Psicopatas! Monstros! Alienígenas! Zumbis! Aos escritores aqui presentes, foi feita uma proposta: criar um conto de horror, ficção científica ou fantasia com completa liberdade temática. O resultado engloba assuntos tão populares quanto diversos: serial killers, crimes hediondos, delírios domésticos, demônios, monstros, mortos-vivos, alienígenas e toda sorte de argumento capaz de despertar a criatividade dos dezesseis autores aqui reunidos. O livro ainda traz uma faixa bônus, com uma nova tradução do conto O Cão de Caça, de H. P. Lovecraft, e esboços da capa.
Samir Machado de Machado nasceu em Porto Alegre, em 1981. É escritor, tradutor e mestre em escrita-criativa pela PUC-RS. É autor, dentre outros, dos romances Quatro Soldados, Homens Elegantes (Prêmio Açorianos de Literatura 2017), e Tupinilândia (Prêmio Minuano de Literatura 2019), Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti de Melhor Romance de Entretenimento, em 2021 por Corpos Secos, co-escrito com Luísa Geisler, Natália Borges Polesso e Marcelo Ferroni, e em 2024 por O crime do bom nazista. Sua obra já foi traduzida para o francês, o italiano e o inglês.
Acho que a última antologia que lerei por enquanto, Ficção de polpa me lembrou muito de Geração subzero, lida mais cedo neste mês. Creio que o fato desta ser a terceira resenha seguida de um livro de contos seja em parte coincidência, em outra decorrência de que é mais simples a leitura de contos durante uma viagem, que foi quando eu tanto terminei Final do jogo quanto comecei o primeiro volume desta série idealizada pela Não-editora que já acumula quatro coletâneas de histórias curtas.
A coleção idealizada e organizada pelo fundador da (não) editora, Samir Machado de Machado, almeja atingir o entretenimento despretensioso. A premissa é similar a da antiantologia de Felipe Pena, diferindo aparentemente na motivação ideológica: Ficção de polpa anseia explorar e estimular um pouco da ficção especulativa nacional, apesar da nossa suposta falta de tradição no ramo, não tendo criado a cultura da pulp fiction norte-americana.
Enquanto nossos amigos anglófonos tiveram acesso a reputáveis revistas como a Astounding, onde grandes nomes de ficção científica como Asimov, Clarke e Heinlein desenvolveram sua reputação, no Brasil as tentativas de trazer uma ideia similar em território nacional resultou em várias curtas tentativas de revistas de alguns números, como explica em sua história da ficção especulativa no Brasil o estudioso Roberto de Sousa Causo. Entretanto, a existência de tentativas per se, além de alguns nomes brasileiros de reputação que engatinharam pelo terreno que conhecemos como os “gêneros menores” da literatura, além de uma razoável quantidade de escritores e obras que jamais atingiram o grande público, já comprovam que exista uma certa produção, ainda que majoritariamente desconhecida, dessa ficção no cenário literário brasileiro.
A esta o organizador atribui um caráter didático e educativo que por vezes beira, devido a antiquidade dessas tentativas, alguns elementos desconfortáveis dessas sociedades, como o racismo latente que aponta na história O presidente negro de Monteiro Lobato. E pretende com sua antologia livrar-se deste aspecto indesejado da ficção especulativa brasileira ao apresentar em sua antologia contos com a função principal de entreter seus leitores e “explodir suas mentes”.
Entretanto, assim como na antologia de Pena, o resultado de uma tentativa de coleção despretensiosa de histórias divertidas acabou com um resultado irregular. Quando digo que a coletânea me lembrou de Geração subzero, foi tanto na proposta quanto em seu resultado: vários dos contos acabam não entregando o entretenimento ao qual se pretendem. Alguns resultaram em uma colegem de clichês da ficção especulativa (com admitido foco em horror). É possivelmente um resultado de ter procurado uma abordagem similar a da real “ficção de polpa”, que não era necessariamente conhecida por sua qualidade. É claro que nomes ilustres surgiram entre as páginas dessas revistas, mas como já dizia a lei de Sturgeon: 90% do que era escrito e publicado em suas páginas era, na falta de uma palavra melhor, ruim.
Em outros contos do livro, uma talvez tentativa de permancer por demais curtos acabaram com resultados apressados, que se esforçam em criar uma ambientação propícia ao medo mas apresentam uma falta de congruência que prejudicam o resultado final.
