, antes de se tornarem lugar comum.
Mas afinal, para que eu li isso em meio a um semestre abarrotado e com pouquíssimo tempo para meus estudos principais (que não incluem fisica e nem filosofia da ciencia)? Foram vários os motivos. Listo os principais:
1. eu leio coisas aleatórias enquanto postergo as atividades academicas que são enfadonhas mas não tão dificeis. Isso ajuda a usar melhor o tempo e não desperdiça-lo com preciosismo em atividades irrelevantes, o que aconteceria se eu as fizesse com antecedencia. Fazer em cima da hora me ajuda a ser sucinto e não passar tempo demais retocando o que é, no fim das contas, bosta.
2. to fazendo uma disciplina de filosofia da fisica, então meu interesse em ciencias naturais, e a angustia por não saber nem o basico de matematica, emergiram nos ultimos meses. A disciplina é sobre problemas em torno da axiomatização da fisica de particulas, as implicações metafisicas das teorias, e outras coisas mais. Nada a ver, portanto, com fisica classica e as teorias da relatividade. Espaço, tempo e gravidade não são abordados em momento algum. Vale a pena explorar mais o assunto, de qualquer forma.
3. o principal motivo é que eu venho lendo mais filosofia da ciencia desde o ano passado, a fim de iluminar as ideias em relação a epistemologia geral. Mesmo não tendo produzido nada a respeito ainda, fazer isso tem sido revigorante (epistemologia analitica é tediosa) e tem ajudado a entender melhor minhas intuições contrárias à epistemologia dos anos 1960 em diante, além de oferecer vários insights que, creio eu, seriam bem vindos na epistemologia. Este livro do Reichenbach tem alguns trechos breves que tocam em assuntos que me interessam bastante, principalmente no que concerne a aspectos psicologicos, pessoais, sociais e valorativos presentes em atividades epistemicas tais como a investigação cientifica; e também sobre a relação entre ciencia e senso comum.
Exemplos:
3.1 já na primeira pagina Reichenbach fala que os homens discutem acaloradamente sobre o que são o espaço e o tempo desde muito tempo atras, o que é curioso por pelo menos duas razões: primeiro, por ser um assunto irrelevante do ponto de vista pratico; e segundo, por sugerir, desde o inicio do livro, uma ideia da atividade cientifica como dialética e como fundada, a nivel pessoal, em motivações intelectuais (i.e. pura curiosidade e desejo de entender a realidade).
3.2 O ultimo capitulo é dedicado as discussões filosoficas baseadas nos cinco capitulos anteriores, que cobrem a historia da fisica. Novamente, o que Reichenbach fala ao caracterizar a ciencia e os cientistas contrasta bastante com a caricatura que recebemos dos empiristas lógicos como frios e calculistas peaky blindianos. Este trecho (meio longo) me chamou atenção:
"[...] this is a truly Eisteinian turn. The physical depth of Einstein's ideas can be, indeed, comprehended only when one realizes how this method of reasoning is employed in his basic assumptions. This was the case in the special theory of relativity. It was known that several important attempts failed to confirm the existence of ther; Einstein concluded from this that, in general, no similar attempt can do better, no matter what means are used. The principle of equivalence reveals the same attitude. It is known that mechanical phenomena manifest no distinction between accelerated motion and gravitational field; Einstein concludes that this applies equally to all other phenomena. From the standpont of logic, one cannot speak here of an inference, for this far-reaching assumtion cannot be logically demonstrated by means of the scantily available facts. Rather, we have here a typical procedure in physics, that of the formation of a hypothesis; although a more extended assumption cannot be logically justified, nevertheless it is made in the spirit of a conjecture. There seems to exist something like an instinct for the hidden intentions of nature; and whoever possesses tihs instinct, takes the spade to the right place where gold is hidden, and thus arrives at deep scientific insights. It must be said that Einstein possesses this instinct to the highest degree. His assumptions cannot be justified in a purely logical way; yet they introduce new ideas quite in the right place. That the place is right, can be readily recognized when gold lies in front of us. [...]" (p. 94-95)
3.3 ao longo do livro são mencionados apenas os personagens principais da historia da fisica, e a filosofia é deixada de fora tanto quanto possivel, pois inclui-la seria mesmo desnecessário para os propositos da obra. Os unicos nomes de filósofos que aparecem são Kant, Hegel e Schopenhauer. Kant é mencionado somente para dizer que o surgimento das chamadas geometrias não-euclidianas e, depois, da fisica einsteniana, pesam contra o sintetico a priori e contra a suposta validade universal da geometria euclidiana (p. 121). Aparentemente, a teoria do conhecimento de Kant foi refutada não por argumentos filosoficos, e nem por filosofos, mas pelo progresso da ciencia, que se tornou estranha àquela que Kant pretendia fundamentar com sua filosofia. Hegel é mencionado de forma generica, quando Reichenbach defende que, à luz da teoria da relatividade, as teorias ptolomaica e copernicana são equivalentes (não me pergunte a explicação disso), e que, por isso, a fisica contemporanea é uma forma de sintese entre a visão de mundo geocentrica e a fisica newtoniana (p. 82-83). Schopenhauer aparece nas ultimas paginas, numa das partes filosoficas mais legais do livro, ele fala sobre como ideias que em dado momento causam estranhamento são incomporadas no senso comum, passam a fazer parte da nossa experiencia e não só deixam de ser contraintuitivas, como perdem seu encanto e se tornam 'triviais' (em sentido lato). Ele esperava que isso acontecesse com a fisica contemporanea, assim como aconteceu com a fisica moderna, mas, até onde eu sei, nós ainda lutamos para entender como a fisica atual se relaciona com nossas crenças ingenuas sobre o mundo fisico (tais crenças são ainda ptolomaicas e newtonianas; a teoria da relatividade, tanto quanto a fisica quantica, ainda causam espanto tanto em cientistas e filosofos quanto em leigos, em 20 anos este livro se torna centenário e não acho que até lá isso vai mudar):
"[...] the break with Euclidian geometry shakes the very foundations of our knowledge and signifies a transition to a knowledge of a higher kind, incomprehensible as this knowledge may appear at first view. But just as the Copernican worldview becabe at last generally recognized and a commom property of all educated people, so will it be with the theory of relativity. On hundred years from now, the doctrine will be accepted as self-evident; and it will be difficult to comprehend why it encountered at first so much opposition. In Schopenhauer's words, "Truth is allowed only a brief interval of victory between the two long periods when it is condemned as paradox or belittled as trivial." We who are permited to see this period of victory with our own eyes may consider ourselves fortunate to witness the Copernican discovery of our age." (p. 122-123)
Assim termina o livro.
4. o livro é curto e eu sou simpatico ao Reichenbach.