[CONTÉM HERESIA E MENÇÕES A PIPIS]
crítica a incidir apenas sobre o velho testamento.
não pretendo ofender nenhum crente. se o fizer, lamento e acrescento: é a sua fé tão frágil que treme perante o balbuciar de uma criança?
a bíblia sagrada é, inequivocamente, o livro mais interessante e poderoso que existe. talvez porque é uma obra extrema, na sua genialidade e na sua loucura, na sua beleza e na sua horrenda medíocridade espiritual. a bíblia é o espelho do homem - uma criatura fraca e perdida, capaz de grandes feitos, mas irremediavelmente propensa a rebolar na própria merda. o deus do velho testamento foi criado à nossa imagem.
a bíblia é o homem a inventar deus a inventar o homem - e fá-lo de uma forma tão inocente e clara, tão saloia, que é doloroso pensar que algumas criaturas, neste milénio de bibliotecas acessíveis, possam conceber que o criador - o próprio - concebeu esta obra!
que raio de deus andam a adorar, pessoal? vá lá, puxem pela imaginação, vivam a vida sem medos e preconceitos, exorcizem o vosso ego, atravessem um bosque ou subam uma montanha, e vão ver que conseguem encontrar algo melhor para adorar - algo que não incinere infiéis, nem incite a guerras santas, nem promova a mulher menstruada a ser tratada abaixo de cão.
é bonito e enternecedor o jogo da criança a inventar deus - o problema é quando se mata e queima em nome do deus inventado.
a bíblia é, possivelmente, a maior prova da trágica ineficiência do nosso sistema de ensino, e a mais flagrante testemunha da decadência moral da nossa sociedade - através da forma como é lida e interpretada pela maior parte das pessoas.
claro que o velho testamento deriva do tanakh, e em parte do código babilónico, mas deixemos que a bíblia leve com a culpa toda - será uma irrisória vingança por todos os inocentes perseguidos, torturados e queimados pelos arautos da bíblia.
inadvertidamente, lembrei-me das aulas de religião e moral com a irmã Céu - uma criatura redonda e belfa com uma pronúncia nortenha acutilante. a mulher tinha a paciência de um caniche e o temperamento de um rottweiler a ser electrocutado.
[não lhe guardo qualquer rancor, irmã, e espero que a sua alma descanse na mais deliciosa paz. obrigado e desculpe as minhas imberbes e arrogantes heresias.]
pois bem, as aulas de religião e moral eram uma coisa tão entediante e monstruosa que ninguém punha lá os pés. a única forma que a irmã Céu - e, suponho, todos os docentes de religião e moral do país - tinha de nos manter nas aulas era com chantagem: quem num bier às aulas, num bai à bisita de estoudo!
acontece que as visitas de estudo eram uma bomba e todos queriam ir. essas gloriosas excursões a fátima e a outros locais sagrados foram a adolescente introdução ao sexo, álcool e drogas. sexo desprotegido, álcool em demasia (misturas muito pouco católicas), e charros de uma qualidade grotesca. tudo em nome de deus. tudo imbecilidade adolescente muito preocupante e igualmente denunciadora das falhas da nossa cultura. mas, seguramente, havia lições muito mais importantes e transcendentais a aprender de noite, dentro de perfumadas cuecas e garrafas, do que de dia, em santuários povoados por gente severa e pálida, vestida de negro, incapaz de comunicar e compreender a horda de almas que se perdiam diante deles.
lembro-me da ressacada manhã em que fizemos uma fila para beijar a Lúcia - sim, a pastorinha, agora canonizada. lembro-me de beijar a santa de carne e osso, de manhã, com a minha boca deslavada e ressacada a tresandar a interiores femininos e sagrados. meu deus, que gloriosa coincidência! lembro-me de questionar a minha conduta diante daquela divindade terrestre e de, apesar de jovem, perceber que nada tinha feito de errado na noite anterior - havia bebido, enlouquecido, exagerado, amado sem estar casado, mas sem ofender ou desrespeitar ninguém.
pois a bíblia é linda. sabe a pó e a sangue. resgata cheiros e sons e histórias às profundezas do tempo. poucos livros causam tantos calafrios.
os marotos que escreveram e compilaram a bíblia fazem Sun Tzu e Machiavelli parecerem meninos de coro. porque a bíblia é um manual de guerra, é propaganda nefasta, é um cancro que nos consome há milénios, é o documentário do triunfo do homem sobre a natureza, e da civilização sobre o ritmo ancestral que nos acompanhava desde os primórdios. é o abandonar do ritmo natural e equilibrado, do pacto sagrado que todos os outros seres vivos ainda mantém, enquanto nós devoramos tudo.
a bíblia é um insulto à mulher. esta é desprezada e vilificada em incontáveis situações. há um esforço intencional, por parte de quem escreve, em manter a mulher em baixo - a cozinhar e lavar e a abrir as pernas sempre que o macho deseja satisfazer os seus apetites. a bíblia documenta na perfeição o assassínio das sociedades matriarcais - porque a civilização trouxe o progresso científico e o milagre de permanecer vivo. quando o milagre de gerar vida se tornou secundário, passou a ser mais importante elaborar melhores formas de tirar vidas - lutando, conquistando, impondo um deus e uma cultura.
a bíblia é a prova que a natureza apresenta em tribunal contra o nosso polegar.
a bíblia é uma das primeiras armas de destruição maciça.
o canto de salomão parece um rubaiyat do vinho. é ébrio, erótico, turvo de amor. carmesim. lindo.
anedota: mas porque diabos andaram os israelitas quarenta anos às voltas no deserto? porque um deles, logo nos primeiros dias, perdeu uma moeda.
a bíblia - ainda o mais importante livro de todos os tempos.
agora, de espiritual, practicamente nada. há apenas momentos de admirável êxtase, por vezes, a bafejarem as plumas de quem escreve.
infelizmente, nunca li o novo testamento. mas li esta infeliz e interessante nota de Nietzsche:
"No Velho Testamento hebraico, há homens, coisas e discursos tão grandiosos que nem a literatura da Grécia ou da Índia tem algo que se compare. Permanecemos em espanto e reverência diante destes tremendos resíduos do que o Homem outrora foi... (...) Haver colado este Novo Testamento, este rocócó de mau gosto em todos os aspectos, ao Velho Testamento para formar um só livro... Essa é talvez a maior audácia e o maior pecado contra o espírito que a Europa tem na sua consciência."
- Para Além do Bem e do Mal