Admitidamente, a literatura de horror deve muito ao ambiente e criação de atmosfera, visto que seu principal objetivo é surtir um efeito na mente e comportamento daquele que lê. Não obstante, deve-se desenvolver uma história e personagens envolventes o bastante para que o leitor sinta-se engajado na ambientação. Ao criar ambientes típicos da literatura de horror, como o foco no noturno, no desconhecido, nos cantos escuros que não ousamos desbravar, uma atenção nos demais elementos da narrativa é necessária para que o leitor sinta que o conto está se desenvolvendo naturalmente. Quando as dúvidas sobre o porquê de tudo aquilo e os comos da situação se sobrepujaram à narrativa, o efeito se perdeu.
Reconhecidamente não sou muito afetado pelo horror em forma literária, mas ainda assim alguns dos contos me deixaram tenso e tiveram sucesso. Talvez isso derive do fato de o horror também, além de tudo, ser um sentimento intrinsecamente subjetivo, e seus efeitos variarem de pessoa a pessoa. É possível que muitos tenham sido inafetados pelos meus contos favoritos da coletânea, que listarei em breve, mas tenham gostado de outros.
Apesar de tudo, efeito ou não à parte, não consegui me engajar por alguns que simplesmente não me agradou a escrita, por motivos estéticos, por algumas figuras de linguagem e recursos narrativos que vez ou outra me pareceram por demais fora de lugar ou batidos demais que acabaram com minha suspensão de descrença. Creio eu que a melhor narrativa, no âmbito do entretenimento, seja aquela que lhe consiga apresentar a história de modo envolvente sem te lembrar que ela existe, que você está a ler. Quando emperramos na leitura para reparar naquela figura de linguagem, naquele recurso, naquela frase fora de lugar, o efeito de imersão se desfaz, e daí um dos motivos de uma experiência insatisfatória com boa parte da antologia.
Os contos que mais me agradaram são os que fogem mais do lance do terror e da ficção especulativa reminiscente das pulps antigas, ironicamente. Figuram entre os meus favoritos O fígado, de Sílvio Pilau, me surpreendeu positivamente ao narrar uma briga de um alcoólatra com seu fígado, agora de dois metros, que está tentando lhe assassinar por maltratar dele a vida toda, com uma premissa que me lembra O nariz de Gogol. Funghi, de Luciana Thomé, com seus cogumelos ambulantes. O desvio, de Antonio Xerxenesky, uma discussão entre uma gótica e um motorista sobre algum deles possivelmente ser o diabo. E uma tensão foi bem construída pelo Quando eles chegaram, de Rafael Ban Jacobsen, que entrega horror e ficção científica em um único envelope.
Encerra-se a antologia com seu “extra”: uma tradução do conto O cão de caça, de H.P. Lovecraft, coerente com a proposta da coletânea e com seu resultado pendente ao horror. Um conto que não tinha lido, mas que gostei e achei um complemento muito válido para fechar o primeiro volume. Não acredito que eu vá procurar pelos próximos volumes de Ficção de polpa, visto que muitos dos autores se repetem e, no geral, eu esperava mais deste primeiro volume, com apenas alguns poucos contos que verdadeiramente agradaram.
No primeiro volume do Ficção de Polpa da Não Editora vários escritores brasileiros foram convidados para formar a coletânea com a proposta de criar um conto de ficção científica, fantasia ou horror com completa liberdade temática. A ideia é super bacana, tanto que já rendeu quatro volumes da coleção. Mas até agora eu li apenas o primeiro, e posso falar que a ideia, além de bacana, deu super certo.
Fiquei muito surpresa com a qualidade dos contos. Todos muito bons. Claro que alguns se destacam, são incríveis e deixaram aguçada a vontade de ler mais coisas dos seus autores. E o mais bacana de tudo foi que todos os autores aproveitaram a liberdade para criar e conseguiram mesclar essa tradição atribuída aos norte americanos de criar terror e fantasia (o que eles fazem muito bem, sem sombra de dúvidas) com uma brasilidade que não parecia forçada.
Os contos fluíam muito bem, e não foi preciso inserir elementos fantásticos da cultura brasileira como o Saci Pererê ou a Mula Sem Cabeça para que eles fossem genuinamente brasileiros. A prosa se encarregou de tudo. Ficou claro que ficção feita no Brasil não precisa ser uma forma de apresentar o Brasil. Os autores souberam usar a prosa em favor do conto e não para mostrar que, bem, esse é um conto de ficção fantástico feito no Brasil.
O Brasil estava sim presente nos cenários ou em pequenos detalhes dos contos (uma rua, uma cidade, um traço cultural), mas isso não se tornava mais importante do que a narrativa. Ponto positivo para os autores. Além disso, os contos mostraram para o que vieram. Cada uma à sua maneira mostrou a pitada certa de horror, fantasia e ficção científica, apensar de na maioria das vezes a veia do horror falar mais forte. O que de modo nenhum é ruim, pois eu adoro todos os três gêneros e tenho uma queda toda especial pelo horror.
