Romance de plena maturidade literária, pois, O Muro Branco ainda se lê e relê com o mesmo entusiasmo de há trinta anos, não só pelo sentido de «modernidade» expresso no seu tempo narrativo, mas sobretudo pela forma literária, sobreposta e encadeada nos planos diferentes da acção narrativa em que o romance se estrutura. A sua personagem central, Zé Miguel ou Miguel Rico, como passa a ser conhecido, fala e narra a sua própria história da vida de um aventureiro que, tendo vivido uma infância amargurada e após ter sido eguariço, carregador, contrabandista, candongueiro, chega a ser proprietário rural, isto é, um latifundiário que, em dados aspectos, muito se identifica com o celebrado Diogo Relvas de Barranco de Cegos. Assim, toda a história de Miguel Rico é contada num ritmo alternado, de clara visão cinematográfica, visualizada num processo romanesco bem conseguido na interligação dos seus elementos estruturais, em que o passado se confunde claramente com o presente. Mas O Muro Branco é, acima de tudo, o romance de um «homem só», cuja vida foi uma grande aventura na senda do dinheiro e do poder pessoal, na conquista palmo a palmo, e por todos os meios possíveis (claro, ontem e hoje sempre as histórias se repetem), fossem eles de contrabando forçado, compadrio ou escuras manigâncias. E é o romance de um homem isolado, porque de forma consciente ele caminha para a sua destruição e destruição dos mitos que a própria vida o obriga a ter ou criar. Porém, o desespero dramático de Miguel Rico reflecte, por outro lado, uma época de grandes egoísmos, situações quase desnecessárias e ambições desmedidas, ergue-se ainda (e daí a sua flagrante actualidade) como símbolo decadente de uma sociedade ou de certas pessoas que, tal como Miguel Rico, se sentem bem realizadas apenas no convívio com fidalgos, industriais, doutores, lavradores, banqueiros e outra gente que, mesmo nos nossos dias, por aí pulula e só deseja ver a fotografia nos jornais. No bem e no mal dos seus actos, na forma «digna» de enriquecerem depressa e serem, paradigmaticamente, a imagem próxima de Miguel Rico que Alves Redol, na pujança da sua escrita, desejou e conseguiu retratar.
Serafim Ferreira, Dezembro 1998