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O Muro Branco

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Romance de plena maturidade literária, pois, O Muro Branco ainda se lê e relê com o mesmo entusiasmo de há trinta anos, não só pelo sentido de «modernidade» expresso no seu tempo narrativo, mas sobretudo pela forma literária, sobreposta e encadeada nos planos diferentes da acção narrativa em que o romance se estrutura. A sua personagem central, Zé Miguel ou Miguel Rico, como passa a ser conhecido, fala e narra a sua própria história da vida de um aventureiro que, tendo vivido uma infância amargurada e após ter sido eguariço, carregador, contrabandista, candongueiro, chega a ser proprietário rural, isto é, um latifundiário que, em dados aspectos, muito se identifica com o celebrado Diogo Relvas de Barranco de Cegos. Assim, toda a história de Miguel Rico é contada num ritmo alternado, de clara visão cinematográfica, visualizada num processo romanesco bem conseguido na interligação dos seus elementos estruturais, em que o passado se confunde claramente com o presente. Mas O Muro Branco é, acima de tudo, o romance de um «homem só», cuja vida foi uma grande aventura na senda do dinheiro e do poder pessoal, na conquista palmo a palmo, e por todos os meios possíveis (claro, ontem e hoje sempre as histórias se repetem), fossem eles de contrabando forçado, compadrio ou escuras manigâncias. E é o romance de um homem isolado, porque de forma consciente ele caminha para a sua destruição e destruição dos mitos que a própria vida o obriga a ter ou criar. Porém, o desespero dramático de Miguel Rico reflecte, por outro lado, uma época de grandes egoísmos, situações quase desnecessárias e ambições desmedidas, ergue-se ainda (e daí a sua flagrante actualidade) como símbolo decadente de uma sociedade ou de certas pessoas que, tal como Miguel Rico, se sentem bem realizadas apenas no convívio com fidalgos, industriais, doutores, lavradores, banqueiros e outra gente que, mesmo nos nossos dias, por aí pulula e só deseja ver a fotografia nos jornais. No bem e no mal dos seus actos, na forma «digna» de enriquecerem depressa e serem, paradigmaticamente, a imagem próxima de Miguel Rico que Alves Redol, na pujança da sua escrita, desejou e conseguiu retratar.

Serafim Ferreira, Dezembro 1998

334 pages, Paperback

First published May 1, 1966

18 people want to read

About the author

Alves Redol

37 books41 followers
Cedo começou a trabalhar dada a natureza modesta da sua família. Parte para Angola, aos 16 anos, procurando melhores condições de vida, regressando a Portugal três anos depois. Junta-se ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), que se opunha ao regime do Estado Novo, e filia-se no Partido Comunista, escrevendo artigos no jornal O Diabo.

Introduziu o neo-realismo em Portugal com o romance Gaibéus (1939), nome dado aos camponeses da Beira que iam fazer a ceifa do arroz ao Ribatejo, em meados do século XX. Daí em diante sua obra revela uma grande preocupação social, velada ainda assim, dada a censura e à perseguição política movida pelo regime de Salazar aos oposicionistas, e mormente aos simpatizantes do PCP, como era o caso. Chegou mesmo a sofrer prisão política tendo sido torturado.

Seu último romance, Barranco de Cegos, de 1962, é considerado sua obra-prima e afirma sua nova fase, em que a intervenção política e social é posta em segundo plano, dando lugar a um centramento nas personagens e na sua evolução psicológica, de cariz existencial.

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Profile Image for Clarinda.
204 reviews
July 30, 2014

A leitura deste livro partiu de uma curiosidade, de um desafio.
Rapidamente fiquei rendida a este livro. Não o consegui deixar, fiz maratona e, gostei muito.
De Alves Redol, só conhecia o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos e A Vida Mágica da Sementinha; agora vou procurar mais, fiquei empolgada com a escrita de Redol.
Um livro magnífico e estranhamente atual. Experimentem!
Profile Image for Virgilio Machado.
235 reviews16 followers
February 22, 2012
O Muro Branco, publicado em 1966 e, sem dúvida, um excelente romance de Alves Redol [...] um dos autores mais prestigiados da corrente neo-realista em Portugal [... L]er, pois, este romance do autor de Gaibéus é, com certeza, retomar o diálogo com um dos escritores portugueses que mais se esforçaram por «actualizar» ou «revigorar» o seu próprio discurso literário. Ou com afirma Maria Lúcia Lepecki, no prefácio da 4.ª edição de O Muro Branco, poder repetir-se que «no meio dessas semelhanças e desses ecos e dessas profecias de alheias vozes», se denota neste excelente romance de Alves Redol «uma postura básica de linguagem, um modo específico e inconfundível de jogar com as palavras», o que garante aos leitores ser um romance que pertence ainda a um tempo renovador das coordenadas da nossa literatura de ficção de melhor qualidade. Por isso, [...] ler Alves Redol é o acto que se impõe para quem deseja confirmar a visão de um mundo passado e esse contraponto necessário, no plano da mais profunda expressão humanizada, para os dias de hoje. Aceite o leitor este desafio e verá como se mantém tão perto de nós a história que O Muro Branco retrata e narra sem nenhuma transigência literária.

Serafim Ferreira, Dezembro 1998
http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=...
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