Seria muito bacana falar sobre cada conto, mas aí perderia a graça para o futuro leitor (sim, eu realmente espero que tu leia o livro!). Vou apenas dizer que ler cada conto despertou emoções diversas e elas foram sempre bem intensas. E isso é mais uma prova da qualidade dos contos e, portanto, da coletânea. E um livro que tem monstros, zumbis, psicopatas, cães assassinos, cogumelos (!) assassinos, explosões de arroz, mutantes e outras criaturas horripilantes só pode ser bom!
Terror não é meu gênero favorito, mas tanto o livro quanto os contos são curtinhos, então deu para passar umas horas divertidas. Porém me lembrou um pouco uma antologia de mistério que li uns anos atrás, que tentava mostrar que o gênero existe no Brasil e acabava mostrando que se consegue copiar o que se vê fora (tipo... disso eu nunca duvidei).
Contém: O homem que criava fábulas (Samir Machado de Machado) - gostei da escrita, me lembra mas honestamente gostaria que a família se chamasse Silva. Carne (Guilherme Smee) - achei o ponto de vista original Linguista (Rodrigo Rosp) Cosmologia (Marcelo Juchem) - ótimo final, consegue ser engraçado e me lembrar ao mesmo tempo. Os internos (Gustavo Faraon) Dias de fome, noites de cão (Sergio Napp) O homem dos ratos (Rafael Spinelli) Tempestade em Coney Island (Rafael Kasper) - outro que gostaria que fosse com os Silva em Camboriú. Ventre (Roberta Larini) - achei muito clichê. Funghi (Luciana Thomé) - gostei da atmosfera Vãos (Alessandro Garcia) - uma estória com enredo e personagens bem desenvolvidos (e chamados Silva o/) devido a ser mais longa. Tem uma pegada de . A meia-noite do fim do mundo (Fernando Mantelli) - releitura de Cabeça-de-arroz (Annie Piagetti Muller) O fígado (Silvio Pilau) O desvio (Antonio Xerxenesky) Quando eles chegarem (Rafael Bán Jacobsen) - por um lado seria legal se tivesse tido mais contos de FC, por outro lado eu aí ia querer que fosse ópera espacial em vez de terror.
(Sempre levei como piada o comentário de ter mais homens chamados John do que mulheres em certos grupos - aqui tem 3 mulheres e 3 Rafaéis)
Não vou me alongar aqui. Apenas que se destacam alguns contos, poucos, sendo que o melhor, sem qualquer dúvida, por uma excelente escrita e uma trama que me deixou em suspenso, "Vãos" de Alessandro Garcia. Antônio Xerxenesky também está ótimo em "O desvio". Os dois autores conseguiram traduzir o espírito do suspense e do terror com maestria, além do que, como já destacado, possuem uma linguagem primorosa.
Gostei também bastante de "O homem que criava fábulas" de Samir Machado de Machado, um misto de terror com fantasia, bem pensado e construído. Possui a assinatura elegante de Samir.
Destaca-se também o conto de Rafael Bán Jacobsen, pela escrita, embora não tenha gostado do desenvolvimento, pela história em si.
Nos demais, encontrei um terror quase escatológico, não saindo da mesma trilha, e penso que o terror, como demonstra o conto extra de Lovecraft, demonstra uma riqueza, que falta nos demais contos.
Então tá. Não vou me estender em longas resenhas, mas vou começar a deixar comentários após as leituras dos livros aqui no GoodReads. Vamos lá.
A intenção desta coletânea é louvável, mas o resultado é irregular. Os contos que mais me agradaram foram:
- O desvio, de Antônio Xerxenesky - Quando eles chegaram, de Rafael Bán Jacobsen - Vãos, de Alessandro Garcia
Uma nota quanto ao último: o conto do Alessandro Garcia me pareceu o mais deslocado dentro da antologia, o que não tira o mérito do texto, muito bem trabalhado.
Outros contos de destaque: - O fígado, de Silvio Pilau - O homem que criava fábulas, de Samir Machado de Machado - O homem dos ratos, de Rafael Spinelli - Linguista, de Rodrigo Rosp
Muito irregular, alguns contos são legais e têm fôlego e criatividade, outros são meras cópias de argumentos e narrativas estrangeiras. O interessante é trazer o gênero, ficção científica e fantasia, para a língua portuguesa.